Terceiro capítulo da franquia envelheceu de maneira curiosa

Há algumas semanas foi registrado avanço sem precedentes do grupo fundamentalista Talibã no território do Afeganistão. Em pouco tempo, o governo central perdeu diversas partes do território para a facção até culminar na fuga do presidente Ashraf Ghani e a tomada completa da capital, Cabul. 

Esse retorno ao poder do Talibã ocorre dezenove anos depois da sua deposição por parte dos Estados Unidos na guerra de 2001 e da assinatura de um tratado de paz entre ambos em 2020. Com a retirada completa das forças de ocupação norte-americanas, o governo afegão caiu quase que em um piscar de olhos, finalizando esse longo capítulo da relação entre EUA e Afeganistão. Ainda assim, a relação entre ambos é bem anterior a 2001 e, curiosamente, Rambo III tem um encaixe curioso nisso tudo.

Foi no ano de 1988 que o diretor Peter MacDonald assinou a então mais nova aventura do ex-soldado John Rambo (ícone do cinema de ação interpretado por Sylvester Stallone). Esse foi o primeiro trabalho do profissional à frente de um filme, anteriormente ele havia desempenhado funções mais técnicas como assistente de direção. Por outro lado, à altura que a produção do terceiro título começou, Rambo já era um personagem mais do que consolidado no imaginário popular e bilheterias.



Rambo é um ícone do cinema de ação.

Desde a origem do personagem, visto no livro First Blood de David Morrell, até seu primeiro filme em 1982, a persona de Rambo sempre esteve inserida, de certa forma, no cenário mais crível possível. Originalmente sua existência era justificada como um comentário à forma estigmatizada com que os veteranos da guerra do Vietnã ficaram após retornar para os Estados Unidos.

Ao contrário do que ocorreu com a geração da Segunda Guerra Mundial, esses soldados eram vistos como criminosos de guerra (uma vez que o Vietnã foi o primeiro combate amplamente coberto pela mídia e, por conta disso, diversos abusos aos nativos eram noticiados) que participaram de um conflito amplamente impopular e inútil. Sem poder permanecer no exército e com um país que lhes era muitas vezes hostil, eles permaneceram às margens da sociedade.

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Enquanto que sob certa perspectiva o filme original de Rambo manteve intacta essa ideia do veterano indesejado, que acaba se vendo de volta ao estágio de combate anterior, o segundo (lançado em 1985) consolidou o personagem de Stallone como um herói de ação aos moldes dos que eram apresentados no período: invencíveis, bem equipados e solitários. Tendo em mente que em time que está ganhando não se mexe, Rambo III manteve a fórmula.

Após os eventos do segundo filme, Rambo tenta levar uma vida pacífica em um mosteiro na Ásia. Entretanto seu velho amigo, coronel Trautman, vai a seu encontro requisitando  ajuda em uma missão secreta que envolve entregar armamentos para um grupo de guerrilheiros mujahedin, no Afeganistão, que estão empreendendo uma resistência contra as forças de ocupação da União Soviética.



Rambo precisa voltar à ativa mais uma vez.

Rambo recusa, a missão dá errado e Trautman é capturado pelos russos; sendo que agora ele é o único que pode salvar seu antigo comandante e para isso precisará da ajuda local. Rambo III foi desenvolvido ainda no decorrer da primeira Guerra do Afeganistão (que durou de 1979 até 1989) quando o país se viu envolvido por um conflito conduzido por afegãos que não concordavam com os modos secularistas com que o governo socialista (conduzido pelo partido socialista PDPA) conduzia o país.

Esses combatentes receberam a alcunha de mujahidin (que é a designação daqueles que combatem os inimigos do islã) e eram, em sua maioria, pessoas simples e sem treinamento militar. Por conhecerem bem o território eles obtiveram vitórias importantes ao empregar táticas de guerrilha, que pontualmente desestabilizavam as forças inimigas. Os primeiros levantes afegãos conquistaram o apoio de nações próximas, como o Irã, mas também forçaram o governo local a requisitar assistência do exército vermelho.

