Crítica | ‘Rua do Medo – Parte 3: 1666’ conclui de forma satisfatória a trilogia slasher da Netflix

No terceiro capítulo da trilogia slasher Rua do Medo, a diretora Leigh Janiak resolve nos levar ainda mais longe no passado e nos transporta para o místico e conturbado século XVII com ‘1666’. Mergulhando de cabeça nos escritos de R.L. Stine, um dos mestres do terror jovem-adulto, Janiak une-se novamente com uma talentosa equipe criativa para uma sólida e inesperada conclusão – que pode não ser tão instigante quanto o longa-metragem anterior, mas traz todos os elementos necessários para nos manter envolvidos do começo ao fim.

A saga começou com o pé esquerdo, por assim dizer, resvalando em tramas circinais e vários clichês fora de lugar. O mesmo não pode ser dito do divertido e sangrento ‘1978’, que conseguiu usar as fórmulas de uma forma competente, ainda que fazendo total alusão à franquia Sexta-Feira 13. Agora, as principais inspirações se destinam ao terror psicológico ‘A Bruxa’ e ao suspense ‘A Vila’, migrando para uma época repleta de tabus e da caça a qualquer um que fugisse à “normalidade”. É nesse contexto que Deena (Kiana Madeira) encarna a notória antagonista Sarah Fier para descobrir o que aconteceu – e quais foram as misteriosas circunstâncias de sua morte.

A princípio, lidamos com um drama de época que remonta a Salem, famosa cidade de Massachusetts conhecida pelo tribunal que condenou à forca inúmeras pessoas inocentes culpadas de bruxaria ou pacto com o diabo. Sarah era apenas uma menina que escondia a verdadeira identidade e mantinha um romance secreto com Hannah Miller (Olivia Scott Welch), aproveitando escapadas noturnas para experimentar a liberdade. Quando presa à retrógrada ideologia de sua comunidade, ajudava o pai em casa e mantinha-se fora do radar daqueles que poderiam lhe causar problema, como o psicótico Mad Thomas (McCabe Slye) – motivo de sua ruína. Além de Hannah, Sarah também encarava o charmoso e melancólico Solomon Goode (Ashley Zukerman) como confidente, visitando-o numa pequena choupana alheia à vila após a morte da mulher e da filha.

A atmosfera aproximativa do filme muda gradativamente e utiliza a força encontrada no capítulo anterior como mote para as diferentes reviravoltas. Após a noite em que os jovens resolvem se embebedar e utilizar frutinhas alucinógenas, as coisas passam a se infiltrar no âmbito da tragédia constante, caminhando em um crescendo angustiante. Se acreditávamos que as coisas não poderiam ficar mais chocantes que ‘1978’, estávamos errados: as sequências de horror pegam páginas emprestadas de Stephen King, M. Night Shyamalan e até mesmo de Arthur Miller para calcar na audiência um sentimento de dúvida e de temor – afinal, Sarah parece ser uma das vítimas e é arrastada para uma judicatura que aponta tanto ela quanto Hannah como culpadas de irem contra as leis divinas e trazerem o mal à Union (nome original de Shadyside).

É claro que os tropeços ainda existem, inclusive no tocante à narrativa. Janiak, que também fica a encargo do roteiro ao lado de Phil Graziadei e Kate Trefry, faz um trabalho interessante e categórico ao amarrar as pontas soltas e lançar luz à maldição que recai até os dias de hoje sobre Shadyside, guiando-nos por uma ambientação mística, nostálgica e envolvente. Algumas cenas almejam à originalidade, mas acertam em simplismos óbvios que podem ser compreendidos pelos espectadores mais desatentos – como a presença do foreshadowing e a gradual revelação do verdadeiro assassino (algo que já imaginávamos, considerando que a presença de Sarah Fier sempre foi carregada de inexplicáveis surtos de ódio e de vingança). Felizmente, o desenrolar do enredo não chega a tangenciar o caos estético, levando o tempo necessário para que nos acostumemos a novas perspectiva e dinâmica entre os personagens.

As inconsistências também residem nas escolhas artísticas, desde a indiferente paleta de cores até a excessiva trilha sonora – cujos caprichos funcionam numa completude aplaudível no capítulo anterior da antologia. Entretanto, os equívocos não são fortes o bastante para apagar a química do elenco e para investidas de tirar o fôlego, como o momento em que o pastor local mata todas as crianças do vilarejo em um ímpeto pestilento. O mesmo se diz sobre a direção da obra, que consegue transformar a vastidão das florestas em um labirinto claustrofóbico e inescapável, razão de Sarah não conseguir escapar de seus algozes e entregar-se como criminosa para salvar Hannah e os outros amigos.

De volta ao presente, a estrutura formulaica de causa e consequência premedita uma batalha final entre o bem e o mal, fazendo questão de que as descobertas caiam no conhecimento público (e que os vilões paguem pelo que fizeram num passado bem distante). Nesse aspecto, a praticidade da conclusão fala mais alto e, enquanto não inova, funciona num pragmático e condescendente “final feliz”.

As temáticas sociopolíticas presentes em outras produções do gênero podem não existir em Rua do Medo: 1666’, mas isso, no final das contas, não importa. A ideia e as mensagens por trás do longa-metragem são bastante claras: estamos lidando com uma carta de amor que Stine e Janiak construíram para os múltiplos clássicos que permearam seus imaginários. Diferente de se aprofundar nas críticas, opta-se por um entretenimento que, vez ou outra, será revisitado por aqueles que desejam apenas se divertir e conhecer as múltiplas facetas de Shadyside.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.