Desde sua origem nos quadrinhos, quando apareceu pela primeira vez na obra seminal de Neil Gaiman, Sandman, o personagem Lucifer nunca foi assim tão popular, entretanto, dentro do selo Vertigo, conquistou um bom número de fãs que se mostraram fiéis a ponto do título ganhar um spin-off e depois ser margem para uma série televisiva. Programa este que pode ser descrito da mesma maneira, isto por ter carregado um número considerável de fãs e obrigado a FOX produzir três temporadas, uma maior que a outra. Porém, como devem lembrar, já na reta final da terceira temporada, a emissora que agora pertence a Disney decidiu cancelar o show por achar que o custo de produção era alto em detrimento a baixa audiência enfrentada naquele momento. Talvez pelo fato de soltarem tantos episódios numa só temporada – 26 no último ano dessa fase – e ainda seguirem uma linha procedural em que os capítulos funcionam isoladamente, o público não tenha tido paciência.

Algo que se provou pela comoção dos fãs que, junto à própria equipe da produção, incluindo os atores, criaram o movimento #SaveLucifer para que algum serviço de streaming pudesse dar a chance dos roteiristas ao menos fazerem um final no mínimo digno, já que a terceira parte terminou com um imenso e proposital cliffhanger e dois episódios já guardados para uma possível quarta parte. Sim, esses dois episódios, que nada tinham a ver com a trama central que estava sendo desenvolvida, foram (jogados) adicionados ao que seria a última season.

Digo que seria, do verbo passado, porque felizmente a Netflix resolveu salvar Lucifer – assim como fez com The Killing, Black Mirror e a recente Manifest. Mais do que isso, além de enxugar para dez episódios e reestrutura a série num formato mais linear, que seguia uma trama fixa, se dando ao luxo de continuar abordando os ‘casos semanais’, injetou muita grana e deu outro patamar ao nível da produção. O resultado foi instantâneo com Lucifer ficando, por semanas, entre os dez mais vistos da plataforma em 2019 e ganhando sinal verde para renovar não só uma, mas duas temporadas extras.



Apesar de tudo, alguma hora Lucifer tinha que chegar ao fim, e dessa vez isso aconteceu nesta nova 6ª temporada, agora com tudo feito de maneira mais calma e com a aprovação de toda equipe, dos produtores aos atores. Muito porque a mudança mais interessante que adveio à obra, do ponto de vista artístico, após a migração para a Netflix, foi a liberdade que deram aos showrunners. É claro que sempre tivemos coisas como piadas ácidas, alfinetadas nas religiões ou mesmo um ou outro pequeno número musical, sempre focados em Tom Ellis. Só que, ao chagarem na nova casa, a mudança foi tão radical que até parte da estética visual foi remodelada. O que falar então da insanidade narrativa, de novos elementos como mais performances musicais, inusitados formatos de linguagem e, claro, as infindáveis tiradas e cutucadas (inclusive na própria FOX) que foram elevadas a enésima potência. Mesmo os atores pareciam mais confortáveis em cena. E o ápice disso tudo pode ser conferido nessa última temporada, que parece ter chutado o balde de vez, no melhor sentido da expressão.

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Não vamos dar spoilers diretos, mas podemos adiantar que muitas pontas soltas foram amarradas e da mesma maneira tiveram um cuidado especial com cada personagem. Mesmo parecendo que, à primeira vista, tudo terminou numa espécie de final feliz, muitas perdas e despedidas de grandes personagens aconteceram sem a menor cerimônia; reencontros que geraram um novo e ardente romance lesboafetivo; a importância de ressaltarem a independência e o valor das mulheres da trama como um todo; e, claro, o desfecho corajoso do protagonista, algo que foi construído de maneira inteligente através de um dilema familiar que começou no ano anterior e terminou nesse de maneira orgânica, sem nenhuma histeria. Estes são só alguns exemplos que demonstram o quanto foram condizentes no ato final.

E pra quem achava que não teria nada de novo nessa nova temporada, se enganou redondamente, pois uma nova e curiosa história foi adicionada à trama, sobrepondo uma camada dramática ainda maior e colocando o então inabalável Lucifer Morningstar num dilema inédito, mas sempre verossímil devido a performance irretocável de Tom Ellis. O que nos leva justamente a grande surpresa dessa nova season, que não à toa rouba a cena, a angelicamente infernal Rory, que ganha força pela presença intensa da atriz Brianna Hildebrand – pra quem não lembra, ela foi a Míssil Adolescente Megassônico nos filmes do Deadpool. É interessante que você descubra, mas saiba que a chegada da garota provoca uma virada brutal na vida do Diabo e também da detetive Chloe Decker, onde vemos Lauren German nitidamente emocionada em diversos momentos, especialmente àquele que divide o piano com o próprio Ellis. Para quem ainda não sabe, German dedicou sete anos de sua carreira exclusivamente a Lucifer, desde que deixou Chicago Fire.



Como já comentamos, outro ponto que chama atenção são os formatos e ferramentas utilizados. Além de vários números musicais (com destaque para uma apresentação memorável de Ellis com a Bob the Drag Queen, vencedora da oitava temporada de RuPaul’s), do habitual viés detetivesco, da homenagem ao filme Ghost – Do Outro Lado da Vida (1990) com o Dan (Kevin Alejandro), e até de um exercício de linguagem que apresenta os principais personagens da história pela visão particular da psicóloga Linda (Rachael Harris), temos também dessa vez um episódio em desenho animado, sim, uma animação cartoon clássica – que, como não podia deixar de ser, é repleto de piadas irônicas e atira para todo lado da indústria. Enfim, são pequenas coisas como estas que tornam Lucifer um grande barato. É diversão em estado bruto. Sem dúvidas, por todo resumo da opera, a série vai deixar saudades naqueles que seguiram até o fim e viram que ali havia algo de especial, afora ser apenas mais uma adaptação dos quadrinhos que trazia um super-herói que se achava. O debochado “Hello detective” vai fazer falta.

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