Chegou ao fim o quarto ano de um dos festivais que vem se consolidando como uma importante vitrine do cinema sul-americano, o Bonito CineSur. Em sua edição de 2026, que aconteceu de 24 de julho a 01 de agosto, conferimos bem de perto obras impactantes que retrataram diferentes realidades do cotidiano em nosso continente.
Um dos méritos das curadorias, das três mostras competitivas, foi conseguir fugir de obras convencionais convencendo o público a embarcar em importantes reflexões através de narrativas instigantes. Entre os filmes exibidos, destacamos esses títulos abaixo:

Durante uma linha temporal que se divide num vai e vem entre décadas, vamos sendo testemunhas do caótico cotidiano de uma família marcada pela violência de um Rio de Janeiro sem cura. O foco se estabelece, principalmente, na relação entre pai e filha, que convivem com os obstáculos e as escolhas que aparecem nos seus caminhos, levando a obra para um amplo recorte nu e cru sobre um estado e uma família em um labirinto de violência.

Por meio de uma narrativa eficiente, que causa impacto com uma espécie de poesia sombria, marcada pela violência e pela falta de compaixão, este projeto peruano alcança as dores de uma jovem menina resiliente de um povoado andino conquistando o público pela delicadeza de encontrar na desesperança as asas para um sonhar.
Invadindo o fabuloso universo do processo criativo através de pessoas conhecendo a arte teatral enquanto ensaiam para uma futura peça, o curta-metragem argentino Escena Final, dirigido por Diego Kompel, usa de forma sublime o contraponto entre a realidade e o jogo de cena, nos guiando por uma trama criativa que expõe na tela um emaranhado de conflitos emocionais, iniciado pela rejeição, e que diz muito sobre a psique humana.
Crítica | ‘Escena Final’ – Uma cirúrgica travessia pelo inconsciente [Bonito CineSur]
A argentina e descendente de sul-coreanos Lila (Anita B Queen) vive seu momento atual em busca de algumas respostas, buscando compreender as diferentes formas que podem moldar uma trajetória. Ela representa o presente buscando o futuro, precisando resgatar memórias do passado. Antonio, seu pai, é um imigrante que está há décadas na Argentina, e, ao longo do tempo, passou por muitas escolhas, por vezes, nômade da própria sorte. Ele representa o passado, mas também o presente.
Crítica | ‘Benteveo’ – O luto e a memória sobre peças que buscam se encaixar [Bonito CineSur 2026]
Após o pai morrer, Bruno e Valentino vivem um momento de estagnação sobre o futuro, ainda presos à dor e tentando entender as lições que ficaram dessa referência familiar que se foi. Em uma casa humilde, ao longo de alguns dias, resolvem montar um bem-te-vi com peças que ainda estão soltas, ação que começara tempos atrás ao lado do pai. Ao longo desse período, entre o dito e o não dito se intercalando, atravessam o processo da perda e o real significado do que é a ausência.
Crítica | ‘Benteveo’ – O luto e a memória sobre peças que buscam se encaixar [Bonito CineSur 2026]

Acompanhamos a disputa política de 2022 sob duas perspectivas: a de Almir, líder indígena, e a de sua filha, a ativista Txai. A partir de seus olhares, o filme constrói um poderoso recorte de nosso país.
Um filme exibido no quarto dia de exibições das mostras competitivas do Bonito Cine Sur 2026 nos leva a uma curiosa investigação sobre a primeira beata do Ceará. Benigna Cardoso, uma jovem de 13 anos, vítima de feminicídio na década de 1940, é o epicentro do estudo de caso do curta-metragem Vermelho de Bolinhas. A obra conduz o público para uma teia de informações, do concreto ao imaginado, percorrendo de forma envolvente a relação de fiéis em torno da devoção de uma imagem e investigando sua origem.
Higa Ke – Olho por Olho
Logo na abertura da mostra competitiva de longas-metragens sul-mato-grossense do Bonito CineSur 2026, foi exibido um filme que chamou bastante a atenção. Percorrendo os retalhos de fotos marcantes de um experiente fotojornalista e os recortes de uma vida rica em histórias, o documentário Higa Ke – Olho por Olho encontra, em um composto artístico de sensações, informações e movimentos, o elo para firmar uma corrente poética que tem como norte o objeto de um ofício.
Em Mapago, conhecemos Serena, uma jovem moradora da periferia e indígena Guató, um povo legítimo do Pantanal, que busca realizar seus sonhos, na atualidade, seguindo a carreira de cantora de funk. Sua mãe, Fagunda, evangélica, está em um momento complicado: recém-demitida, precisa sobreviver da maneira que consegue. Ao longo dessa história, vamos caminhando em uma trama que entrelaça o presente e passado, deixando lacunas para se refletir sobre o futuro.
A violência no continente sul-americano é o assunto principal de um curta-metragem que mistura o sensorial, que impulsiona as mensagens, com as dúvidas de uma criança e os fortes desabafos de um pai em plena aflição diante de um passado recente, em uma ficção interpretada por atores que sofreram a mesma violência. Sukua, trabalho de Omar E. Ospina coloca em destaque o medo e a desesperança de territórios invadidos pelo uso da força, uma realidade que transforma vidas e muda trajetórias.
Honestino, novo trabalho do cineasta amazonense Aurélio Michiles, mistura documentário e ficção em uma obra visceral que escancara verdades de quem sempre esteve do lado certo da história.
Crítica | ‘Honestino’ – Uma enorme exclamação de resistência e memória [Bonito CineSUR]
À Margem do Fim

No terceiro dia de exibições do Bonito CineSur 2026, chegamos até À Margem do Fim, filme selecionado para a Mostra Competitiva de Curta-metragem Documental, que explora as enchentes que atingiram em cheio o Rio Grande do Sul. A obra, dirigida por Felipe Beltrame, percorre, com um afiado senso crítico, e com fortes denúncias, diferentes cenários em relação as realidades sociais durante e após a tragédia do sul do país.
Crítica | ‘À Margem do Fim’ – As memórias perdidas de uma tragédia anunciada [Bonito CineSur 2026]
A Vida de Jerônimo dentro e fora da Casca
Tem alguns filmes cuja a assimilação é rápida pois vão direto ao ponto na conversa sobre muitas realidades. Esse é o caso do curta-metragem A Vida de Jerônimo dentro e fora da Casca, exibido no terceiro dia de Bonito CineSur 2026. Um projeto que é fácil se identificar, pois circula assuntos importantes de nossa sociedade, como as duras batalhas pelo ganha-pão de cada dia, as dificuldades financeiras e a violência, um triângulo de questões que mostram a necessidade de ser resiliente em um mundo que não alivia.
Vípuxovuko – Aldeia
Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda, com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra.
Na trama, somos convidados a acompanhar recortes do cotidiano de uma jovem chamada Emilia (Constanza Rojas), que está à beira de concluir seu curso universitário. Nesse momento decisivo de afirmação profissional, ela se vê diante de uma situação que para muitas pessoas é um verdadeiro vendaval, tirar a carteira de motorista. Essa tentativa, de agradar seu próprio planejamento, acaba sendo um divisor de águas na busca pela tão sonhada independência.
Crítica | ‘Futura Licenciada’ – Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima [Bonito CineSur 2026]


