Com uma estreia exuberante nos cinemas com Vidas Passadas (2023), selada com duas indicações ao Oscar — de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original — e entrada na lista de melhores filmes do século XXI, Celine Song tornou-se um dos nomes de destaque do cinema independente estadunidense de maneira meteórica. Logo em seguida, emendou o projeto desta comédia romântica Amores Materialistas (Materialists) com nomes conhecidos no elenco e uma expectativa tão alta que se tornava difícil de alcançar.
Com uma cena de abertura pautada no estilo das comédias românticas nova-iorquinas, a narrativa acompanha Lucy (Dakota Johnson) se arrumando para o trabalho e nas ruas da cidade. Ela está prestes a encontrar uma de suas clientes em um café e tentar motivá-la apesar da falta de boas notícias. Embora Sophie (Zoë Winters) esteja empolgada com o encontro de ontem à noite, o cara já a dispensou. Como uma boa matchmaker, ou casamenteira profissional, em português, Lucy trabalha o seu discurso para moderar expectativas e manter viva a esperança do par perfeito.

Sendo uma das profissões reconhecidas a partir do século XIX dentro de algumas culturas como judaicas e hindus, o casamenteiro profissional tornou-se uma espécie de intermediador de negociações para pessoas de alto poder aquisitivo e uma idade mais avançada. O conceito de Amores Materialistas é muito bom e dialoga bastante com as teorias do sociólogo Zygmunt Bauman no livro Amor Líquido (2003), no qual ele faz alusões de investimentos amorosos serem considerados como investimentos financeiros na sociedade moderna. O objetivo é ter retorno imediato — ou frustração rápida, caso o prazer desejado não se concretize.
De forma bastante prática e divertida, Celine Song apresenta um roteiro contundente de provocações e carapuças sociais para nossos valores escusos na hora de escolher um parceiro. Em uma das muitas boas cenas do filme, Lucy tenta analisar os receios de uma das suas clientes minutos antes da cerimônia de casamento. Ela se questiona: por que ele? De maneira lacaniana, Lucy consegue que a própria noiva encontre a sua resposta. O roteiro traça paralelos entre o casamenteiro — que lida de forma prática com os dilemas — e o analista, que os explora em profundidade.

Do início ao fim, os diálogos de Amores Materialistas são envoltos de boas teorias, processos lógicos, belos discursos e embates sociológicos. Falta, entretanto, o que realmente faz um romance arder: a centelha emocional. A direção de Celine Song seleciona cada plano e sequência com esmero a fim de encontrarmos esses pontos de inflexão. A dinâmica entre o rico e charmoso Harry (Pedro Pascal) e a esperta e pragmática Lucy é artesanal, cheia de muros a serem derrubados e muita argila para modelar.
Contudo, quanto mais entramos na dinâmica desse relacionamento, somos lembrados que existe um outro personagem nessa equação, o ex-namorado bem apessoado, gentil, porém falido John (Chris Evans). Depois de anos, o reencontro com John ocorre na mesma noite em que Lucy e Harry se conhecem. De forma genuína, Lucy se permite abraçar a nostalgia do passado e duvidar das possibilidades do futuro.

Como reiterado nesse texto, o roteiro é plausível, límpido, sem ser óbvio, joga com a dúvida das circunstâncias da vida. Como em Vidas Passadas, nunca é estabelecido um triângulo amoroso de fato, mas possibilidades de relacionamentos em diferentes momentos. Com mais de 30 anos, a protagonista está bem segura de suas metas, mas seus traumas a fazem titubear entre boas escolhas sociais e pessoais, como todos nós. Pedro Pascal e Dakota Johnson protagonizam uma cena emblemática no meio da cozinha durante a madrugada, a qual todo casal em início de relacionamento deve ter, a partir da pergunta: estamos na mesma página?
Tendo como meta enriquecer, pois veio de uma família pobre, Lucy é materialista tanto quanto os seus clientes, e, portanto, consegue lidar com eles. Quando ocorre uma “falha” no seu sistema de encontros, ela sente-se extremamente culpada, mas não somente pelo erro, mas porque ela está passando por dúvidas em sua vida pessoal e as duas coisas juntas causam uma disjunção de certezas.

Acompanhar o percurso de Lucy durante poucos meses é agradável, mas falta sentir conexão com ela e os seus sentimentos. Com todos os acertos, o erro seria na escolha de um casal sem química? Certamente. Nenhum ator está mal sozinho no filme, mas como casal falta brilho no olhar, falta tensão sexual ou, até mesmo, sorrisos cúmplices. As palavras de Celine estão em cena, mas o jogo de movimentos, toques e sedução não aparece entre eles.
O charme do filme se debruça no olhar e no tom atrevido de Pedro Pascal. Embora Dakota Johnson esteja muito melhor que seus últimos papéis (Está Tudo Bem Comigo? e Madame Teia), ainda falta expressar um ponto de impacto entre os espectadores e sua personagem. Algo distante de suas habilidades, mesmo que ela tenha tido um bom desempenho como coadjuvante em A Filha Perdida (2021), de Maggie Gyllenhaal.

Amores Materialistas é sobre autodescobrimento em uma era neoliberal, na qual as relações amorosas voltaram a ser tratadas como transações, como ocorria antes da Revolução Industrial sobre bens e laços financeiros — ao menos nas classes sociais elevadas. Mas ao invés de unir reinos e territórios, estamos discutindo expectativas econômicas de vida. Afinal, depois de tanto investimento em si mesmo — educacional, profissional e estético — queremos alguém ao nosso lado que faça todo esse esforço ser valorizado: seja com um modelo bonito na foto, seja na vida cotidiana sem perrengues e prestações a pagar.
No fim das contas, o ensaio sociológico, o cinismo e os riscos de más escolhas são mais relevantes que o par romântico e a decisão final da protagonista. Para quem se sentiu submergido por Vidas Passadas, Amores Materialistas é apenas algumas gotas de uma chuva de verão.
Lançado em 13 de junho nos Estados Unidos, Amores Materialistas chega aos cinemas brasileiros no dia 30 de julho com distribuição da Sony Pictures Brasil.
