Ferrugem e Osso
08.10.2012
Pablo Bazarello

Exibido no Festival de Cannes desse ano (onde concorreu a Palma de Ouro, maior prêmio desse festival), e no de Toronto, “Ferrugem e Osso” chega ao Festival do Rio como um dos filmes mais importantes e prestigiados do evento. Infelizmente, para nós cinéfilos, a obra francesa estrelada pela maior representante do país em Hollywood atualmente, Marion Cotillard, só foi exibida num único dia, numa única sessão, já que as (apenas) outras duas foram canceladas.

Escorregadas da organização a parte (que esse ano sofreu com um grande número de dificuldades e problemas técnicos, em sua maioria devido à transposição de exibições digitais), o filme do diretor Jacques Audiard precisa ser encontrado e visto. Audiard possui certo status atribuído a seu nome recentemente, fato que se deve por ter em seu currículo o excelente “O Profeta”. Escrito e dirigido por ele, esse filme de prisão já foi comparado ao “Poderoso Chefão”, e recebeu a indicação de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2010 (perdendo para o igualmente fantástico filme argentino, “O Segredo dos Seus Olhos”).


Ferrugem e Osso” é um filme forte e igualmente marcante, que poderia muito bem representar a França no Oscar do próximo ano. Isso é, se não fosse um pequeno grande empecilho em seu caminho chamado “Intocáveis”, a maior bilheteria do ano em seu citado país de origem, e o escolhido para uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro. Seja como for, a obra do diretor Audiard é garantida de agradar mais a alguns cinéfilos, do que o agradável e carismático “Intocáveis”. Na trama, co-escrita pelo próprio diretor, um sujeito luta para criar seu filho pequeno. Nos primeiros minutos de projeção já conseguimos ter um senso da grande dificuldade enfrentada pela dupla, que precisa recorrer aos restos deixados por outros passageiros no trem a fim se alimentar. O protagonista Ali (o ótimo belga Matthias Schoenaerts) então decide como última opção fazer uma visita (de tempo indeterminado) para sua irmã mais velha. Sua relação com Anna (a irmã), papel de Corinne Masiero, é perceptivelmente abalada sem que saibamos exatamente o motivo, assim também como nunca fica claro o paradeiro da mãe do menino Sam (Armand Verdure).

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Aqui isso não importa, e a obra deixa-nos tirar as conclusões, assim como a maioria dos filmes adultos europeus não mastigam suas informações ao público. Seu foco é na futura relação de Ali, que arruma emprego como segurança de boate, com a problemática Stéphanie, papel de Cotillard, uma treinadora de baleias orcas, numa espécie de Sea World. Os dois se conhecem na tal boate após uma briga, e faíscas contraditórias são soltas logo de início quando as personalidades ingenuamente sincera e egoísta (dele), e traumatizada e danificada (dela) colidem. O que acontece a seguir é um dos pontos-chave da trama, que é mostrado pelo trailer, mas caso não queira saber pule esse parágrafo direto para o último. O que acontece a seguir, é que após um grande acidente envolvendo a criatura marinha, a personagem de Cotillard tem as pernas amputadas e precisa reestruturar toda a sua vida. Ao mesmo tempo, Ali se envolve em lutas undergound ilegais, por dinheiro.

Nem é preciso elogiar a atuação da sempre eficiente Cotillard, que como tido, se não é a melhor atriz francesa da atualidade (ou talvez seja), é sem dúvidas a de maior prestígio, e o maior chamariz para a obra, acima até mesmo do diretor. Cotillard, que já tem a estatueta de melhor atriz da Academia enfeitando sua casa, justamente por um filme feito em sua terra (“Piaf”, 2008), seguiu se consolidando como o nome mais proeminente do cinema francês em Hollywood, atuando em grandes produções, e ao lado de personalidades consagradas, em filmes como “Nine”, “Inimigos Públicos”, “A Origem”, “Contágio”, “Meia Noite em Paris”, e no recente “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Isso tudo sem esquecer de suas origens atuando também em projetos como “Até a Eternidade”. A química da dupla protagonista é ótima, tanto que os dois repetem a parceria, e fazem parte do elenco de “Blood Ties”, thriller americano dirigido pelo francês Guillaume Canet, programado para 2013.

Embora dramático e emotivo, “Ferrugem e Osso” nunca chega a marca do massacre de sentimentos. É uma história onde coisas ruins acontecem aos personagens, que como em toda trama de superação, precisam lidar e vencer seus problemas. Mesmo mais inclinado ao drama, a produção guarda diversas cenas cômicas, principalmente as que dizem respeito ao relacionamento inicialmente prático da dupla protagonista. Os holofotes aqui ficam para Schoenaerts (de “A Espiã” e do inédito e elogiado “Bullhead”, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro desse ano), que possui uma forte presença nas telas. É uma grande qualidade para um ator se tornar imprevisível em seu personagem, e o belga Schoenaerts desperta igualmente compaixão, sensibilidade, repulsa e certo terror. Nunca sabemos qual desvio seu personagem irá sofrer, e o ator incorpora essa ambiguidade de forma incrivelmente eficiente. O diretor Audiard (um nome para seguirmos de perto agora) consegue criar uma obra crua em seus sentimentos, aplicando em doses uma doçura florescente, cuja guinada final consegue satisfazer os adeptos de ambos desfechos, crus e realísticos, ou satisfatórios e agradáveis.

 

Nota:

 

Crítica por: Pablo Bazarello (Blog)

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