Esse ano, inegavelmente a bruxa esteve solta. Mas na ficção, os fãs das verdadeiras mestras das artes negras não terão do que reclamar, afinal dois novos clássicos saídos diretamente da década de 1990, e que abordam estas mulheres assustadoramente encantadoras, ganharam roupagens modernas. Já falei aqui sobre o adolescente Jovens Bruxas (1996) em duas matérias – uma sobre o paradeiro do elenco e outra sobre as curiosidades da produção. O reboot Jovens Bruxas: Nova Irmandade é um produto da Blumhouse e estreia no dia 28 de outubro em diversos países (nos EUA de forma online) e chega ao Brasil no dia 3 de novembro nos cinemas.

Antes disso, tendo estreado na última quinta-feira, dia 22 de outubro, nos EUA e Canadá em serviços de streaming, a nova versão de Convenção das Bruxas estrelada por Anne Hathaway e dirigida por Robert Zemeckis chegou às telinhas. No Brasil novamente a bruxa vai ganhar as telonas, já que a Warner planeja o longa nos cinemas por aqui, no dia 19 de novembro.

Justamente por isso, chega a hora de revisitarmos o Convenção das Bruxas original, filme que fez parte da infância de toda uma geração, encantando e assustando crianças do mundo inteiro, e que em 2020 completa 30 anos de seu lançamento.



Convenção das Bruxas, ou simplesmente The Witches (As Bruxas) no original, é um tipo peculiar de filme infantil. Isso porque até então a barreira na qual a censura branda podia ser esticada era bem mais ampla. Assim temos aqui elementos e cenas de dar pesadelos até em adultos, embrulhados num pacote para a criançada. A história, é claro, surgiu num livro do renomado autor infantil Roald Dahl, que já tinha por si só o hábito de acrescentar temas ambíguos e momentos questionadores sobre a tênue linha entre o sadio e o insano, e o estreito canal entre a alegria, a magia e o horror.  É só olhar para suas outras obras, vide A Fantástica Fábrica de Chocolate e O Fantástico Sr. Raposo – tramas infantis com forte conotação adulta. Tendo isso em mente, Convenção das Bruxas se encaixa como uma luva no currículo do escritor.

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Para a empreitada de levar o livro ao cinema, um acordo entre titãs. Produzindo a obra numa colaboração entre EUA e Reino Unido, a companhia de Jim Henson adquiriu os direitos do livro ao lado da Lorimar Film Entertainment, e a Warner ficou encarregada da distribuição do longa nas salas de cinema e mercado de vídeo. Jim Henson, mestre por trás de efeitos práticos e bonecos animatrônicos no cinema e TV, responsável pela criação dos Muppets e do cult O Cristal Encantado (1982), não perdeu a suculenta oportunidade de criar os visuais e maquiagem para uma história repleta de espaços assim para serem preenchidos: um dos principais motivos do envolvimento do artista com o material.

E suas criações para o filme são, ainda hoje passadas três décadas, simplesmente de cair o queixo. Desde a Rainha Bruxa tirando sua “pele” humana até sua forma real (uma maquiagem que demorava 8 horas para ser aplicada), passando pela metamorfose das crianças em ratos (transição para lá de perturbadora) e os animaizinhos falantes em si – tudo grita os estúdios de Henson e impressionam até hoje, sendo o carro-chefe da produção (e os elementos que fizeram o filme permanecer marcado no subconsciente coletivo).



Para o comando da obra e a adaptação do livro foi contratada uma dupla talvez inusitada para a tarefa, mas que por outro lado têm tudo a ver com o material, e que igualmente imprime a marca pela qual a produção ficou lembrada. O diretor britânico Nicolas Roeg (falecido em 2018 aos 90 anos) e o roteirista Allan Scott haviam colaborado anteriormente em Inverno de Sangue em Veneza (Don’t Look Now, 1973), terror dramático intenso que fala sobre um casal precisando lidar com a perda de sua pequena filha, se deparando com elementos sobrenaturais pelas vielas da cidade italiana flutuante. O longa é constantemente lembrando pelos fãs do gênero como contendo algumas das cenas mais gélidas da história do cinema. De alguma forma, tendo em vista sua primeira colaboração ou por pura coincidência, Roeg e Scott terminaram juntos de novo para um projeto mirado a um público bem diferente, mas dono de semelhanças inegáveis.

