A indústria cinematográfica estadunidense tem muito dinheiro, isso é um fato. E quando se tem muito em caixa, é possível de vez em quando apostar em produções que não necessariamente sejam grandes histórias, mas que, por alguma razão, chama a atenção de algum produtor hollywoodiano – como é o caso de ‘Crime e Desejo’, filme que chega esse final de semana nas plataformas de aluguel de streaming brasileiros.

Numa pequena e entediante cidadezinha do interior do Kentucky, Susan Smith (Emilia Clarke) passa seus dias tentando sobreviver aos impactos econômicos sofridos após a desativação das minas locais. Sobrou-lhe apenas tentar ganhar dinheiro vendendo drogas para alguns moradores que visitam sua casa com Cash (Johnny Knoxville). Um dia, Susan bate os olhos em Mark (Jack Huston), o novo agente do FBI transferido para o local junto com a esposa, Kathy (Sophie Lowe) e sua família perfeita. Imediatamente Susan passa a invejar o casal. Então, uma série de assaltos a bancos locais faz com que o mundo desses dois acabem se juntando, e Susan se torna a informante de Mark.



Basicamente, a história é só essa mesma. O que é bastante decepcionante, uma vez que o projeto conseguiu atrair Emilia Clarke para o papel principal. A atriz revelação de ‘Game of Thrones’ até está ok em cena, mas parece fora do lugar na trama: ou sua maquiagem está arrumadinha demais para alguém pobre viciada em drogas e cujo senso estético não se perdeu no caminho; ou o filme tenta passar uma ideia de que Susan é uma mulher desejável, ainda que viciada, e neste ponto Emilia Clarke não convence – a bem da verdade, fica até contraditório.

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Narrado pela protagonista, o roteiro de Chris Gerolmo parte do ponto de vista de Susan para contar a ordem dos fatores, porém, a partir do momento em que a vida dela se cruza com a de Mark, o roteiro se inverte e passa a favorecer o personagem masculino, acompanhando as experiências dele. Ao fazê-lo, o roteiro toma partido nessa história que é baseada em fato real, relatado no livro de Joe Sharkey, e de protagonista da própria história rapidamente Susan é moldada como mais uma maluca obsessiva que cismou com o pobre coitado do agente do FBI, destruindo-lhe a vida.

Caberia a Philip Noyce ter tentado dirigir um filme que de alguma forma se esforçasse em engajar o espectador a sentir empatia pelos personagens, ainda que eles não sejam perfeitos. Porém, em uma hora e quarenta de duração ‘Crime e Desejo’ se propõe a apresentar uma história nem um pouco original, que não traz nenhuma mensagem especial e que ainda por cima vem envelopada com um falso ar obscuro, seja pela paleta de cores azuis que dão o tom do longa, seja pelas cenas aceleradas de consumo de drogas, violência e sexo.

Filmado em 2017 e estreado em 2019, ‘Crime e Desejo’ chega somente agora aos espectadores brasileiros, mas só vale mesmo para matar as saudades de Emilia Clarke – que, convenhamos, já fez coisa melhor depois desse filme.



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