Filme assistido durante o Festival de Sundance 2020

Existe uma inegável expectativa quando se trata da estreia de um documentário sobre um artista de grande prestígio em festivais de cinema. Aqui, os rumos e o ritmo do cinema arte conceitual são traçados e é natural que haja essa inerente cobrança da qualidade fílmica quando um longa chega a lugares como o Sundance. E Miss Americana entrou no lineup como aquela suposta mistura eficiente entre o POP e o cult, que atrai os olhos do mundo para o festival independente. Pelo menos, era essa a premissa da cineasta Lana Wilson. No entanto, a produção acaba se transformando em uma pseudo propaganda da artista, que ao invés de finalmente ser genuinamente franca diante do público, prefere escolher o que compartilhar e como compartilhar.


Inicialmente, Miss Americana tenta se apresentar como aquele tipo de documentário sem censura que as audiências americanas tanto adoram. Trazendo a artista entre tomadas de shows arquitetônicos e vídeos caseiros de sua infância, o longa se abre com a própria Taylor aparentemente disposta a ser realista quanto aos seus complexos de inferioridade e suas consequências em sua vida pessoal e profissional. Mas optando por ser seletiva naquilo que pretende revelar, a artista devaneia sobre coisas que pouco importam, na expectativa de que aquilo produza o nível de identificação que ela perdera com o público mais distante, após uma sucessão caótica de desencontros, contratempos com artistas e tretas protagonizadas por ela mesma.

Tentando se desmistificar diante da audiência, TS parece fazer uma mea culpa pelo período em que suas atitudes eram o reflexo de uma busca por aprovação alheia, comportamento que lhe rendeu o título de queridinha da América. A fim de explicar a prisão emocional que sua insegurança lhe submetera, ela relata fatos publicamente muito bem conhecidos por sua própria ótica, mas esquece do aspecto mais fundamental que deveria calcar sua percepção: a franqueza de ir além do óbvio e do raso. Procurando contar apenas aquilo que lhe é mais conveniente, ela descarta a possibilidade de ser realista sobre os impactos de suas melhores e piores escolhas, se mantendo sempre evasiva em suas reflexões. E a documentarista Lana Wilson falha em não cruzar tal limite, fazendo com que Miss Americana por fim se torne um especial dedicado aos fãs da artista que dominam pouco (ou nada) a arte de uma narrativa documental eficiente.

Aproveite para assistir:

Indo na contramão de Gaga: Five Foot Two, também produzido pela Netflix, e de Jane Fonda em Cinco Atos, da HBO – ambos lançados em festivais, Miss Americana não consegue ser genuinamente cru e vulnerável, não despe a cantora de maneira honesta e torna a experiência cinematográfica incompleta e pouco envolvente. Ao abreviar sua própria história diante das câmeras, o documentário ainda faz um desserviço às vítimas de distúrbios alimentares, quando Taylor Swift – famosa por verbalizar a plenos pulmões suas opiniões – se esquiva da oportunidade de mergulhar na anorexia que sofreu em virtude dos comentários maldosos que já recebeu. Perdendo a chance de tratar a temática de maneira mais imersiva, ela acaba ignorando a valiosa chance que tem de ajudar sua gigantesca fanbase e o público em geral que terá acesso ao título pela Netflix.

Com um rico material caseiro que ajuda a segurar a falta de substância da narrativa, Miss Americana é uma deslocada promessa não cumprida. Vago em sua argumentação, a produção traz uma direção simples, peca em alguns cortes e na montagem de alguns takes caseiros e nos deixa à deriva, diante de uma Taylor Swift que, embora sustente um sucesso musical astronômico, brilha de forma efêmera e passageira diante das telonas. 

Não deixe de assistir:

SE INSCREVA NO NOSSO CANAL DO YOUTUBE