Quando pensamos no gênero fantástico no cinema, imediatamente somos transportados para os fantásticos mundos de ‘O Senhor dos Anéis’, ‘Harry Potter’ e ‘As Crônicas de Nárnia’, por exemplo – mas nenhuma dessas narrativas conseguiria chegar às telonas se não fosse em virtude de clássicos da literatura que são revisitados em uma constância assustadora pelos realizadores da indústria. E um desses clássicos desmembra-se em diversos poemas e épicos medievais que deram origem à lenda do Rei Arthur e da Távola Redonda.

De fato, são poucas as pessoas que nunca ouviram falar do icônico monarca – um dos símbolos da cultura celta e britânica que enfrentou males diversos em prol da bondade e da derrota dos males em seu reino. Enquanto alguns personagens que acompanham Arthur também caíram no gosto popular e ascenderam a arquétipos da cultura pop (como Morgana Le Fay, Merlin, Guinevere, Lancelot e Viviane), outros podem ter ficado em segundo plano, motivo pelo qual certos nomes sagazes do cenário do entretenimento contemporâneo resolveram resgatá-los ao mainstream. E este é o caso Gawain.

Nos romances de cavalaria do ciclo arturiano, Gawain é um dos membros da Távola e, mais que isso, um dos companheiros e guerreiros mais próximos do Rei. É claro que, com o passar do tempo, as origens de sua história sofreram alterações, tornando o trabalho dos especialistas um pouco mais difícil do que o normal no tocante historiográfico. De qualquer maneira, costuma-se associar Gawain, também, a Morgause, irmã de Arthur, e a seus irmãos mais novos, Agravain, Gaheris, Gareth e o infame Mordred (uma das construções mais complexas e controversas deste tempo, agindo em egolatria para conquistar o trono da Bretanha). Séculos depois de sua jornada ter sido oculta das massas, o diretor e roteirista David Lowery lhe forneceu uma nova roupagem com a epopeia dramática ‘A Lenda do Cavaleiro Verde’, que finalmente chegou ao Brasil através do Prime Video.



Lowery ganhou fama por sua singela e despretensiosa adaptação de ‘Meu Amigo, o Dragão’ para a Walt Disney Studio, mas logo migrou para o elogiado drama sobrenatural ‘O Fantasma’ – o que nos deixa intrigados quanto ao que nos aguarda. A trama é centrada em Gawain (Dev Patel em uma das melhores rendições de sua carreira), um jovem afiliado à corte arturiana que ainda é jovem demais para ter narrativas tão fabulosas quanto os outros cavaleiros que se sentam à Távola. Entretanto, as coisas mudam drasticamente com a visita de uma criatura poderosa conhecida como Cavaleiro Verde, que faz um desafio aos presentes: qualquer um que o golpeá-lo será presenteado com um poderoso machado. Porém, em um ano, essa pessoa deverá reencontrá-lo para sofrer o mesmo golpe – e Gawain, decidido a eternizar o próprio nome, posta-se à frente e corta a cabeça do Cavaleiro.

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O cineasta mergulha de cabeça na mitologia em questão e resolve promover uma cisão entre as infinitas adaptações que vieram antes. O resultado é uma belíssima reflexão intimista que se afasta das fórmulas de ação e fantasia a que estamos acostumados, apresentando uma análise quase antropológica sobre a ambição humana e como esse aspecto intrínseco ao nosso caráter entra em conflito com o significado de honra e caráter. Lowery supera as expectativas ao dar vida a uma gritante sinestesia de cores, sons e acepções que deixa o público vidrado do começo ao fim – e enxuga duas horas em uma frenética luta do homem contra o homem.

É notável como o longa-metragem bebe muito da ancestralidade imortal da Jornada do Herói, de Joseph Campbell, mas sem deixar que a identidade da história de que se vale seja perdida. Há um claro arco pelo qual Gawain deve seguir, saindo de sua zona de conforto na corte e enfrentando obstáculos ao longo do caminho até alcançar seu destino (o que acreditamos ser a morte). Afinal, à época, enfrentar o que a predestinação aguardava era motivo de cobiça pelos cavaleiros e guerreiros medievais – e fugir dela era passível de desonra e de desmantelamento da reputação. Gawain sabe o que ele deve fazer e é tentado a desistir e voltar para casa em mais de uma ocasião: no meio do caminho, ele é enganado por um Carniceiro (Barry Keoghan), que rouba suas roupas, armas e seu cavalo; pouco depois, é acompanhado por uma raposa, que, apesar de ajudá-lo em alguns momentos, mostra-se como uma manipuladora criatura que quer convencê-lo de que correr é a melhor solução; quando acolhido por um Lorde (Joel Edgerton), tem sua honra testada pelas investidas propositais da Lady (Alicia Vikander).



Mesmo após o que foi mencionado no parágrafo acima, ele persevera e encontra seu algoz, trocando de papéis com o Cavaleiro Verde. É aqui que a cronologia se envolve em um turbilhão frenético e mostra o que poderia ter sido caso ele não cumprisse com a promessa e voltasse para casa – perdendo a cabeça de qualquer maneira pela ruína de sua casa e pela perda de status como futuro Rei. Assim que aceita que a honra pode ser a salvação, Lowery nos engolfa em um desfecho ambíguo que, propositalmente, abre interpretações diversas sobre o que realmente acontece a Gawain.

A verdade é que cada uma das engrenagens funciona com perfeição, desde a poderosa atuação de Patel como o protagonista às escolhas imagéticas irretocáveis do time criativo. Seguindo o título do filme, temos uma obviedade artística traduzida por um filtro esverdeado e melancólico que acompanha os personagens – uma escolha prática, ainda que fuja da proposta audaciosa da produção. Mas a fotografia e a montagem, que se associam ao parâmetro da A24, ofuscam os mínimos deslizes da obra e convidam o espectador a se envolver em níveis intimistas de cada persona.

‘A Lenda do Cavaleiro Verde’ pode ter chegado em território nacional apenas em 2022 – mas a espera valeu a pena. É uma pena que um filme de tamanho calibre venha sido esnobada nas temporadas de premiações, o que só confirma sua grandiosidade e as camadas que se escondem sob a superfície. Ademais, o resultado é estrondoso e nos deixa pensativos por um bom tempo.



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