Campo dos Pesadelos

London Fields é baseado no romance do escritor britânico Martin Amis (que também assina o roteiro) e apresenta como protagonista a femme fatale Nicola Six (papel de Amber Heard), uma espécie de vidente – embora no filme nunca fique inteiramente claro. Coincidentemente, já que o filme estava pronto para ser lançado em 2015, a verdadeira premonição aqui seria do desastroso casamento da atriz com o astro Johnny Depp, um trem desgovernado que sai dos trilhos rapidamente, servindo como resumo certeiro desta obra.

Não são muitos os filmes que possuem a honraria de figurar um suculento 0% de aprovação da imprensa especializada no agregador Rotten Tomatoes, mas London Fields é um destes casos. A verdade é que produções problemáticas como esta dificilmente conseguem se reerguer, tornando-se um sucesso. Como dito, o filme estava pronto para a estreia mundial, que ocorreria durante o Festival de Toronto 2015. Em cima da hora, o longa foi retirado do evento por motivo do processo judicial que o diretor Mathew Cullen realizou contra os produtores. Segundo Cullen, o corte final da obra havia lhe sido prometido pelos executivos, coisa que não ocorreu com o produto pronto.



Entrando no bonde, os produtores resolveram processar a atriz Amber Heard por US$10 milhões, devido a uma quebra contratual, na qual ela não teria cumprido com todas as suas obrigações em relação ao filme (como a divulgação, por exemplo) anteriormente concordadas. Para piorar a situação, em janeiro de 2017 estourou o escândalo da separação de Heard e Johnny Depp, debaixo de acusações de abuso doméstico e agressões de ambas as partes. Depp havia aceitado atuar no longa em um papel coadjuvante para ajudar a impulsionar a carreira de sua então noiva.

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No segundo semestre de 2018, London Fields finalmente atingiria as salas de cinema dos EUA, antes tendo sido lançado na Rússia, para se tornar uma das piores aberturas de um filme em grande circuito no país, se mostrando também um fracasso financeiro além de tudo. Agora, a obra chega ao Brasil, sem passar por nossos cinemas (obviamente), direto no mercado de vídeo, onde pudemos conferi-lo na rede Telecine. Deixando de lado tudo o que foi comentado até aqui, para simplesmente nos concentrarmos no resultado final do que vemos em tela, podemos afirmar que London Fields – que no Brasil ganhou o subtítulo Romance Fatal – é uma grande bagunça. Um filme desorganizado (para dizer no mínimo) que faz da simples tarefa de seguir um raciocínio claro do início ao fim, uma missão impossível para o espectador.



Em tela um grande elenco renomado desfila – a maioria perdido, outros tentando dar algum sentido à narrativa. Na trama, o vencedor do Oscar Billy Bob Thornton interpreta um escritor americano que troca de apartamento com um famoso autor britânico (Jason Isaacs) a fim de que ambos tenham experiências reais para seus próximos livros. Assim, Thornton vai conhecendo “as figuras locais” e pegando inspiração para sua obra, ao mesmo tempo em que interage com os registros. Como pano de fundo, uma realidade pré-apocalíptica, com áreas urbanas de grandes metrópoles reduzidas a ruínas – e assim como a clarividência da personagem de Heard, tal elemento é apenas uma nota de rodapé, sem qualquer aprofundamento ou segunda olhada. Uma pena, pois são justamente os tópicos que gostaríamos que fossem desenvolvidos – ao contrário da enfadonha narrativa escolhida para os holofotes.

Em resumo, assim como em Tudo por Ela (2006), terror que lançou a carreira de Heard, aqui todos os homens que cruzam o caminho da femme fatale, se jogam aos seus pés cometendo os atos mais insanos em nome do afeto da mulher. O filme ainda se atreve a chamar de amor, mas está bem longe disso – e soa mais como uma paixão ou uma forte atração sexual. Nicola (Heard) tem um comportamento mais sexualmente agressivo do que qualquer predador, ou predadora, com todas as cenas em que a atriz aparece precisando espelhar momentos rejeitados de um pornô.



Aliás, uma forma de fazer London Fields melhorar é assisti-lo como uma paródia, tamanho o exagero das situações e em especial das atuações. Neste quesito, a própria Amber Heard e Jim Sturgees aumentam a caricatura no nível máximo, prejudicando suas performances. Sturgees cria um criminoso de quinta, tão canastrão que parece saído de um desenho animado. E Heard envergonha qualquer atriz erótica com suas caras e bocas sensuais – em especial as do final do filme, quando contracena com o ex-marido. Depp vive um poderoso chefão e parece estar incomodado em cena. Quem se sai melhor é justamente Thornton e, por incrível que pareça, Theo James – da saga Divergente.

Mas nem tudo deve ser jogado no lixo, afinal é difícil encontrar uma produção deste porte profissional onde nada se aproveite, e como disse um crítico americano, o figurinista e sua equipe devem ter se divertido mais que o elenco criando as vestimentas estilizadas e (claro) exageradas do longa. O visual também é bacana, e o filme conta com uma boa fotografia. Fora isso, o diretor não consegue fazer suas subtramas se conectarem e não tem sucesso em contar esta história. Cada personagem parece viver em seu próprio universo, repelindo a narrativa central. É difícil de ser encarado até mesmo pelos fãs do livro. London Fields serve para mostrar que adaptar uma obra literária de sucesso, quando temos todos os elementos no lugar já é uma tarefa ingrata. Quando não temos, então…



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