007 – Sem Tempo para Morrer, o vigésimo quinto filme oficial da franquia mais duradora do cinema, tem estreia programada para o dia 7 de outubro de 2021 – após ser adiado do ano passado devido à pandemia. Como forma de irmos aquecendo os motores para esta nova superprodução que, como dito, faz parte de uma das maiores, mais tradicionais e queridas franquias cinematográficas da história da sétima arte, resolvemos criar uma nova série de matérias dissecando um pouco todos os filmes anteriores, trazendo a você inúmeras curiosidades e muita informação.

No quinto filme da cronologia oficial da franquia, o agente secreto mais famoso do cinema havia feito de tudo. Ou quase, já que aqui os produtores resolveram levar James Bond ao Japão, onde entre outras coisas, ele treinaria com ninjas, provaria a exótica culinária nipônica e ainda encararia pela primeira vez a face da organização criminosa SPECTRE, Ernst Stavro Blofeld. Confira abaixo detalhes da quinta aventura protagonizada pelo espião 007.

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Produção



Como dito em matérias passadas, a esta altura os filmes da franquia 007James Bond haviam dominado o mundo e se encontravam em seu auge de popularidade. A fama da franquia havia gerado diversos “imitadores” e a febre dos espiões chegava até aos desenhos animados, como Os Flintstones. Para além da cronologia oficial, 007 havia inclusive ganhado sua própria paródia nas formas de Cassino Royale (1967), devido a um acordo prévio entre o escritor Iam Fleming e a Columbia Pictures que garantiram a utilização da marca em seu próprio filme. A opção foi por uma comédia. No mesmo ano, porém, seria lançado o filme “sério” de James Bond, Com 007 Só Se Vive Duas Vezes.

A produção para variar ocorreu com alguns percalços que criaram leves problemas. A começar pelo livro que serve de base para a obra. Nada praticamente do texto original de Ian Fleming foi aproveitado para a versão cinematográfica de You Only Live Twice. Isso porque o livro serve de continuação direta para A Serviço Secreto de Sua Majestade, com James Bond procurando vingança pela morte de sua esposa – algo reaproveitado depois em Quantum Of Solace (2008). Mas, como dar continuidade se …Sua Majestade ainda não havia sido lançado? Acontece que tal livro era realmente o prometido como próxima produção de 007 nos cinemas, como citado aqui anteriormente. Mas, a partir do momento que os produtores optaram por Só Se Vive Duas Vezes, a trama precisou ser modificada.

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Para a tarefa de recauchutar o texto para servir ao roteiro do filme foi escalado ninguém menos que o escritor infantil Roald Dahl, o criador de obras como A Fantástica Fábrica de Chocolate e Convenção das Bruxas. Com quatro filmes anteriores num período de cinco anos, uma curiosidade é que a franquia 007 só havia tido dois diretores comandando até o momento. Guy Hamilton havia comandado o favorito de muitos (Goldfinger), enquanto Terence Young cobriu os outros três com igual destreza. O maior sucesso financeiro da franquia era A Chantagem Atômica, que reajustado aos valores atuais estaria entre os filmes mais rentáveis da história. Ou seja, Só Se Vive Duas Vezes tinha uma missão dificílima em mãos. E para a tarefa nada melhor do que um cineasta recém-saído de um sucesso indicado a nada menos que 5 Oscar, incluindo melhor filme. Lewis Gilbert havia entregue Como Conquistar as Mulheres (Alfie), o tal sucesso, no ano anterior (66). O cineasta voltaria em alguns longas da franquia, incluindo um muito querido e outro… bem, nem tanto.

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James Bond

Depois da patacoada de ter inúmeros atores, humoristas, e até mesmo mulheres interpretando James Bond na paródia Cassino Royale (1967), no mesmo ano o primeiro e único Sean Connery daria o ar de sua graça nas telonas mais uma vez. Não aceite substitutos. Mas o retorno do astro estava longe de ser tranquilo. Connery se via completamente desestimulado a interpretar James Bond desde o último episódio e voltar a viver o personagem, apesar do bom dinheiro envolvido, era quase um tormento a esta altura para o jovem e promissor intérprete. Tanto que Connery anunciaria Só Se Vive Duas Vezes como o último filme no qual interpretaria o espião. Mal sabia o astro que ainda retornaria mais duas vezes (uma não oficialmente).

A “preguiça” de Sean Connery no papel era tanta que muitos apontam a falta de vontade em sua interpretação aqui, como se ligado no automático. Além disso, sua forma física igualmente não era das melhores. O resultado é sentido, infelizmente, no que vemos em tela. Porém, nada nos prepararia para um dos momentos mais vergonha alheia (ou seria “cringe”) de toda a franquia. Aqui, em sua viagem ao Japão, James Bond usa maquiagem para se passar por um cidadão asiático. Isso é errado nos mais variados níveis. E se falamos em White washing hoje em dia e em termos como “black face” e “yellow face”, saibam que até mesmo o maior espião do cinema tentou “mudar sua etnia”. Já havíamos mencionado algo parecido no filme original (Dr. No), em que uma atriz usava maquiagem para se passar por asiática, mas em Só Se Vive Duas Vezes, é o próprio protagonista Sean Connery que passa pela “transformação” politicamente incorreta.

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Missão Secreta

Como dito, originalmente a trama de Só Se Vive Duas Vezes era mais intimista no livro, basicamente um errado de vingança para James Bond. Com a troca na ordem cronológica de livro para filme, a história aqui precisou ser mudada. E Roald Dahl cria uma narrativa mais simplista da típica megalomania destes filmes. Aqui, a SPECTRE rouba mísseis americanos e russos a fim de incitar um conflito entre as nações rivais em meio à Guerra Fria. Mas não apenas isso, aqui temos pela primeira vez a aparição do grande vilão preparado até aqui na franquia, o líder da organização Blofeld.

