Filme assistido durante o Festival de Sundance 2020

É o tipo de trama que sempre quisemos ver se tornar genuinamente real: Homem comum vai de pai de família a um espião com um alvo em sua cabeça. Mas muito mais que qualquer história eletrizante que James Bond jamais pudesse ter trazido à tona, o caso Ironbark acompanha um momento crucial em meio à Guerra Fria, uma história pouco conhecida desse hiato que envolveu duas das maiores nações mundiais. E o drama Ironbark, dirigido por Dominic Cooke, extrai dos empoeirados livros de história o conto de um empresário singelo que, na mais tenra inocência, se tornou a ponte entre a CIA e a União Soviética, em um relato que raras vezes o seu autor estaria vivo para contar em primeira pessoa.

Ironbark é encantador por natureza. Explorando um fragmento histórico que foge do conhecimento geral mundial (e que deve encher os russos de um ódio absoluto até hoje), a cinebiografia acompanha Greville Wynne, um empresário aleatório contratado para assumir a missão da sua vida: Ajudar a CIA a se infiltrar no Programa Nuclear Soviético durante a Guerra Fria. Estabelecendo um relacionamento arranjado com o traidor soviético Oleg Penkovsky (cujo codinome era Ironbark), ambos serão peças chave em um sistema de inteligência tática que visa acabar com a Crise de Mísseis de Cuba.

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E aqui, Benedict Cumberbatch dá vida a Greville, apresentando uma delicadeza, simplicidade e profundidade diferenciadas em sua performance. Revelando uma maior maturidade em sua caracterização, ele desafia seus próprios limites físicos e emocionais, submete seu corpo a uma perda de peso que choca os olhos e acrescenta à essa transformação um olhar pesado e doloroso, que reflete uma alma dilacerada e até mesmo traumatizada pelas experiências que testemunhou ao se submeter a um experimento como “espião por um dia”.

Sua atuação é ainda mais enriquecida com a ajuda a Merab Ninidze, que representa Ironbark com precisão, trazendo os mesmos aspectos físicos do desertor. E como uma aula genuína de história que jamais se vê nas escolas, o drama biográfico remonta os fatos com habilidade, conduz a trama sob uma direção consistente e sólida e sabe explorar bem a época histórica em que se encontra, fazendo o uso excessivo das sombras, a fim de ajudar na construção da atmosfera de pavor, incerteza e inseguranças que cercavam ambos os protagonistas a cada encontro.

Com um design de produção que ainda transita entre a vida familiar e padrão de Greville e sua obscura e misteriosa carreira como um espião às avessas, a cinebiografia é impecável em sua tecnicidade estética, esbanja nas padronagens da época quando lhe cabe e também proporciona uma bela experiência visual. Com um roteiro intrigante, assinado por Tom O’Connor, e que sabe reter a atenção da audiência do começo ao fim, Ironbark é capaz de conquistar os olhares diversos. Carrega em si o peso artístico do cinema arte e sabe construir aquela tensão que um bom fã de um épico de 007 tem prazer em desfrutar. E de quebra, nos introduz a uma versão 2.0 do nosso amado Doutor Estranho.

 

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