O Oscar 2021 foi diferente. Muitos filmes que deveriam ter estreado antes da cerimônia, na época da corrida das indicações, estão só estreando nas salas brasileiras agora, no segundo semestre, devido às inúmeras mudanças que as grades de cinema sofreram desde o início da pandemia. Um desses filmes é o então representante da Rússia na corrida pela estatueta dourada, ‘Caros Camaradas! Trabalhadores em Luta’, estreia da semana nas salas de todo o país.

Lyuda (Yuliya Vysotskaya) trabalha no escritório regional da KGB em Novocherkassk e acredita fortemente na forma de gerenciar o país que o governo russo sustenta, apesar de seu próprio pai (Sergei Erlish) e sua própria filha, Svetka (Yuliya Burova) discordarem sobre como as coisas estão caminhando e até mesmo comentarem que na época de Stalin as coisas eram diferentes. Eles não são os únicos insatisfeitos com a limitação da quantidade de ração e de produtos que podem ser comprados por habitante na cidade. Então, quando um terço dos salários dos funcionários da fábrica de locomotiva local é cortado, os funcionários entram em greve e protestam diante do escritório da KGB e, para desgosto de Lyuda, sua filha está entre os grevistas. Quando o protesto sai de controle e Svetka fica desaparecida, Lyuda passa a repensar se sua crença cega no sistema político russo foi realmente a melhor escolha para a sua família.



Com pouco mais de duas horas de duração, ‘Caros Camaradas! Trabalhadores em Luta’ parte deste episódio para convidar o espectador a ter uma visão mais de dentro dos fatos; ao seguirmos o desenrolar da trama acompanhando a protagonista que vive um conflito ideológico entre seu trabalho e suas convicções políticas e o bem-estar de sua família, vamos nós mesmos, também, questionando o quão benéfico e o quão maléfico era o sistema social-comunista vigente no ano de 1962, quando se passa o longa.

Sem determinar o que é certo ou errado, o filme de Andrey Konchalovskiy permite que o espectador tire suas conclusões sozinho. Para tal, o roteiro de Elena Kiseleva e Andrey Konchalovskiy por vezes apresenta os fatos na velocidade em que ocorrem, fazendo com que tanto espectador quanto protagonista sejam surpreendidos pelas ocorrências. Ainda que alguns cortes abruptos se somem ao conjunto, o filme tem uma pesada carga dramática, que nos faz refletir sobre a existência de outros tantos episódios semelhantes que ocorreram na região, mas que nunca vieram à público, abafados por bloqueios sociais que não permitem que as informações vazem para o âmbito internacional, caracterizando-as como “atividades antisoviéticas”, como o próprio filme diz. Ainda que a URSS tenha acabado, posturas sociopolíticas como essa ainda são praticadas na região.

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Inspirado na história real da revolta dos trabalhadores da província de Novocherkassk, que culminou em um terrível massacre acobertado pela KGB e pelo exército russo, ‘Caros Camaradas! Trabalhadores em Luta’ faz um angustiante retrato de um dos episódios mais sangrentos e obscuros da história russa. Felizmente hoje é possível falar abertamente sobre fatos como este – razão pela qual o espectador brasileiro que se interessa pelo tema não pode perder a oportunidade de ver o longa nos cinemas.



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