As pistas levam 007 até o Japão, onde ele se une à inteligência do país e ao lado de agentes japoneses ninja (olhem isso) combate as forças nefastas da SPECTRE. Mas isso não é tudo, a base da organização criminosa se encontra situada em… um vulcão inativo! Só Se Vive Duas Vezes é muito conhecido por ser o epicentro de tudo que viria a ser associado à mitologia do personagem, e embora seja um filme “sério” da cronologia oficial, é ao mesmo tempo quase uma paródia do que foi um dia, já que o nível de surrealismo e fantasia chegava a grandes escalas. Muitos elementos deste filme foram satirizados em outras produções, a principal delas, é claro, sendo Austin Powers (1997), que inclusive “pega emprestado” o visual do vilão para criar o seu Dr. Evil.



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Bondgirls e Aliados

Em matéria de Bondgirls, aqui temos possivelmente o ponto mais baixo da franquia, não apenas até o momento, mas de toda a série. As possibilidades de se ter as primeiras Bondgirls asiáticas foram completamente desperdiçadas ao se criar personagens que são verdadeiras páginas em branco. Acontece que a mais interessante delas, Aki (Akiko Wakabayashi) é retirada logo de cena, quando a personagem é assassinada. Assim, ocupando seu lugar na trama entra a menos expressiva Kissy, papel de Mie Hama. Já a Bondgirl do “mal”, a ruiva Helga Brent, vivida pela alemã Karin Dor, foi muito comparada a outra ruiva que havia marcado a franquia no episódio anterior: Fiona Volpe, papel de Luciana Paluzzi.

Melhor se sai o personagem Tiger Tanaka (Tetsurô Tanba), uma mistura entre o chefe M e o agente americano Felix Leiter: ao mesmo tempo em que é o líder da força japonesa de espionagem, assiste James Bond em sua missão, participando inclusive da ação. Mas não apenas isso, ele comanda um time de ninjas na invasão da base inimiga, usa espadas e shurikens, as conhecidas estrelas ninja, e despacha inúmeros capangas das maneiras marciais mais bad ass.

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Vilões

Aqui temos a cereja do bolo nesta primeira fase dos filmes de 007. Tudo o que foi mostrado nos quatro filmes anteriores preparavam terreno para o surgimento do vilão máximo e líder da SPECTRE, Blofeld – anteriormente apenas mencionado e vislumbrado. Com a exceção de Auric Goldfinger no terceiro filme, todos os inimigos de James Bond estavam ligados à organização criminosa, vide Dr. No, Rosa Klebb, Red Grant e Emilio Largo, todos trabalhando abaixo de Blofeld. Aqui, finalmente o chefe mostraria seu rosto, personificado pelo britânico Donald Pleasence, mais conhecido como o Dr. Loomis do terror Halloween (1978) e suas inúmeras continuações. Pleasence ainda é listado pelos fãs como melhor intérprete do arqui-inimigo de 007, mesmo que só apareça em cena nos 10 minutos finais do longa.

Mesmo que rapidamente, Pleasence deixaria sua marca na franquia para a eternidade. E, obviamente, era planejado seu retorno na eventual sequência. Como veremos no próximo texto, não aconteceu assim. Porém, a ideia original não era por ter Donald Pleasence no papel, já que incialmente estava nas mãos do húngaro Jan Werich. Ao perceberem que o ator não estava funcionando no personagem, os produtores trouxeram Pleasence às pressas para o filme. O visual icônico do vilão seria muito imitado e satirizado, embora não fosse igualmente o planejado. Careca e com uma grande cicatriz no olho, além é claro do gatinho branco peludo no colo sempre sendo acariciado.

Relatório

Como dito, se manter à altura de A Chantagem Atômica seria quase impossível. Assim, embora não tenha chegado perto deste nível de sucesso, pode ser dito que Só Se Vive Duas Vezes se tornou um sucesso e fez uma boa bilheteria dentro do possível.

Outro elemento icônico dos filmes de 007James Bond são as canções título. A trilha sonora composta pelo maestro John Barry para os cinco primeiros filmes da franquia, ganharia a adição de letras e um artista renomado cantando a partir de Goldfinger com a voz de Shirley Bassey, seguida por Thunderball de Tom Jones. Neste quinto filme, a canção ficou a cargo de Nancy Sinatra. A música composta por Barry fez novo sucesso ao ser utilizada anos mais tarde de forma remixada por Robbie Williams em ‘Millenium’. É interessante ver o que ambos Sinatra e Williams fazem com a trilha extremamente memorável.

A esta altura, tudo que envolvia James Bond virava sucesso automático. Embora não a níveis de superar o ápice atingido em A Chantagem Atômica. Apesar disso, ao longo de revisionismos por parte dos fãs e especialistas por todos estes anos desde seu lançamento, Só Se Vive Duas Vezes se tornou um episódio não muito mencionado entre os favoritos da franquia. De fato, segue pelo caminho inverso, com muitos o apontando com um dos menos inspirados e originais. E com a promessa de Sean Connery de que esse seria seu último filme, a franquia bem que poderia ter encerrado suas atividades aqui. Como sabemos, ela ainda duraria muito. Mas nem tudo seria como antes no episódio seguinte… isso, porém, é assunto para a próxima matéria do Dossiê 007.

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