Há um certo teor emblemático na primeira metade da década de 1990 para a música – principalmente quando restringimos nossa atenção para o conturbado período pelo qual Madonna passou em 1992 e em 1994. Com o lançamento de ‘Erotica’, a rainha do pop começava a enfrentar um backlash injustificável acerca da revolução que causara no cenário feminino mainstream – poucos anos depois de já ter feito isso com Like a Prayer. Talvez nunca na história (ou ao menos não com tanta força), uma mulher havia quebrado tabus sobre temáticas sexuais, corporais e até mesmo no tocante a fetiches e, de certa forma, a conservadora sociedade norte-americana e europeia não parece ter “adorado” a ideia, principalmente quando o álbum veio acompanhado do icônico livro Sex, recheado de fotografias com nudez explícita.

Como forma de “limpar” sua imagem, Madonna viria a dar um passo para atrás, mas não do jeito que todos pensavam. Com Bedtime Stories, seu sexto álbum de estúdio, a cantora e compositora iria se afastar do costumeiro pop exuberante de suas investidas anteriores e até mesmo do dance-noir de seu CD predecessor, abrindo espaço para incursões intimistas e bastante pessoas do R&B que trariam colaborações inesperadas e infalíveis – principalmente partindo de uma performer que não tinha medo de explorações grandiosas e arriscadas. No geral, a poderosa lírica é mascarada com uma espécie de dream-pop fabulesco que cria pequenos universos independentes e que, em uma simbiose fônica, unem-se uns aos outros em confissões declamatórias e críticas que nos envolvem ao longo de quase uma hora.

Mais uma vez, a artista promove uma mistura astuciosa e que beira a evasão instrumental, talvez querendo nos guiar para um âmbito mais sensorial do que palpável, talvez arquitetando uma via de mão de dupla que se repete em cada uma das onze faixas. Percebe-se um apreço da produção, supervisionada por Madonna e auxiliada por nomes como Dallas Austin e Nellee Hooper, por elementos “estranhos” às envergaduras do pop, como o saxofone, o xilofone e o órgão. Em vez de se render aos sintetizadores (cuja estética seria revisitada nos conceitos de Ray of Light e na mercadologia gritante de Confessions on a Dance Floor), a ideia aqui é convidar os fãs e até mesmo aqueles que entravam em primeiro contato com a identidade da lead singer a conhecer uma narrativa única. Apesar da track de abertura, “Survival”, carregar semelhanças inegáveis com Madonna do final dos anos 1980, ela serve de abertura estética àquilo que nos aguarda – e que insurge com majestade nas faixas seguintes.



A obra, ainda que não seja tão vanguardista quanto outras conterrâneas, tem uma construção única, instigante e carregada de uma acidez travestida por baladas românticas – dessa forma, alimentando faixas incríveis e memoráveis como é o caso do crescendo resguardado de “Secret” ou então da contemporaneidade de época de “I’d Rather Be Your Love”, instantaneamente guarnecida pela composição dos Isley Brothers e suas inclinações ao soul. Outras, por sua vez, cultivam sensações diversas, mergulhando de cabeça nos primórdios dos narcóticos e sensuais vocais do chamber-soul, como a ambígua “Inside of Me”, ou então para a amálgama entre R&B e jazz resguardada por “Forbidden Love” (cujo resultado é bem menos entediante do que poderíamos imaginar).

Se ‘Erotica’ nos ensinou alguma coisa, foi que Madonna não pede desculpas por estar certa e por enfrentar o status quo. Ela sempre foi astuta no tocante às composições (não é surpresa que, até hoje, seja uma das melhores de todos os tempos) e, por essa razão, tinha plena ciência de como prosseguir em tempos em que as mulheres não podiam ter a mesma liberdade criativa que os homens. De certa forma, Madonna estava acostumada àquilo e, como já havia provado diversas vezes, continuaria a destruir as barreiras de gênero em busca de melhores oportunidades para suas colegas de profissão que também pavimentavam seu caminho na esfera fonográfica. “Human Nature”, por exemplo, é um grande anthem feminista e um dos singles menos conhecidos da cantora, por criticar com ávida fúria o chauvinismo e a repressão, aproveitando para apostar em ironias cruas e aplaudíveis.

Como se não bastasse, a cantora acerta em cheio quando se trata de parcerias, unindo-se à envolvência de Meshell Ndegeocello e escolhendo a dedo suas referências a Jean Harlow, as quais atravessam os limites da música e do cinema em um entrelaço multicultural. Porém, seu auge artístico resolve dar às caras quando Björk entra em cena: a hodierna artista britânica, conhecida por seu estilo irreverente, acompanha Madonna em “Bedtime Story”. Sua progressão afasta-se da dominação do R&B noventista dos Estados Unidos e abre portas para os sintetizadores abafados do dub inglês, para os versos sem métrica e para o nirvana experimental. Em “Sanctuary”, ela volta com sua paixão poética ao recitar Walter Whitman (que acaba sendo a melhor secção de uma música oscilante).



Finalizando essa mais nova jornada em estilo burlesco e onírico com “Take a Bow”, Bedtime Stories é uma das melhores obras da rainha do pop por seu teor ao mesmo tempo melódico e digressivo, suave e áspero, dentro de composições que superam nossas expectativas e reafirmam sua magistral importância.

Nota por faixa:

Aproveite para assistir:



  • Survival – 4,5/5
  • Secret – 5/5
  • I’d Rather Be Your love (feat. Meshell Ndegeocello) – 5/5
  • Don’t Stop – 4/5
  • Inside of Me – 4/5
  • Human Nature – 5/5
  • Forbidden Love – 4,5/5
  • Love Tried to Welcome Me – 5/5
  • Sanctuary – 3/5
  • Bedtime Story – 5/5
  • Take a Bow – 4,5/5
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