Com a escalada do conflito, o governo do Paquistão (país que faz fronteira com o Afeganistão) requisitou o apoio dos Estados Unidos, mesmo que indiretamente. Graças ao contexto da Guerra Fria, o conceito de “conflitos por procuração” (termo referente a influência indireta das duas superpotências do período em confrontações que lhes eram interessantes porém havia o risco de embate direto).

Soviéticos adentrando território afegão.

Utilizando agentes em campo, os EUA por meio da CIA, realizou um mapeamento inicial da situação no Afeganistão e, principalmente, da resistência local. Conforme apresentado no livro From the Shadows: The Ultimate Insider’s Story of Five Presidents and How They Won the Cold War assinado pelo ex-Secretário de Estado Robert Gates, a oportunidade que surgiu de um possível contato entre Washington e os insurgentes era a de manter os soviéticos presos a um conflito o máximo de tempo possível, até que sua disposição estivesse exaurida.

A parceria entre EUA e mujahedin começou em 1979 com a disponibilidade de uma verba reduzida de pouco menos de US$ 700 mil, no que ficou conhecida como Operação Ciclone. No entanto, o financiamento foi aumentando gradativamente ao longo da década conforme o conflito se estendia e passando de meio bilhão de dólares à altura de 1987 (Rambo III foi lançado no ano seguinte).

Dada essa contextualização é interessante notar como a trama da terceira aventura de Rambo segue a linha de representação positiva que os mujahedin estavam recebendo no ocidente, ainda que a cobertura jornalística nesse conflito em específico fosse extremamente perigosa e, portanto, escassa. Conforme exposto no artigo Soviet and Western Media Coverage of the Afghan War, de Ali T. Sheikh, os jornalistas em campo geralmente montavam suas “bases de operação” no Paquistão ou, quando adentravam território afegão, o faziam apenas com o consentimento e escolta dos mujahedin.

Os mísseis Stinger usados pelos mujahedin e financiados pelos EUA são um dos símbolos do conflito.

Não raramente, ainda segundo o artigo, os correspondentes que acompanhavam os grupos de resistência tendiam a romantizar a guerra que se desenrolava, adotando em seus textos termos como o já mencionado mujahedin e jihad.  O apoio americano aos rebeldes não se limitou apenas a suprimentos e financiamento mas também a treinamento dos combatentes; é nesse ponto que a pedra base de muitas organizações fundamentalistas dos anos seguintes é estabelecida. Grupos esses que se aproveitaram dos treinamentos ocidentais.



Ao final, a União Soviética de fato sofreu um desgaste financeiro e moral profundo, não lhes deixando outra opção que não fosse se retirar do país. O saldo final da guerra foi de dois milhões de civis afegãos mortos, assim como mais de cinco milhões de refugiados. Ao final da tragédia, os EUA também cancelaram quaisquer ligações com os grupos locais e deixaram o território. Uma Guerra Civil se iniciou logo em seguida, derrubando de vez o regime socialista no país.

Com isso, a camaradagem estabelecida entre Rambo e os combatentes ao longo de toda a película, fora a vilanização dos russos, mostra o quão presa a produção estava ao tempo em que ela foi realizada e como isso, anos depois, geraria uma ironia do ponto de vista histórico impensável. Após o onze de setembro e a invasão dos EUA ao Afeganistão, estabeleceu-se o oposto do que foi trabalhado no filme de MacDonald.

Rambo III, evidentemente, não tinha tamanha ambição do ponto de vista geopolítico e histórico. A intenção era apenas prosseguir com uma franquia conhecida e arrecadar com a febre de filmes de ação da época; mesmo assim, às vezes a história não perdoa e cria momentos curiosos como esse.

 

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