Crítica | Uma Garota de Muita Sorte: Original da Netflix com Mila Kunis é um soco na boca do estômago

Ani é o retrato de muitas de nós. Com ácidos e irônicos devaneios que nunca ousam cruzar os lábios e chegar aos ouvidos do mundo, ela é como uma boneca de corda – puxe o fio certo, e ela responde aos seus comandos -, uma definição até verbalizada por ela mesma. Essa vida cercada pelas expectativas alheias fez nascer nela um cinismo inevitável. Entre traumas e a pressão pessoal de ser extremamente bem-sucedida em todas as áreas de sua vida, ela caminha sob a sombra de seu passado, de palavras malditas de sua mãe e do julgamento de uma sociedade que ainda não sabia lidar com vítimas de abuso, seja qual fosse sua natureza. A história de Ani em Uma Garota de Muita Sorte é exatamente como a de muitas mulheres. E é por isso que o novo original da Netflix tem reverberado de forma tão poderosa assim.

Na trama, Mila Kunis dá vida a uma jornalista talentosa que se esconde por trás de uma fachada. Seu noivo perfeito, vivido por Finn Wittrock, faz o possível para lidar com seus problemas do passado e até tenta ajudá-la. Mas a verdade é que Ani não pode ser salva por ninguém – nem pai, nem mãe, nem muito menos namorado -, se ela não se permitir curar do passado, algo que só cabe a si mesma. E a oportunidade ideal surge quando um documentarista decide resgatar o pior momento de sua vida, em um documentário que visa explorar o que de fato aconteceu com ela e seus colegas durante um terrível incidente fatal na escola de prestígio onde todos estudavam na adolescência.

Uma Garota de Muita Sorte é uma história sobre quando o presente se torna uma grande extensão do nosso passado. À medida em que vemos a protagonista lutar com todas as suas forças para vencer a si mesma e a seus medos, ela se esquece que não existe um futuro sem um passado curado e cementado. Como um zumbi que diariamente renasce e a persegue em todos os seus passos, ela tenta se desvencilhar de suas próprias memórias, sem se permitir falar sobre elas. E o drama dirigido por Mike Barker, a partir de um roteiro adaptado do livro de Jessica Knoll faz exatamente isso: Expõe as mais profundas feridas de uma mulher machucada, para permitir que ela e a audiência também sejam curadas.

E é por isso que filmes como Uma Garota de Muita Sorte são tão identificáveis. Naturalmente voltado para o público feminino, mas sem se restringir a isso, o filme se inspira vagamente nos primórdios do movimento Time’s Up – que perdeu seu poder em virtude de inconsistências desleais. Como um convite à mais brutal honestidade pessoal, o longa nos motiva a não apenas refletirmos a respeito do impacto que uma sociedade machista pode gerar a longo prazo na vida das mulheres. Mais do que isso, a trama transforma a história de Ani no reflexo de muitos relatos e experiências reais e estende a mão à genuínas sobreviventes (e não aquelas que mentem no Twitter pra ganhar fama e engajamento!), encorajando-nos a se libertarem de suas próprias feridas, permitindo que elas sejam cicatrizadas.

E como um soco na boca do estômago, o drama criminal ainda consegue abordar temas secundários de extrema importância, como bullying escolar, acesso fácil à armas e pressões sociais. Com uma direção simples, que não mostra a identidade criativa de Barker, o filme concentra-se mais na jornada de libertação de Ani, que se permite sair das sombras de seus medos, para finalmente ser honesta consigo mesma e com todos que a cercam. Trazendo Mila Kunis em uma excepcional performance, Uma Garota de Muita Sorte pode até ser formulaico e não inovar no gênero. Mas por ter um material fonte tão rico que fora tão bem adaptado pela própria autora, o drama consegue romper seus pequenos erros com uma poderosa jornada do herói sobre redenção e renascimento, em meio aos destroços de um passado manchado de sangue e arrependimentos.

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