Duplamente ganhadora do prêmio Nobel, Marie Curie é um nome marcante na história mundial e esta cinebiografia tenta compartilhar seu percurso de conquistas e realizações. Contudo, baseado no livro de Laura Redniss, o roteiro de Jack Thorne (Extraordinário) promove rupturas bruscas em tom documental, exagera lamúrias fúnebres e desenvolve diálogos pouco realísticos. 

Embora a adaptação seja mal estruturada, Radioactive possui o seu mérito na busca de representar a luta de Marie Curie (Rosamund Pike), nascida Maria Skłodowska, em defesa de suas ideias e escolhas numa sociedade totalmente patriarcal e moralista. Na Paris do final do século XIX, a imigrante polonesa tenta ganhar o seu espaço de pesquisa e respeito na Universidade de Paris Sorbonne, mas é descredenciada pelos seus colegas cientistas, encabeçados pelo Professor Lippmann (Simon Russell Beale). 

De outro lado, um casual encontro com o pesquisador Pierre Curie (Sam Riley) abre uma porta para a investigadora científica. Apesar da retratação dos acontecimentos ser sofrível, ambos os atores constroem personagens dignos. Rosamund Pike registra uma mulher diligente, dura e duvidosa das reais intenções – com razão – da ajuda de outro pesquisador. Já Sam Riley entrega um amante e admirador gracioso, ao mesmo tempo em que torna-se um obstáculo aos saltos de Marie. 

Juntos, eles apresentam ao mundo a descoberta da radioatividade, além de dois novos elementos químicos, Polônio e Rádio. Casados, com duas filhas, o anúncio da concessão do prêmio Nobel a Pierre Curie cai como uma bomba nas ambições da obstinada cientista. Com a narrativa em flashback, o filme começa em 1934, quando madame Curie é levada ao hospital em seus últimos dias e relembra a perda da sua mãe na infância. A técnica é um recurso habitual em cinebiografias, haja vista a recente Rocketman (2019) e A Dama de Ferro (2011). 

Em contrapartida, o roteirista Jack Thorne ousa em rupturas flash-forward para apresentar, quase que didaticamente, os malefícios e benefícios das descobertas de Curie no futuro. Há movimentos insistentes ao acontecimento da bomba atômica na cidade Hiroshima, em 1945, e o acidente nuclear em Chernobyl, em 1986, além do contraponto de um drama particular no tratamento do câncer infantil por radiação, em 1954, nos Estados Unidos. 

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Este movimento de ida ao futuro histórico não é usual e bem utilizado. Até porque, ele corta o envolvimento do espectador com a construção da narrativa da biografada a fim de desenhar explicações descabidas ao momento. Fora os escorregões do enredo, o filme da franco-iraniana Marjane Satrapi manobra uma perspectiva amorosa para além da vida, semelhante a utilizada pelo roteirista Abi Morgan nas conversas entre Margaret Thatcher (Meryl Streep) e o seu falecido marido Denis Thatcher (Jim Broadbent), no já citado A Dama de Ferro

Famosa pela animação autobiográfica Persépolis (2007), Satrapi não se mostra tão inspirada neste projeto ao lidar com temas familiares às suas obras, como os fantasmas da xenofobia e do patriarcado. Isso porque as agruras da personagem são centradas em uma remota prisão sentimental ao marido e seu status civil, ao invés dos holofotes estarem sobre sua história de pioneirismo e representatividade feminina no mundo científico, além do seu impetuoso desapego a convenções. 

Apesar dos seus enormes feitos científicos, os franceses a julgaram por ser estrangeira, ateia e amante. Os contrastes para essas perseguições são apresentados apenas em frases soltas pelos personagens, tal como: “Não vou deixar a minha vida pessoal ser mais importante do que meu trabalho científico”, dita por Marie. Ou por sua filha Irène (Anya Taylor-Joy): “Deve ter sido muito difícil ter feito que você fez sendo uma mulher”. 

Lançado no Festival de Toronto 2019, Radioactive se assemelha mais a um docudrama televisivo do que a uma envolvente trama cinematográfica. Diferente, por exemplo, da representação da genialidade e percalços de cientistas como Alan Turing, em O Jogo da Imitação (2014), Stephen Hawking, em A Teoria de Tudo (2014) e John Nash, em Um Mente Brilhante (2001).

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