Crítica | Garra de Ferro: Zac Efron entrega a melhor performance de sua carreira em excepcional cinebiografia esportiva

Como uma assombrosa maldição que cruza o espaço-tempo e alcança toda uma geração, a história da família Von Erich tragicamente nos impressiona. Seu legado no wrestling foi lapidado a partir da voracidade de um carrasco patriarca, disposto a talhar seu sobrenome na história do esporte. Mas sua inesgotável sede por sucesso é também acompanhada por um DNA manchado pela sombra da morte. Sangue do seu sangue, seus filhos – um a um – foram mortos, vítimas de uma ambição barulhenta e exigente.

Mas ainda que Fritz Von Erich não soubesse ser pai em uma época onde a linha entre ser temido e ser respeitado pareciam turvas demais, Garra de Ferro não se apresenta como um diário aberto de rancor, mágoa e trauma. Ainda que o único sobrevivente de sua prole, Kevin, tivesse todos os motivos, o novo original da A24 se desabrocha como um desabafo sensível de um homem que testemunhou a vida de sua família se esvair diante dos seus olhos, sem poder fazer muito.

Com um olhar apaixonado e apaixonante, Sean Durkin faz de Garra de Ferro uma dramatização de uma das histórias mais impressionantes do esporte. Enquanto os meninos Von Erich trilhavam seu caminho em uma modalidade performática, o caos de um ambiente familiar desgastante e obsessivo imperava em secreto. E sabendo que as desonras dos bastidores são tão vitais quanto as glórias do tatame, o cineasta constrói um equilíbrio narrativo impecável, nos levando por uma jornada de dor, solidão e pressões.

Com uma paleta de cores mais amarelada que destaca os fios dourados dos membros dessa família, em consonância com os holofotes dos ringues de luta, o drama biográfico da aclamada produtora A24 tem uma estética que flerta com o sépia. Nos dando a impressão de que estamos folheando um álbum de memórias, a direção se preza a proporcionar uma experiência mais taciturna, onde os lampejos mais alegres e suaves de uma vida cheia de pressões são constantemente marcados pela sombra de uma iminente tristeza – que inevitavelmente surgirá.

Essa sensibilidade no trabalho de Durkin torna o filme uma jornada muito mais intimista e delicada. Embora estejamos diante de uma virilidade que salta na estrutura corporal de seus personagens e na dinâmica relacional entre eles, Garra de Ferro é dono de uma sutileza absurda, revelada a partir da impecável coletânea de performances de seu elenco principal. Aqui, Zac Efron dá um passo a mais em sua carreira, mostrando sua profundidade performática. Liderando o filme com confiança e tranquilidade, ele faz do original da A24 uma vitrine para o seu talento e entrega a melhor atuação de sua carreira.

Jeffrey Allen White o acompanha com brilhantismo, ao lado de Harris Dickinson e Stanley Simons. Juntos, eles desenvolvem uma sinergia artística, como um pequeno clã familiar sacramentado e precioso. Desenvolvendo uma dinâmica apaixonante em tela, os enxergamos como frutos de uma mesma árvore. Seus traços, suas transformações físicas e a mesma estética os tornam genuínos irmãos para nós audiência. Há uma cumplicidade, uma veracidade harmônica entre eles. E é um privilégio testemunhá-los em cena.

E assim, o drama biográfico encerra o circuito cinematográfico norte-americano de 2023 com louvor e honra. Talhando a A24 como uma das produtoras mais prolíficas e criteriosas da indústria, Garra de Ferro é uma cinebiografia que cruza as fronteiras do cinema arte, para nos convidar a conhecer a intimidade de uma família tão tumultuada quanto a nossa. Com Sean Durkin destacando seu talento nas belas cenas de luta – que contam com uma fotografia levemente inspirada em Touro Indomável -, o longa é uma emocionante e triste catarse, que celebra o legado de uma família marcada pelo suor e pelo sofrimento.

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