Em 2002, o crítico literário Fredric Jameson definiu o conceito de pós-modernidade como uma resposta ao consumismo exacerbado na sociedade capitalista. Segundo ele, cada produto cultural se “coisificava-se”, transformando-se em moeda de troca e em uma ambivalente massificação até mesmo do mais puro dos objetos – como a própria pop-art, que utilizava potencializava a produção de retratos propositalmente repetitivos para criticar a homogeneidade do mundo. As delineações de Jameson são, talvez, retratadas com mais força no cenário musical – e não apenas nos anos de hoje, mas desde os momentos finais da Guerra Fria em que a ideia de globalização recuperada era a mandatória.

Um dos grandes ícones dessa pós-modernidade e de suas múltiplas ramificações é Madonna. A rainha do pop começou a buscar sua identidade artística logo no segundo álbum de estúdio, ‘Like a Virgin’, misturando o mainstream com os ídolos que circundavam sua história – como Marilyn Monroe. Madonna reapropriava elementos clássicos da Era de Ouro do cinema hollywoodiano e acrescentava-lhes pinceladas de sua própria perspectiva, como mimesis, como sátira irônica. Mais para frente, em ‘Erotica’, resgataria Dita Parlo para se infiltrar em um novo alter-ego digno de suas incursões e que se afastaria dos conceitos de “boa moça” que apresentava em construções mais mercadológicas. Suas homenagens continuariam em ‘Bedtime Stories’, com a introdução do dub na Inglaterra, em ‘Confessions on a Dance Floor’, que iriam recuperar os anos 1970 e 1980 com poder monumental, e até mesmo em ‘Madame X’, seu mais recente álbum de estúdio que encarnava a pluralidade experimental na fonografia.


Uma outra grande representante desse pastiche contemporâneo é Lady Gaga. Alcançando fama imperial após sua estreia em 2008, Gaga revolucionou a indústria como a conhecíamos após apresentar um lado mais versátil do que se entendia como diva, repreendendo acusações machistas e sem fundamentos que tentavam destruir sua carreira. A performer infiltrou-se no mainstream para fornecer uma voz renovadora à supracitada “coisificação” dos produtos, criando uma identidade própria que, ao mesmo tempo, funcionava como mosaico do que já havia sido explorado. As convergências científicas e futuristas de músicas como “Born This Way” e “Poker Face”, a quebra de tabus imprimida em “Judas”, a destruição dos engessamentos maniqueístas da arte em ‘ARTPOP’, pavimentavam caminho para qualquer um que ousasse desafiar preceitos datados.

Agora, chegou a vez de Beyoncé se jogar de cabeça na pós-modernidade e, assim como suas conterrâneas, procurar uma forma de reencontrar a aura do “único”. A icônica deusa do R&B já havia se permitido fugir da massificação da esfera musical a partir de 2013, com o lançamento de seu álbum homônimo. Em 2016, dava origem ao seu primeiro álbum visual, Lemonade, entrecruzando as diversas linguagens artísticas para uma estética irretocavelmente sinestésica, permitindo que tanto os ideários sonoros quanto os visuais se fundissem em uma obra-prima que recriava e se criava, ao mesmo tempo. Agora, quatro anos depois, Beyoncé ousou reverenciar um passado marcado por angústias e traumas enquanto amadurecia, mais uma vez, em um ciclo eterno sobre o qual ela própria tem noção.

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Black Is King talvez seja a representação máxima de uma década (e até mesmo de um século) marcado pelos ecos pós-modernos. A constante reprodução da premissa compra-venda dos primórdios da sociedade capitalista continua a drenar a separação das artes (cinema, música, literatura, artes visuais, arquitetura e afins), forçando as barreiras que se impuseram entre elas nos séculos passados e enevoando fronteiras outrora erguidas como gigantescos muros. No ano passado, Beyoncé havia lançado uma curadoria especial em comemoração ao remake em live-action de ‘O Rei Leão’, intitulada ‘The Gift’; poucos dias atrás, sua parceria com o Disney+ deu origem à ficção proprioceptiva mencionada no início do parágrafo, transformando as faixas do álbum em uma tradução imagética sem restrições e com inatingível teor criativo.

Em sua nova produção visual, a performer reorganiza os cenários culturais e cria uma mitologia numa proporção equilibrada entre o contemporâneo e o clássico, entre o moderno e o atemporal. Anacronismos à parte, Black Is King é infundido com inflexões que variam, em uma naturalidade surpreendente, da mitologia católica à egípcia, das influências etíopes às sul-africanas, retomando seus projetos anteriores de celebração à ancestralidade sem deixar de comentar, através de canções ácidas e dinâmicas, como a história reflete no presente. Como já dito em nossa crítica sobre o longa-metragem, Beyoncé encarna Hathor, deusa celestial do Antigo Egito que se conectava com a realeza e com a benevolência da dança, da alegria, do amor e da sexualidade; ao mesmo tempo, aparece pintada numa transgressora releitura de ‘A Virgem do Cravo’ ou ‘A Virgem do Fuso’, posando como as Madonas de Leonardo da Vinci e Lorenzo di Credi ao lado de seus filhos recém-nascidos.


Do mesmo modo que se rende às estéticas renascentistas, ela se posta ao lado do marido, o rapper Jay-Z, em uma vibrante paleta de cores tanto dos cenários quanto das estampas dos figurinos, resgatando o conceito da identidade outrora fragmentada do pan-africanismo nas flâmulas que permeiam a frenética montagem. Em outras palavras, o eurocentrismo se rende ao continente que deu origem ao mundo – inclusive às religiões que hoje proliferam como as mais adeptas das sociedades. Não é surpresa que Beyoncé também dê vida a Joquebede, mãe de Moisés, e reviva Oxum com flamejantes vestidos amarelos e as influências da cultura ijexá nessa nova fase de sua carreira.

As simbologias também estão alastradas por todo lugar: a artista promove o renascimento através do contato dos personagens que cria com a água, seja em caudalosos rios, seja em lagos idílicos; outrossim, invade a etnoastronomia africana ao redescobrir os significados dos astros, principalmente da lua, que parece reger relacionamentos ou problemáticos ou românticos de cada protagonista e coadjuvante; a flor, ressignificada e mascarada dentro de um contexto fora do convencional, se inclina para o povo ganês – mais precisamente com a presença do símbolo adinkra bese saka, que representa afluência, poder, abundância e unidade.

Entre tantas e infindáveis aventuras artísticas, Beyoncé permite que os ecos dessa identidade pós-moderna existam em Black Is King; mas, com sagacidade aplaudível, não deixa que o materialismo consuma a obra-prima que constrói, tomando as rédeas com força descomunal e entregando apenas o que podemos encarar como um dos melhores filmes do século.


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