Crítica | Rio de Sangue – Giovanna Antonelli Quebra Tudo em Impressionante Filme de Ação

Os filmes de ação mais popularmente conhecidos em geral têm protagonismo masculino, o que contribuiu para que muitas carreiras de artistas desse meio pudessem ser alavancadas, afinal, neste gênero o ator consegue sinalizar para a indústria que topa qualquer parada, que possui habilidades marciais ou que simplesmente consegue conduzir uma trama desse tipo mantendo a irredutibilidade clássica dos protagonistas. Mas tudo isso também pode ser encontrado caso o protagonismo seja feminino, e é exatamente o que vemos em ‘Rio de Sangue’, novo filme de ação com thriller brasileiro que chega aos cinemas essa semana.

Rio de Sangue

Trindade (Giovanna Antonelli, de ‘Beleza Fatal’) é o tipo de policial que não mede perigo nem esforço para botar marmanjo na cadeia. Porém, esse tipo de postura acabou colocando a todos em risco, e, por isso, ela foi obrigada a se afastar de São Paulo e, sem opção, viajou para o Pará, onde vive sua filha, Luiza (Alice Wegmann, de ‘Rensga Hits!’), que trabalha lá como médica voluntária numa ONG. Mas a recepção não é das melhores, afinal, Luiza está indo viajar para uma missão no interior da Amazônia. Resignada, Trindade fica na casa, meio entediada, mas rapidamente seu tédio é interrompido com a notícia de que sua filha e o namorado dela, o ativista Manacá (Rui Ricardo Diaz, de ‘Cinco Tipos de Medo’) foram sequestrados por um grupo de garimpeiros ilegais. Assim, para salvar a filha, Trindade não medirá esforços, mesmo que, para isso, coloque sua própria segurança em risco.

Filmado em São Paulo e majoritariamente em duas cidades do Pará, as locações de ‘Rio de Sangue’ são um deslumbre para aliviar os olhos no panorama de uma história densa. O enredo parte da realidade urbana paulistana para conduzir a narrativa para a imensidão amazônica, onde tudo se amplifica dentro do silêncio midiático de uma região eternamente em disputa e invasão por conta dos garimpeiros ilegais.

As cenas de ação elevam a adrenalina aos níveis dos clássicos filmes de ação dos anos 80. Stallone e Chuck Norris aplaudiriam as cenas de Antonelli como uma Trindade pouco sorrisos e muita pancadaria. Sem receios, a atriz entra na lama, no igarapé e não mede força na hora de trocar uns socos com Felipe Simas. Também as cenas de perseguição empolgam, imprimindo ritmo na narrativa que, aliás, é bem narrada por Mario (Fidelis Baniwa), ora em português, ora em Munduruku.

Rio de Sangue

De uma forma geral o elenco todo está bem, com destaque, claro, aos vilões Antonio Calloni, que faz o chefão do garimpo Polaco, e seu frágil e mimado filho Jadson (Ravel Andrade), que contrasta com o braço direito implacável interpretado por Felipe Simas que disputa a atenção do chefão com o canastrão Wanderson (Vinicius de Oliveira, que tá bem vilãozão).

Enquanto a execução foi bem alinhada, é no roteiro que encontramos algumas vírgulas destoantes, a começar pela questão do garimpo ilegal, que parte como um motivador no enredo para, ao longo do filme, se realocar para um pano de fundo quase indiferente aos acontecimentos. A ação, a violência, os personagens estão ali acontecendo a história, mas faltou abordar a questão do garimpo e seus impactos efetivos nas populações locais e seus reflexos para o urbano.

‘Rio de Sangue’ é um filme de ação recheado de elementos clássicos dos filmes de gênero e entrega tudo que se espera. Com uma direção ambiciosa de Gustavo Bonafé (de ‘O Doutrinador’), o filme mantém a adrenalina e prende a atenção desde seu início, cumprindo-se como um bom título no quesito dos filmes “tiro-bomba-explosão”, com as vantagens de ser brasileiro, protagonizado por mulheres e trazendo uma história enraizadamente nossa. ‘Rio de Sangue’ é para ser visto em tela grande.

Rio de Sangue

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.