A não ser que você tenha vivido sob uma rocha ou em total reclusão nos últimos vinte anos, é muito difícil que nunca tenha ouvido falar de Beyoncé Knowles-Carter. Conhecida mais por seu primeiro nome, a cantora, compositora, ativista e empreendedora não é apenas uma das vozes mais conhecidas de todos os tempos, como uma das mais importantes também – dotada de uma extensão vocal impecável e de álbuns que marcaram e continuam marcando época. Não é por qualquer razão que, recentemente, Beyoncé tenha se tornado a mulher mais premiada da história do Grammy Awards e utilize suas habilidades artísticas para exaltar a cultura negra de forma estonteante (ora, é só nos lembrarmos do aclamadíssimo ‘Lemonade’ ou do filme visual ‘Black Is King’, ambas joias do cenário do entretenimento).

Entretanto, antes de se aventurar em seu lado mais político, Beyoncé havia participado do grupo conhecido como Destiny’s Child e, pouco depois da girl band se desmembrar, ela apostou fichas em uma carreira solo recheada de sucessos e de importantes transições. Logo, em 2003, a performer faria sua grandiosa estreia com o clássico e memorável Dangerously in Love, cujas canções ficariam imortalizadas na memória dos fãs e de qualquer um que aprecie uma boa e cativante música. Infundido pelo R&B contemporâneo e por inflexões do pop arábico e do hip-hop, o compilado de originais não é apenas uma ode ao amor, mas também um retorno às raízes texanas de sua família e às canções que encarnara anteriormente ao lado de Kelly Rowland e Michelle Williams. Apesar de esbarrar em certas repetições e equívocos, é inegável comentar o poder atemporal que o álbum carrega até os dias de hoje.

Funcionando como uma explosiva amálgama de diversos gêneros, Beyoncé já vinha seguido as tendências que ajudara a estampar no mainstream desde os anos 1990, aproveitando a popularização gigantesca do R&B para construir, ao lado de dezenas de produtores e compositores, uma jornada apaixonante pelas múltiplas fases da paixão e do amor. E é apenas inteligente que a faixa de abertura reverbere com “Crazy In Love”, lead single cantado ao lado de Jay-Z e que é exaltada em baladas e playlists inclusive em 2022. Quase duas décadas depois, o vibrante e sensual mergulho lírico serve como um hino romântico que se afasta das costumeiras baladas do gênero e é movida por um gancho tão chiclete que é quase impossível não reconhecê-lo imediatamente quando o ouvimos em… Bem, praticamente qualquer lugar.


O sólido pontapé inicial é seguido por outras duas tracks de igual sucesso, não apenas comercial, mas em relação ao projeto que é criado aqui. “Naughty Girl” e “Baby Boy” são posicionadas em segundo e terceiro lugares, respectivamente, em uma espécie de brincadeira contrastante entre duas personagens que irão desenvolver um enlace amoroso – e ambas são marcadas pelo forte uso de referências orientais, que aparecem tanto no uso demarcado das cordas até a presença diferenciada dos sintetizadores; aqui, os vocais de Beyoncé ganham uma outra camada, afastando-se da power-house da track anterior e fazendo questão de adotar uma identidade mais sexy e, ao mesmo tempo, empoderada (tendo certeza do que quer na sua vida).

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Não são apenas upbeats que compõe a configuração do álbum – aliás, é notável como o disco tem uma variedade marcante de canções dançantes, recuos em down-tempo e baladas. Há uma sutil homenagem a Roberta Kelly na divertida “Signs”, performada ao lado da lendária Missy Elliott, cuja narrativa utiliza os signos do zodíaco para falar sobre os altos e baixos que nossa Queen B teve ao longo da vida – até encontrar o que procurava em um homem sagitariano (e adivinhem? Jay-Z, marido de Bey, é de Sagitário); “The Closer I Get to You” é uma apaixonante e arrepiante rendição entre a lead singer e o icônico Luther Vandross, em que a sutileza instrumental se mostra apropriada para jogar os holofotes para a química da dupla; “Speechless” e Dangerously in Love 2”, mesmo que se valham de alguns convencionalismos do gênero, servem para destacar o alcance vocal de Beyoncé e um controle estilístico absolutamente fantástico e de tirar o fôlego.

É notável a importância da obra para o cenário musical e para a carreira de Beyoncé, é óbvio, mas isso não significa que a produção esteja livre de alguns equívocos bastante perceptíveis – e que, mesmo com expressividade considerável, são ofuscadas pelo local estratégico em que se encontram. Temos, por exemplo, “Hip Hop Star”, uma inexplicável inclinação R&B-rock esquecível e que não faz jus às outras ótimas iterações; “Be With You”, por sua vez, apesar de fazer alusão a Tyrone Davis, Shuggie Otis e astros dos anos 1970, parece não se realizar por completo com seu funk-disco soul, perdendo força ao dar espaço para canções mais bem estruturadas (como “Me, Myself and I”); e “Yes”, mesmo com um conteúdo lírico incrível, se joga de cabeça em um uso incessante de batidas quebradas e sintetizadores dissonantes que nos cansam ao longo de mais de quatro minutos.


Dangerously in Love marca um novo capítulo para a carreira de Beyoncé – e o primeiro passo para uma carreira que seria marcada por revoluções, reinvenções e um legado incontestável. O álbum pode não ser a melhor entrada de sua carreira, mas é um vislumbre do que ela viria a nos oferecer pouco tempo depois.

Nota por faixa:

1. Crazy in Love, feat. Jay-Z – 5/5
2. Naughty Girl – 5/5
3. Baby Boy, feat. Sean Paul – 5/5
4. Hip Hop Star, feat. Big Boi e Sleepy Brown – 1/5
5. Be with You – 2,5/5
6. Me, Myself & I – 3,5/5
7. Yes – 3/5
8. Signs, feat. Missy Elliott – 4/5
9. Speechless – 4/5
10. That’s How You Like It, feat. Jay-Z – 3,5/5
11. The Closer I Get to You, feat. Luther Vandross – 5/5
12. Dangerously in Love 2 – 4/5
13. Beyoncé Interlude – 5/5
14. Gift from Virgo – 5/5
15. Work It Out – 4/5

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