Borat está de volta. Isso por si só já seria suficiente para deixar qualquer um de nós num misto de animação e desconfiança – até porque ele chega com um filme cujo título é intraduzível. Mas, em um ano tão surreal como o de 2020, como não teríamos o retorno repentino deste personagem tão icônico da cinematografia?

Quatorze anos se passaram desde que o jornalista Borat (Sacha Baron Cohen) chacoalhou o cinema pela primeira vez. Porém, ao contrário do que ele mesmo esperava, Borat se tornou o pária do Cazaquistão por ter levado seu país ao ridículo no primeiro filme. Mas o governo cazaque lhe dá uma opção: para ser perdoado pelo seu país, Borat deve levar um presente ao líder Mike Pence, nos Estados Unidos: um macaco, estrela de filmes pornôs no Cazaquistão. Borat topa a parada e viaja de navio ao redor do mundo até chegar no Texas, mas, escondido na gaiola do macaco, sua filha Tutar (Maria Bakalova, que, em determinado ponto do filme fica parecendo uma das irmãs de ‘As Branquelas’) migrou para os EUA. Juntos, pai e filha viverão uma jornada de descobertas sociais que envolvem políticos como Donald Trump e Rudy Giuliani e homens influentes como Jeffrey Epstein.



O grande lance dos filmes do Borat é que o espectador nunca tem cem por cento de certeza se as pessoas que aparecem são atores de verdade ou cidadãos comuns. Algumas reações são tão genuínas e/ou absurdas, que a história elaborada por Anthony Hines, Dan Swimer e Nina Pedrad – junto com o próprio Sacha Baron Cohen – merece receber aplausos, por mais surreal que isso pareça. E todo esse cenário se torna ainda mais incrível (no real sentido de não ser possível acreditar no que vemos) quando nos damos conta de que tudo foi gravado durante a pandemia do corona vírus nos Estados Unidos, pegando desde o princípio do ano, quando Mike Pence declarava abertamente que os estadunidenses não seriam afetados pelo covid, quanto já nos meses recentes, com a reabertura de alguns locais. Inclusive, o final desse argumento é formidável.

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Tal como no primeiro documentário, o que chama atenção no filme é o seu roteiro inteligentíssimo – dessa vez construído com muito mais sarcasmo, fúria e veneno por Sacha Baron Cohen, Peter Baynham, Erica Rivinoja, Dan Mazer, Jena Friedman, Lee Kern, Dan Swimer e Anthony Hines. Partindo da filha que aparece inesperadamente e passa a acompanhar Borat em sua missão, o roteiro aborda temas delicadíssimos e polêmicos, como o abuso sexual, o aborto, a submissão feminina, o porte de armas, o negacionismo, a supremacia branca, as fake news e a polarização política que divide aquele país, dentre outros. Com esse intuito, o roteiro enfia o dedo nessa ferida tão cheia de pus e escancara o quanto, a sociedade estadunidense é conivente com as atrocidades cometidas pelos seus líderes políticos.

E esse é o grande mérito da segunda incursão desse arteiro personagem nos cinemas – até porque ele constrói suas armadilhas usando cidadãos comuns do povo, filmando suas reações genuínas às inocentes barbaridades proferidas pelas competentes atuações de Sacha Baron Cohen e Maria Bakalova. Mas, em vez de ser direto e agressivo, Borat elabora suas esquetes para provocar o riso no espectador – e nós só rimos porque conseguimos reconhecer o ridículo absurdo das situações; rimos porque Borat reforça comportamentos abomináveis – como o racismo, o machismo, a xenofobia, o nazismo e a supremacia racial branca – para escancarar o quanto esses mesmos comportamentos condenáveis estão enraizados nas sociedades, servindo de alicerce para sua estruturação e, consequentemente, normalizadas no cotidiano do povo, que as reproduz.



Surpreendentemente, ‘Fita de Cinema Seguinte de Borat’ é um filme necessário nesse ano inacreditável de 2020. Não à toa, estreia às vésperas das eleições para presidente nos Estados Unidos. Mais que um filme, é uma importante e elaboradíssima crítica ao método ocidental liberal-capitalista de civilização.

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