Operação Invasão ao Cinema

Com um longo histórico de produção aclamada crítica e popularmente, um criador com uma visão artística sempre muito alinhada ao modelo cinematográfico tradicional e com uma história de espionagem densa, não é de se estranhar que uma adaptação da saga Metal Gear Solid sempre esteve nos planos de algum estúdio. Isso a despeito do histórico de péssima qualidade que adaptações de videogame costumam carregar.

Mesmo que a passos lentos, uma versão live action já figura no horizonte pelas mãos da Sony Pictures. Até o momento em que esse texto é escrito não existe uma escalação formal de elenco, mas o projeto conta com a presença de Avi Arad na produção (ele foi produtor da trilogia do Homem-Aranha de Sam Raimi, da série animada do teioso de 1994, Venom, Homem de Ferro e outros). A direção, por enquanto, encontra-se nas mãos de Jordan Vogt-Roberts – mais conhecido pelo filme Kong: Ilha da Caveira (2017).

Em 2019, o diretor informou por meio de uma rede social que o roteiro assinado por Derek Connolly (mais conhecido por escrever Kong: Ilha da Caveira, Detetive Pikachu e Jurassic World) “está ao estilo do criador Hideo Kojima e cheio de surrealismo militar”. O cineasta disse também que pretendia encontrar um certo ator em breve.



Uma década em neon

O modo como se consome videogames atualmente e o modo como essa prática se dava no passado são duas coisas completamente diferentes. A limitação tecnológica dos primeiros consoles que sugiram nos anos 70 (e isso excluindo aqueles do final dos anos 60) limitavam a imaginação dos desenvolvedores em elaborar histórias mais bem construídas.

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Muitos dos clássicos da época continham gameplays extremamente básicas, adaptadas também em prol dos joysticks e da necessidade de retorno constante da clientela por parte dos fliperamas, que consistiam em andar e atirar. Linhas de história não apareciam no jogo e muitas vezes mal vinham com o manual de instrução.

Mas essa década também foi muito importante para a popularização dos games para toda uma juventude. Em 1978, por exemplo, a Taito Corporation lançou Space Invaders, que imediatamente se tornou uma febre nos fliperamas. Em 1979 a Atari lançou Asteroids, seguindo a esteira do sucesso de Space Invaders, e criando um novo jogo de “tiro ao alvo” no espaço (ou do gênero Shoot ‘em up) e novamente entupindo os fliperamas com crianças que competiam para gravar seus nomes nos rankings de pontuação.



Já os anos 80 foram um misto bastante interessante de cenários inovadores e terríveis para a indústria. Essa foi a década que os consoles domésticos tomaram as casas da classe média dos EUA e do Japão, mais especificamente, de assalto e tornaram o consumo de games uma experiência mais particular. Um símbolo dessa época foi o Famicom (Family Computer Disk System ou também chamado de Nintendinho) lançado pela Nintendo em 1983 no Japão, e 1985 para o ocidente.

Em 1983, a expansão desse mercado foi interrompida por uma crise severa nascida da saturação de oferta de consoles no mercado. Junto a esses consoles vinham enxurradas de jogos feitos às pressas apenas para que as desenvolvedoras pudessem continuar presentes nas lojas de brinquedo. A maioria desses jogos, por sua vez, era da pior qualidade possível pois as desenvolvedoras terceirizadas que deveriam produzi-los não tinham equipe ou tecnologia para fazer um bom trabalho.

De acordo com um artigo de Joey Plunkett para a Bugsplat, entre 1983 e 1985 o mercado de games nos EUA sofreu uma contração de 97%, basicamente uma redução de receitas de US$ 3,2 bilhões em 1983 para US$ 100 milhões em 1985. Isso rendeu o fechamento de muitos estúdios menores e a readaptação dos maiores.



Kojima e o primeiro assalto a Outer Heaven

Foi nesse cenário de crise que o jovem designer de games, Hideo Kojima, se juntou à Konami para desenvolver um novo jogo para o MSX2, após produzir jogos menores. Durante sua juventude, Kojima sempre foi um grande fã de cinema e sempre faz questão de lembrar em entrevistas que é alguém cuja  imaginação está trabalhando constantemente. Foi este apreço pela sétima arte que esculpiu a vontade de criar um game narrativamente diferente de tudo que havia sido feito até então.

