Na cartela de abertura deThe Great, um asterisco chama a atenção para um detalhe, que vem logo abaixo: “uma história ocasionalmente verdadeira”. A série não está tentando se rodear de fatos comprovados sobre Catherine e Peter, e quer que o público saiba disso desde o início.

As razões por trás da ênfase neste detalhe vão ficando mais claras ao longo dos episódios. Criada por Tony McNamara, o corroteirista indicado ao Oscar porA Favorita, a série narra os seis meses do momento em que Catherine chegou até a côrte da Rússia, inocente no alto de seus 19 anos, até quando enfim concretiza o golpe para tomar o poder. É de se esperar que adaptações de fatos históricos ou de qualquer acontecimento verídico eventualmente tomem lá suas liberdades criativas para que a roda gire de acordo com o que uma ficção necessita; ao destacar que a história é apenas “ocasionalmente” verídica, The Great ganha uma carta branca não apenas para ser divertida, mas para cruzar a linha entre um drama de época e uma comédia espertinha quantas vezes quiser, na velocidade que quiser.

Não se engane, o ar pomposo de uma realeza está ali, e mais de uma vez alguns elementos da cinematografia e da dinâmica entre os personagens vai lembrar o ritmo de ‘A Favorita’. Mulheres de vestidos bufantes passeiam em duplas por longos corredores imensamente decorados com quadros e esculturas, enquanto homens portando quatro camadas de roupas dominam os ambientes, as conversas e os jantares. As comidas são belas e delicadas, e os planos são longos e abertos para que o exagero do espaço fique claro e cause impacto no espectador. Tudo é bonito, dourado, rico. 

Ao mesmo tempo, há brutalidade escancarada e relações atrozes e desmedidas. No meio de um refinado banquete, cabeças decepadas, sujas e ensaguentadas de inimigos são expostas com orgulho bem ao lado das pequenas taças da sobremesa de limão. Sangue, excrementos, facadas nas costas (às vezes, literais), sexo e nudez dividem o ambiente com vestidos de seda e decorações luxuosas, e tudo isso também vaza no diálogo, rápido e extremamente sádico em um contraponto sagaz aos planos expositivos da direção.

Enquanto no filme de Yorgos Lanthimos, a pompa era mais uma forma de escancarar a sujeira e o distanciamento daquela sociedade, em The Great o objetivo é outro. Estamos falando de um contraponto entre o horror e a delicadeza e, mais do que isso, a naturalidade com a qual estes dois lados da moeda se cruzam.

Felizmente, tudo isso funciona muito bem graças à ótima dinâmica entre os protagonistas e todo o elenco de apoio, mas sobretudo à forma como os atores principais preenchem os personagens com cada detalhe no olhar, levantar de sobrancelhas ou entonações diferentes para o recorrente “Huzzah!” Elle Fanning mostra uma Catherine que precisou crescer muito, e muito rápido, no momento em que deixou a Alemanha e colocou os pés na Rússia. Seus erros e acertos são atenuados pelo ar de uma jovem ainda em evolução, e a atriz tem sensibilidade o suficiente para causar empatia, mas não exagerada a ponto de transformar o sentimento em cinismo. Catherine se torna cada vez mais confiante no lugar que ocupa como Imperatriz, e Fanning cada vez mais tranquila nos sapatos dessa personagem tão multifacetada. Ao longo dos episódios, ela vai ganhando traquejo e entendendo os caminhos que precisa percorrer para empregar a sua ideologia, de uma forma que não incomode os aristocratas a ponto de sua cabeça se tornar mais uma das que decoram pratos ou que aparecem penduradas ocasionalmente pelos corredores do palácio. 

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O que Catherine quer é simplesmente transformar a Rússia com um pensamento mais progressista e, honestamente, um que veja mulheres como seres humanos que podem aprender a ler e estudar, um dos pontos nos quais bate de frente com o marido. Neste papel, aliás, Nicholas Hoult está tão confortável que chega a ser charmoso ainda que estejamos falando de um maníaco autoritário. Ao mesmo tempo em que ele é um Peter impulsivo e cruel, pode ser infantil e absorto, e a junção de tudo isso entrega de vez a aptidão de Hoult para papéis cômicos. 

Eventualmente, a coisa se transforma em uma briga de tradicionalismo contra modernidade, um tema que tem sido de cada vez mais interesse para obras que revisitam o passado. O diferencial deThe Great é que ela não tenta consertar o que já foi feito, e se rodear de sadismo e quebra de expectativas casa muito bem com a completa ausência de seriedade na condução dos episódios. Ela aborda temas contemporâneos sem precisar forçá-los garganta abaixo dos personagens (como algumas vezes peca a série Dickinson, da Apple TV+), e a franqueza dos diálogos faz os episódios passarem bem rápido, às vezes até demais. 

*The Great estreia no Brasil em 18 de junho, no Starzplay. 

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