O período entre guerras (1918-1939) da Europa serviu de ignição para que diversos movimentos ganhassem força para expressar a insegurança das pessoas e o constante medo de que a momentânea paz fosse colocada em xeque; enquanto todos prezavam pelo controle e pelo respeito (de certa forma), tal desejo tornava-se cada vez mais abstrato e insano conforme as tensões voltavam a crescer em meio a divergências ideológicas e sentimentos de represália que logo se transformariam em uma vendeta mundial. É a partir daí que surgiu a estética do Surrealismo.

Tendo como origem a sociedade parisiense de 1920, o movimento artístico-literário tinha como base o onirismo. Em outras palavras, nomes como Salvador Dalí e André Breton viraram expoentes dessas bizarras e loucas incursões, que tinham como raízes o dadaísmo de Tristan Tzara e a pintura metafísica de Giorgio de Chirico. Segundo o Manifesto Surrealista, assinado por Breton, a vanguarda reflete o “automatismo psíquico em estado puro, mediante o qual se propõe exprimir, verbalmente, por escrito, ou por qualquer outro meio, o funcionamento do pensamento” – em outras palavras, a total falta de lógica.

Ao longo dos anos, não apenas a literatura e a pintura abraçariam essa estética diferente de tudo que já havia sido apresentado, mas também o cinema. Afinal, enquanto esta era apenas uma ilusão congelada e aquela criava apenas metáforas linguísticas abstratas, a sétima arte fornecia uma perspectiva em movimento e emoldurava cenas estranhas, maravilhosas, colocando em ponto reflexivo o que era a realidade – como é o caso de O Cão Andaluz, certamente uma das obras que mais representa esse estilo, e até mesmo a filmografia de David Lynch, que bebe com constância assustadora dessas inflexões imagéticas (vide Twin Peaks, por exemplo). E é claro que podemos traçar certas semelhanças com obras fantásticas, mas a ideia do Surrealismo é a anulação dos limites da realidade, enxergando o meio audiovisual como a expressão da linguagem e do pensamento do modo mais puro possível – inclusive os fluxos de consciência que simplesmente não têm explicação concreta.

Quando trazemos esses breves conceitos para o mundo da música, que também já aboliu as fronteiras entre o sonoro e o imagético, é muito fácil pensarmos em certos ícones da contemporaneidade que não apenas usam do classicismo cinemático, mas o revolucionam através de simbologias chocantes – como é o caso da titânica Lady Gaga. A cantora, compositora, atriz e emblema fashion da atualidade sempre trouxe conceitos diversos para sua videografia, explorando as profundezas do medo, as delícias da ambição desmedida e até mesmo sua sexualidade através de produções futuristas, vibrantes e provocativas dos mais diversos jeitos, fosse com os fosseanos trejeitos do blasfemo “Alejandro”, com o cyber-punk de “Rain On Me” ou com a bíblica rendição de “Judas”.

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Gaga não é apenas uma artista completa – ela é a própria arte. Até mesmo em suas eras mais controversas, como ARTPOP (2013), a performer nunca deixou de imprimir uma identidade única e que se afastava dos convencionalismos baratos do cenário mercadológico. Em “Applause”, suas referências para Andy Warhol e para o expressionismo alemão em O Gabinete do Dr. Caligari e Nosferatu apresentavam seu respaldo acadêmico nas teorias da psicanálise sobre medo e sobre ID – do mesmo modo que havia feito em “Bad Romance” (The Fame Monster, 2009), um de seus vídeos mais icônicos, e no exuberante e subestimado “Marry the Night” (Born This Way, 2011). Mas nada poderia nos preparar para “911”, seu mais recente presente não apenas para os fãs, mas para os amantes do panorama audiovisual.

A canção foi anunciada como single de Chromatica, seu 6º álbum de estúdio, no último dia 17 de setembro, com a confirmação de que a iteração ganharia um curta-metragem. A divulgação veio com bastante surpresa após Gaga ser entrevistada pela Billboard sobre sua carreira, sobre seus traumas e sobre o que o novo álbum representa para questões de saúde mental (que atravessa cada uma das impecáveis letras, desde “Alice” até “Babylon”). “911”, guiada pela cinemática prévia do interlúdio Chromatica II”, rapidamente tornou-se a favorita dos little monsters e carregava consigo um potencial imenso, refletido pela majestuosidade do vídeo dirigido por ninguém menos que Tarsem Singh (‘Espelho, Espelho Meu’). A história se inicia com a performer acordando em um deserto após cair de uma bicicleta e seguindo um misterioso caubói que a leva para um vilarejo – e é isso: nada depois disso faz muito sentido até o inesperado e arrepiante epílogo que revela que Gaga havia sofrido um acidente e alucinado com todas aquelas coisas.

Como bem sabemos, Gaga não dá ponto sem nó – e o clipe em questão deixa claro que sua arte é insuperável e fora dos padrões enrijecidos pela própria indústria do entretenimento. Enquanto acreditávamos que “911” seguiria os passos sci-fi dos dois singles anteriores, somos surpreendidos com uma fabulosa ficção fantástica ambientada em um mundo pincelado pelo encontro de culturas opostas, como se mostra pelas referências ocidentais de certos enquadramentos e pelas orientais no tocante aos figurinos e à alusiva imagética. Mais do que isso, Gaga evoca sensações ao transformar o crítico liricismo – que menciona os antipsicóticos que toma para se manter equilibrada – em uma aventura devaneante que não vê limites (ou seja, ela não apenas traz as inferências surrealistas de volta para o mainstream como faz parte dela sem restrições).


Se essa vanguarda artística preza pela espontaneidade e pela criação de realidades paralelas e de cenas irreais, a cantora e compositora, aliando-se a  Singh, faz questão de mostrar seu potencial subconsciente; ela expressa a fusão dos sonhos e da realidade em uma verossimilhança freudiana, valorizando os pensamentos conturbados e tentando realinhá-los em algo que seja ao menos passível de referências. Da mesma forma, ela não pensa duas vezes antes de citar obras imprescindíveis do aparato fílmico mundial, realizando incursões que vão desde ‘8 ½’, de Federico Fellini, até ‘A Montanha Sagrada’, de Alejandro Jodorowsky, além de se render ao filme de arte russo ‘A Cor da Romã’, que basicamente guia a estética do vídeo.

Reunindo tantas informações em um fio condutor que eventualmente faz sentido (mas não precisaria, dado a metodologia metalinguística e autossuficiente da qual a obra se nutre), Gaga talvez tenha entregado a produção mais ousada de toda sua carreira, até mesmo arriscando não cair no gosto popular; no final das contas, nada disso importa: ela, indesculpavelmente, rouba os holofotes do planeta ao revolucionar não só a si mesma, como também sua importância para entendermos, hoje, o verdadeiro significado de “arte”.

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