O abuso e o assédio sexual ainda são, infelizmente, temas muito debatidos nos dias de hoje. Talvez mais do que nunca, afinal é impensável que algo assim ainda ocorra em 2022, e com frequência! Justamente por isso se intensificam os debates. É preciso falar sobre, a fim de abolir de vez tais comportamentos hediondos de nosso dia a dia e realidade. E não me refiro apenas ao abuso doméstico, mas sim ao assédio no local de trabalho, e inclusive em locais onde as pessoas, em especial as mulheres, deveriam se sentir seguras – como consultórios médicos. É justamente desse lugar perverso que parte a premissa de A Mão que Balança o Berço, thriller psicológico repleto de adrenalina, que marcou a carreira de Rebecca De Mornay, dirigido pelo vencedor do Oscar Curtis Hanson.

A Mão que Balança o Berço teve sua estreia em 10 de janeiro de 1992 nos EUA, e chegou ao Brasil no dia 21 de agosto de 1992 – ou seja, está completando 30 anos de estreia em 2022. Nada mais justo do que revisitar este suspense arrepiante como forma de celebrá-lo em seu aniversário de três décadas. E o melhor, o filme está disponível atualmente no catálogo da Star Plus, para todos que quiserem conferi-lo – enquanto não ganha um inevitável remake, ou se torna uma série de TV moderna.

A Mão que Balança o Berço’ traz o pesadelo de todos os pais: ajudantes domésticas ruins.

Como dito, a obra escrita por Amanda Silver (roteirista de Planeta dos Macacos – O Confronto, Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros e do live-action de Mulan) parte da premissa do abuso cometido por um ginecologista em relação a suas pacientes. Vemos constantemente notícias assim nos jornais, inclusive aqui no Brasil. A primeira a vir à frente e denunciar o abuso sofrido (sempre o passo mais difícil) é Claire, a protagonista do filme, papel de Annabella Sciorra. Ela se sente extremamente desconfortável durante sua última consulta com o Dr. Mott. Grávida e extremamente fragilizada, ela fica exposta ao assédio do médico, que abusa de sua posição. Claire pensa a respeito, compreende o ato terrível que se passou com ela, e resolve denunciar o ginecologista por má conduta de sua profissão. Em casos assim, na maioria das vezes tudo o que basta é a primeira mulher ter coragem de encarar a situações, que outras irão seguir seu exemplo. Casos assim quase nunca ocorrem aleatoriamente e apenas uma vez.

Desta forma, a força de Claire incentiva outras mulheres a seguirem seus passos e virem à tona com novas acusações do médico assediador. Logo as ações condenáveis do sujeito estão em todos os noticiários e médico odioso toma o caminho dos covardes, cometendo suicídio para não pagar na justiça por seus atos terríveis. O pior de tudo é que ele era casado, e sua esposa estava grávida. Quando a mulher recebe a chocante notícia de que o marido tirou a própria vida devido às acusações, ela não aguenta e desfalece. Como consequência, sua gravidez se complica e ela perde o bebê. Agora, a vida da Sra. Mott foi completamente arruinada, assim como a de seu marido criminoso. À primeira vista, o pensamento que se tinha da Sra. Mott, personagem de Rebecca De Mornay, é que era uma mulher de luto em busca de vingança – após tudo o que tinha ser tirado dela. Mas podemos facilmente analisar a esposa do médico criminoso como sua semelhante no grave desvio de caráter. Por mais que a mulher realmente não soubesse dos atos do marido, seu comportamento a seguir e tudo o que irá acarretar só demonstram o quão desequilibrada é a personagem.


A loira Rebecca De Mornay vive Peyton, a “babá dos infernos” em seu papel mais marcante no cinema.

O plano maquiavélico da Sra. Mott é rastrear o epicentro de tudo, ou seja, a mulher que fez a primeira denúncia de seu marido e que desencadeou com que todas as outras viessem a público denunciá-lo também. Claire agora já teve seu segundo filho, o bebê Joe, e vive feliz ao lado da família de comercial de margarina: com o marido Michael (Matt McCoy), a filha pequena Emma (Madeline Zima) e o faz tudo Solomon (Ernie Hudson), um homem com deficiência mental, que o faz ter um intelecto de uma criança. Completando o elenco principal, temos a amiga da família Marlene, papel de uma iniciante Julianne Moore em um de seus primeiros papeis no cinema. No mesmo ano, Moore ainda encontraria outra loira fatal nas telonas, ao participar também de Corpo em Evidência, com Madonna.