No entanto, seu início na Konami não foi fácil. Por falta de conhecimentos mais aprofundados de programação ele se viu isolado dos colegas de trabalho e teve seu primeiro projeto cancelado antes mesmo de terminar. Como ultima chance, lhe foi passado o pedido para que produzisse um jogo de guerra. Kojima conta que se fosse para ele fazer algo do tipo, ele gostaria que fosse aos moldes do filme A Grande Escapada (1966), onde o foco seria a furtividade e não o combate direto.

Em julho de 1987 chegaria ao mercado o game Metal Gear, uma aventura de espionagem no qual o jogador assumiria o comando de Solid Snake (um soldado de elite) em sua tentativa de se infiltrar na base terrorista Outer Heaven, localizada na África do Sul no ano de 1995, para resgatar o Dr. Drako Pettrovich e sua filha das mãos desse grupo.



A missão, porém, toma contornos ainda maiores, pois Snake descobre que esse grupo está desenvolvendo uma máquina militar de poder incomparável chamada apenas de Metal Gear. Agora ele precisará destruir essa máquina contando com a ajuda de Pettrovich e de seu comandante, que ditará comandos pelo rádio, chamado de Big Boss.

O sucesso de Metal Gear foi imediato e estabeleceu o gênero Stealth (jogos em que o objetivo é passar despercebido ao invés de iniciar um tiroteio) como uma realidade na indústria, mesmo não tendo sido o primeiro do tipo (esse mérito, mesmo que debatido, costuma ficar para Castle Wolfenstein, de 1981). O sucesso do jogo garantiu uma sequência em 1990, chamada Metal Gear 2: Solid Snake – também para o MSX2.



Em 1998, a saga fez sua primeira incursão na tecnologia 3D com Metal Gear Solid no Playstation e consagrando-se na saga para a nova geração de consoles. No agregador de notas Metacritic o jogo tem nota 94 no Metascore (notas da crítica especializada) e 9.2 no User Score (notas dadas por usuários). Em 2001, a agora nova saga Solid recebeu para o Playstation 2 Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty, igualmente idolatrada.

Importante ressaltar que até 2001 o protagonista dos jogos era Solid Snake, porém, a partir de 2004, com Metal Gear Solid 3: Snake Eater para Playstation 2, a cronologia tomou outra direção de narrativa ao regressar a história para 1964, em meio a Guerra Fria entre EUA e URSS. O protagonista passou a ser Naked Snake, o futuro Big Boss, um agente da organização de espionagem FOX que deve resgatar o físico nuclear Sokolov de dentro do território soviético.

Kojima então elevou a trama de seus jogos para um novo nível ao mesclar fatos reais (Guerra Fria, Muro de Berlim, Crise dos Mísseis de Cuba) com os eventos criados por ele, concretizando a visão cinematográfica que o desenvolvedor nipônico sempre almejou para os videogames. A franquia continuaria com essa mesma pegada em jogos posteriores como Metal Gear Solid: Peace Walker (ambientado no cenário das lutas de guerrilha na Nicarágua dos anos 70) lançado para o PSP, Metal Gear Solid V: The Phantom Pain (ambientado na guerra do Afeganistão em 1984 e que contou com um jogo prelúdio, Ground Zeroes) para Playstation 4 e Xbox One em 2015. O encerramento da saga de Big Boss terminaria em Metal Gear Solid 4: Guns of Patriots (cronologicamente se passando em um futuro próximo, mas cujo lançamento foi em 2008).


Mais Metal Gear no Audiovisual

Em maio de 2020, o diretor Jordan Vogt-Roberts liberou uma arte conceitual de um Metal Gear que pode aparecer em seu vindouro filme. O modelo apresenta clara inspiração na versão do maquinário de guerra que aparece em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, conhecido como Sahelanthropus. Mais recente ainda, o cineasta anunciou que deseja produzir uma série animada de Metal Gear Solid a ser lançada junto com seu filme e protagonizada pela voz original de Big Boss, David Hayter (ele foi substituído em Ground Zeroes e Phantom Pain pelo ator Kiefer Sutherland). Até o momento também, o filme não conta com uma data de estreia formalizada.

 

 

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