Durante as décadas 1960 e 70, Madame Claude (Karole Rocher), cujo nome verdadeiro era Fernande Grudet, chefiava uma enorme rede de prostituição de luxo em Paris. Seus clientes eram políticos, artistas e grandes empresários, entre eles Marlon Brando e J.F. Kennedy. Com esta premissa,  apresenta uma contexto instigante e atiça a nossa atenção sobre uma mulher comandante de um império do sexo. A constituição dos fatos, no entanto, é enrolada e a protagonista perde destaque para a coadjuvante Sidonie (Garance Marillier), enquanto a trama política é deixada em plano secundário. 

Planejado a priori para ser lançado nos cinemas, o longa de Sylvie Verheyde (Confissões de um Jovem Apaixonado) chega ao Brasil e ao mundo através da Netflix, a partir de 2 de abril. Conhecida na França como a “Cafetina da República”, a história de Madame Claude era uma promessa de intrigas, jogos de poder e o sexo como ferramenta de manipulação. A narrativa em primeira pessoa, no entanto, exibe um caráter mais introspectivo e um recital de memórias da “mafiosa”. 



A primeira parte do roteiro apresenta Madame Claude já no poder de negociação com a polícia e os seus protetores no ano de 1968. O plot inicial é a chegada de novas  integrantes à sua equipe de mais de 200 garotas de programa. Assim, entram em cena a misteriosa Sidonie (Garance Marillier) e a ingênua Virginie (Liah O’Prey), as quais terão destinos completamente opostos na trama. O poder de dominação de Claude é apresentado no trato com as meninas e seus relacionamentos fugazes com os homens.

Em breves relatos, a narradora condensa o seu percurso em uma criação provinciana, uma gravidez indesejada, uma desilusão amorosa aos 25 anos e uma tentativa de suicídio. Ela deixa a filha com a mãe no interior e começa a construir sua vida pelas calçadas de Paris. O discurso é forte, contudo, Karole Rocher (Madame Hyde) não é tão eloquente na pele da protagonista e, por isso, a jovem atriz francesa Garance Marillier, conhecida pelo papel de Justine no terror Raw (2016), toma a cena. 

Se no começo, a nova contrata Sidonie apresenta-se como uma profissional do sexo nata e refinada, isto é, fria e burguesa, ela também encena um papel dúbio entre pupila e traidora. No desenrolar da história, o seu personagem é sugerido como o provocador da queda de Madame Claude de modo desconexo com a realidade e, até mesmo, banal. Protegida pelo governo francês e dona de uma invejável conexão com homens poderosos, Madame Claude era um mito no mundo dos negócios e tinha uma sensualidade de saltar aos olhos, tanto para suas agenciadas quanto para os seus clientes, os quais ela chamava de “amigos”. 

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Os favores que ela concedia aos interesses políticos do período dos ex-presidentes Charles De Gaulle e Georges Pompidou são os motivos de colocá-la em uma posição de poder, privilégio e, ao decorrer do tempo, risco. A produção, no entanto, não abrange grandes explicações da sua queda e formula discussões tais como “os tempos mudaram”, além de colocar o pai de Sidonie como um dos vilões ao lado do incógnito homem do governo (Pierre Deladonchamps). 

Anteriormente, o caso de Madame Claude ganhou as telonas pelas mãos do cineasta Just Jaeckin em 1977. Ele é responsável pelos clássicos eróticos Emmanuelle (1974) e A História de ‘O’ (1975), portanto, a primeira adaptação tinha uma potência muito mais sensual do que a realizada em 2020. Obviamente, o sexo e a nudez estão presentes na versão apresentada pela Netflix, mas de forma mais branda. O olhar do filme é sobre a mulher no poder e a derrocada do seu império. 



Em contrapartida, Os Segredos de Madame Claude perde o fôlego próximo aos seus 30 minutos finais. Perseguida por uma ameaça fantasma, a chefona vê-se obrigada a abandonar o país, contudo ela volta à França em 1985 e tenta retomar os seus negócios em 1992. Todo esse período do exílio ao retorno à sua pátria é contato de forma ligeira e sem capricho. O ritmo se perde e as imagens se apoiam na narrativa em tom monótono e repetitivo de Karole Rocher, a qual trabalhou com a diretora em outros três longa-metragens.

Com sua fiel atriz, Sylvie Verheyde compôs uma obra metódica e comezinha para uma personagem ousada e manipuladora. Além do pouco cuidado com a temporalidade e uma mistura inadequada de cenas reais de Fernande Grudet, completamente diferente da protagonista, Os Segredos de Madame Claude transforma uma mítica intriga policial e política em um relato simplificado do poder da prostituição na França e o castigo da sua exploradora. A decepção é tal como se em Prenda-me se for Capaz (2002), o charmoso falsário Frank Abagnale Jr. (Leonardo DiCaprio) fosse interpretado por David Schwimmer (da série Friends) e resumido como um simples criminoso.

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