Qual o lugar do idoso em uma sociedade que só olha para frente, sendo atropelada pelas modernidades e sua incansável desejo de progresso? Qual o lugar que sobra para o sonho e para o lúdico em uma sociedade que busca incansavelmente se automatizar, desvalorizando as múltiplas vertentes da arte e suas manifestações?

A cidade de Russas, no interior do Ceará, vai completar 200 anos, e, para celebrar, a prefeitura está planejando uma grande festa. Mas não é a única – Pacarrete (Marcelia Cartaxo) também está planejando um presente para a cidade: uma apresentação de balé. Só que as pessoas da cidade não só não se importam com o balé de Pacarrete como também a consideram maluca e desequilibrada, e provocam-na o tempo todo. Mas Pacarrete não sei deixa abalar, e, teimosa, vai correr atrás do seu lugar no palco principal, custe o que custar.

Exibido pela primeira vez ao público no Festival de Gramado de 2019, o longa chega agora aos cinemas brasileiros ganhando uma nova perspectiva: em um ano como o de 2020, em que tivemos que pensar nos nossos idosos e no lugar que reservamos para eles em nossa sociedade, ‘Pacarrete’ retrata na ficção exatamente o descaso que vimos na realidade. Essa reflexão é construída pelo roteiro de André Araújo, Samuel Brasileiro, Natália Maia e Allan Deberton ao intercalar a perseverança do sonho da protagonista recebido com deboche e desprezo pelos seus vizinhos e até mesmo em contraste com a relação afetuosa e paciente de Miguel (João Miguel) com ela. As situações atravessadas pela personagem são genuínas, condizentes com o universo em que está inserida e balanceada por uma dose ácida de humor de seu gênio forte, conduzida por uma linha narrativa melancólica e profunda.



A forma como Allan Deberton rege esse projeto é extremamente sensível, abrindo espaço para toda a evolução de sua protagonista desde a primeira cena; o filme abre com Marcelia Cartaxo num momento bastante solar e, ao longo do filme, vamos vendo como esse sol vai sendo apagado em sua jornada por conta das participações externas da sociedade. Allan Deberton faz da poesia o tom do seu filme, desde o posicionamento da câmera, ao figurino, ao tom amarelado da cidade de Russas e à belíssima trilha sonora, que conduz essa personagem icônica – obcecada pela cultura francesa – em contraste com o ambiente em que está inserida.

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Pacarrete’ é um filme simples e, talvez por isso mesmo, profundo. Sua genialidade reside justamente em jogar luz nessas figuras que existem em todas as cidades – homens e mulheres dados como exóticos, considerados malucos e malucas, mas que possuem toda uma história por trás que ninguém nunca se dá ao trabalho de ouvir. O que o argumento do longa faz é mostrar o passado desses personagens reais e convidar o espectador a ter um olhar diferente sobre eles, afinal, na sua cidade, no seu bairro, na sua rua pode ter uma ‘Pacarrete’. Ou você mesmo pode ser uma ‘Pacarrete’, hoje ou amanhã.



 

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