Após saber exatamente onde vive a mulher que “arruinou sua vida”, a Sra. Mott não se dá por satisfeita e conquista a vaga de babá na família, para cuidar do pequeno Joe. E para isso ela usa o pseudônimo Peyton Flanders, uma carinhosa cuidadora, parecendo saída de um conto de fadas. As motivações de Peyton, no entanto, são bem mais nefastas. Ela mente, manipula, cria intrigas e situações na família, a fim de despedaça-la por dentro – assim como lhe foi feito. Podemos até analisar por um lado psicológico e afirmar que o trauma sofrido por Peyton foi o estopim, o que viria a desencapar de vez seus fios, e ligar o modo psicopata em sua mente. O que a fez completamente insana. No entanto, um ato frio e calculista deste requer planejamento e tempo – bem longe de algo impensado e no calor do momento. Talvez Peyton já tivesse dentro de si a índole para facilmente cometer o mal e ações hediondas – assim como seu marido. Outra interpretação é a que Peyton queria se chegar e conhecer a mulher que destruiu sua vida, para de alguma forma a prejudicar, mas ainda sem saber muito bem como ainda. Suas ações vão escalando e seus planos vão ganhando forma conforme mais se infiltrava na família.

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Claire (Annabella Sciorra) é a heroína que denuncia um abuso médico. Mas termina se tornando alvo da viúva do sujeito.

A verdade é que Claire fez o que deveria, fez o certo e denunciou um caso de abuso sexual. Por mais insano que se esteja por ter a vida destruída, não existe justificativa para a vingança a favor de um ato horripilante destes. Essa mensagem deturpada de colocar uma mulher para se vingar de outra, ainda mais com esta sendo vítima de abuso sexual, foi o que afastou a atriz Cybill Shepherd do projeto. A atriz de Taxi Driver, A Última Sessão de Cinema e do seriado A Gata e o Rato era a primeira escolha do estúdio (Hollywood Pictures, subsidiária da Disney nos anos 90 – ou seja, um filme de terror da Disney) para viver a babá psicopata Peyton. Shepherd, no entanto, optou por recusar o papel, dando como motivo suas crenças feministas – ou seja, a atriz considerou o roteiro anti-feminista, mesmo tendo sido escrito por uma mulher.

Hoje uma estrela de muito prestígio, Julianne Moore dava seus primeiros passos no cinema em ‘A Mão que Balança o Berço’.

De muitas formas, A Mão que Balança o Berço guarda semelhanças com o clássico Atração Fatal na problemática em que apresenta suas antagonistas. Tanto Peyton quanto a Alex de Glenn Close são tratadas como mulheres altamente desequilibradas, cuja psicose escala até o nível onde precisam ser eliminadas da maneira mais cruel possível. Isso, é claro, depois das próprias terem cometido os atos mais execráveis, incluindo homicídios. A diferença destas vilãs citadas, é que Alex (Atração Fatal) ainda é defendida por parte do público, tida como anti-heroína feminista. Ela só começa a agir depois de ter sido usada e descartada por um homem casado, traindo sua esposa – o exemplo do comportamento usual do homem médio da época. Em partes, a personagem de Glenn Close pode ser vista como a vingança feminina à galope. Já Peyton aqui neste filme não possui motivações tão “nobres”, elas são mais pessoais. E motivações deturpadas, pois se iniciam com o sofrimento de diversas outras mulheres. Talvez estejamos analisando de forma demasiadamente aprofundada um filme que deveria apenas ser levado como entretenimento. Mas certos aspectos da narrativa precisam sempre ser levados em consideração para comprarmos a ideia, ainda mais se são as bases da história. E se levantavam questionamento na época, há 30 anos, o que dirá hoje.


Numa cena erótica, Peyton (De Mornay) tenta seduzir o marido de sua “rival”.

Seja como for, a bela e loiríssima Rebecca De Mornay, que havia chamado atenção em Negócio Arriscado (1983) e acabava de sair do sucesso Cortina de Fogo (1991), aceitou o papel de Peyton e ficaria eternizada como a personagem – ainda hoje considerado seu filme mais famoso. Curiosamente, antes de conseguir o papel neste thriller tenso com tintas de filme de terror, Rebecca De Mornay estava era correndo atrás da vaga como a fada Sininho (Tinkerbell) na superprodução de Steven Spielberg, Hook – A Volta do Capitão Gancho (1991). E não é que a loira é a cara da fadinha? Como sabemos, o grande diretor terminou optando por uma versão diferente da fada e escolheu o nome bem mais famoso de Julia Roberts, então saída de sua indicação ao Oscar por Uma Linda Mulher. Por uma tremenda ironia do destino, Roberts foi uma enorme dor de cabeça para todos nos bastidores das filmagens por seu comportamento difícil, fazendo a equipe do longa apelida-la de “TinkerHELL”.

A Mão que Balança o Berço estreou em primeiro lugar nas bilheterias americanas, com quase US$8 milhões em seu primeiro fim de semana no mês “morto” de janeiro. Ironicamente, o suspense desbancou justamente Hook – A Volta do Capitão Gancho, que ainda fazia barulho nas bilheterias tendo sido lançado em dezembro do ano anterior. A Mão que Balança o Berço permaneceu no topo das bilheterias por quatro semanas consecutivas. Com um orçamento de US$11.7 milhões, o filme arrecadou mais de US$88 milhões somente nos EUA – garantindo assim seu sucesso absoluto e entrando para o hall como um dos longas mais memoráveis e assustadores da década de 1990.

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