O mistério que rege seus personagens transcende a tela em seus poucos minutos, convidando a audiência a uma espiral alucinante e pitoresca dentro de um peculiar e desconfortável ambiente de trabalho. Ruptura, criada por Dan Erickson, começa sua jornada em um ritmo bastante lento, que até poderia ser cansativo, não fosse seu genial e intrigante roteiro e toda a inusitada e convidativa atmosfera trabalhista que exala um tipo de terror inesperado e que nos enche de calafrios.


Na trama, os funcionários da Lumon Industries são submetidos a uma cirurgia consensual que compartimenta suas memórias, separando a rotina pessoal da profissional. Com suas vidas tecnicamente rachadas ao meio, eles atuam em um ambiente de trabalho misterioso, realizam tarefas pouco explicadas e regadas de significados (ainda desconhecidos por todos – protagonistas e audiência) e jamais sabem o que enfrentam em suas vidas domésticas e vice e versa. No entanto, o peculiar ambiente de trabalho passa a ser questionado a partir do momento em que Mark começa a duvidar das motivações de seus chefes e da empresa para a qual trabalha.

Apresentando Adam Scott como um solitário homem que evita lidar com a traumática morte de sua esposa, Ruptura aborda uma questão crucial relacionada à existência humana: é possível se dissociar de seu próprio passado e de suas próprias experiências a fim de ser um trabalhador melhor? Mas mais do que esta questão um tanto óbvia, a série original da Apple TV+ e dirigida por Ben Stiller vai muito mais além, explorando as rachaduras do ambiente corporativo, muitas vezes construído para manipular e ostracizar seus funcionários.


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Sob uma estética limpa, excessivamente branca que emana limpeza e uma falsa sensação de quietude e paz, a produção aborda o tormento existente em seus personagens, que dia após dia são confrontados pelo fato de que conhecem apenas metade de si mesmos e de que não fazem a menor ideia do trabalho que desenvolvem. Com paralelos reais que ironizam e criticam duramente a metodologia das grandes corporações, como seus inúteis prêmios que dão a falsa sensação de importância, suas salas de descanso feitas para te manter dentro da empresa e festas corporativas desconfortáveis, Ruptura analisa o ambiente profissional e seus funcionários por uma ótica fatalista e genuína, que apresenta os perigos emocionais e físicos que certas empresas e chefes oferecem às suas equipes.

E sob uma realidade repleta de interrogações, mentiras mal ditas e verdades nunca ditas, Ruptura é um retrato caótico e distópico do ser humano sem suas memórias e raízes, à medida em que explora a codependência emocional a qual muitas vezes somos submetidos em nossas relações corporativas com líderes carrascos e narcisistas que sugam nossas energias. E o elenco da série, composto também por Patricia Arquette, Britt Lower, Zach Cherry, Tramell Tillman, John Turturro e Christopher Walken, se encarrega de tornar essa experiência televisiva ainda mais realista, com uma coletânea de performances assustadoramente poderosas.


E em sua direção impecável, que abusa dos ângulos e da diferença de proporções, Stiller faz um poderoso contraste entre os profissionais e seus patrões. Reduzindo os primeiros à pequenas e insignificantes peças dentro de uma enorme e desconhecida engrenagem, a série abusa dos planos plongée contra-plongée para nos lembrar que nossas memórias afetivas são parte fundamental da nossa identidade e que quando ela é forjada apenas dentro do ambiente de trabalho, se torna submissa a todo e qualquer tipo de abuso profissional. Com uma estética minimalista marcada por tons de azul e vermelho, com pequenas variações de verde, Ruptura é um presente inesperado recebido em 2022 e logo se consolida como uma das melhores séries não apenas deste ano, mas também dos últimos tempos.

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