A trama, é claro, fala sobre bruxas. Tratadas como seres malignos e bem reais, cujo único propósito é tramar e erradicar da existência as crianças. Para tal, o plano é uma poção que os transforma em ratos, se tornando assim mais fáceis de serem mortos. Tudo começa com o menino Luke (Jasen Fisher), que fica órfão após a morte dos pais num acidente de automóvel. Ele começa a ser criado pela avó, Helga (Mai Zetterling), que o conta sobre a existência de bruxas, seu encontro prévio com elas, e sobre uma menina de sua infância, que foi abduzida por estas criaturas monstruosas, e enfeitiçada para viver para sempre dentro de uma pintura, na qual envelheceu até morrer e sumir do quadro. Assim, o menino logo se vê esperto e escolado para evitar qualquer contato de estranhos, e principalmente “estranhas”.



Avó e neto partem para férias num resort inglês, num luxuoso hotel administrado pelo Sr. Stringer, personagem do humorista Rowan Atkinson em um de seus primeiros papéis de destaque no cinema. Atkinson, obviamente, ficaria imortalizado por sua criação Mr. Bean, série que debutava no mesmo ano na TV britânica alguns meses antes da estreia deste longa. Para azar dos protagonistas, o local está sediando secretamente a reunião anual das bruxas, inclusive contando com a presença da Grand High Witch, a líder da “organização”, conhecida como Srt.a Ernst.

Convenção das Bruxas é repleto de humor e mensagens edificantes como superação de traumas e perdas, enfrentar o medo e se mostrar à altura de desafios por maiores que sejam. Mas o tema central desta história é o conto cautelar sobre abdução de crianças realizadas por desconhecidos, crueldade e assassinato de menores – tópicos bem reais e sempre urgentes. Um dos métodos usados para o sequestro de crianças neste conto por tais mulheres é oferecer doces e chocolates, ato que entrou para os anais como uma lenda urbana (mas vinda de fontes bem verídicas e muito antigas) passada de pais para filhos através dos séculos sobre não aceitar nada de estranhos e também não falar com eles.



O grande nome do filme é o da atriz Anjelica Huston, filha do lendário cineasta John Huston, no papel da Srta. Ernst, a diabólica bruxa Rainha. A esta altura Anjelica era uma atriz estabelecida, tendo começado sua carreira no cinema ainda no fim da década de 1960, e com duas indicações no Oscar – tendo uma delas rendido a vitória como melhor coadjuvante pela comédia criminal A Honra do Poderoso Prizzi (1985), longa no qual contracenou com seu então companheiro Jack Nicholson (com quem teve um relacionamento duas décadas, terminando justamente no ano em que lançava Convenção das Bruxas). Além disso, Huston ainda seria indicada ao Oscar uma terceira e última vez (até o momento) pelo suspense Os Imorais – seu segundo lançamento de prestígio em 1990. Huston se entrega com muita vontade a esta brincadeira e conseguimos sentir a alegria em sua atuação e empenho. No ano seguinte, a atriz marcaria novamente num papel semelhante: Morticia Addams, na primeira adaptação para o cinema do famoso seriado A Família Addams (que por sua vez saíra das tirinhas de jornais) – personagem que se tornaria a mais famosa em sua filmografia.

Convenção das Bruxas fez sua estreia em Orlando, na Flórida, no dia 16 de fevereiro de 1990, chegando em seguida ao Reino Unido em 25 de maio do mesmo ano. Nos EUA, começava sua carreira no grande circuito no dia 24 de agosto. Já no Brasil o filme chegou, bem a tempo para as férias de fim de ano, no dia 7 de dezembro. Em seu lançamento, porém, o filme não fez uma boa trajetória nas bilheterias norte-americanas. Embora não se saiba exatamente o valor de seu orçamento, o longa abriu em décima posição no ranking dos mais vistos, com US$2.2 milhões em caixa em seu fim de semana de estreia. Em seu caminho, sucessos com Acima de Qualquer Suspeita (com Harrison Ford), Linha Mortal (com Julia Roberts) e o fenômeno Ghost: Do Outro Lado da Vida. Fora isso, estreava na mesma semana um filme de teor semelhante, pronto para ser consumido pelas massas e ganhar o gosto popular: Darkman – Vingança Sem Rosto, de Sam Raimi. Assim, Convenção das Bruxas terminaria seu caminho nas salas americanas com algo em torno de US$15 milhões em caixa, valor relativamente baixo, mesmo para a época.



Por outro lado, Convenção das Bruxas se enquadra numa longa tradição de filmes redescobertos algum tempo depois no mercado de vídeo e nas TVs (onde grande parte dos fãs brasileiros o conheceu) após falhar em seu engajamento nas telonas. As avaliações favoráveis com os especialistas só cresce, marcando impressionantes 93% de aprovação no Rotten Tomatoes. Fora isso, um editorial do mesmo agregador escrito por Rafael Motamayor aponta o filme como a produção infantil mais assustadora de todos os tempos. E você, conhece a obra? Essa é uma excelente oportunidade para assistir pela primeira vez ou ver de novo, já que o fim do mês marca as festividades do halloween – o dia das bruxas.

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