Tradicional subgênero possui exemplares influentes na história da indústria audiovisual

No dia 13 de dezembro, faleceu o famoso escritor britânico John le Carré (pseudônimo de David John Moore Cornwell); este que era um dos nomes mais conhecidos da literatura de espionagem tem em sua antologia um total de 25 obras que datam de 1961 e discutem aspectos importantes do campo da inteligência clandestina desde o período da Guerra Fria até a insurreição de facções jihadistas modernas.

Da mesma forma que seus livros possuem grande influência, as adaptações das obras de le Carré geralmente tem participações de grandes nomes do cinema como Fernando Meirelles, Gary Oldman e Anthony Hopkins. Toda essa contribuição para o subgênero da espionagem, uma vez que ele está ligado ao gênero maior do suspense, apenas reforçou que esse estilo de narrativa possui uma certa “grife”, por assim dizer, que atrai os grandes nomes do cinema.

Na primeira parte do artigo The Development of the Espionage Film, escrito pelo professor Alan R. Booth, é defendida a tese de que o desdobramento dos filmes de espionagem deveriam ser comparados ao desenvolvimento da sua contraparte literária. “Não é surpresa que o desenvolvimento dos filmes de espião no século XX deveriam ser comparados ao dos romances de espionagem. Algumas similaridades são óbvias. Ambos os gêneros se tornaram fenômenos de virada do século, originando-se nas épocas pré-guerra de 1890 (os livros) e eventos da própria Primeira Guerra Mundial (filmes)”.



As adaptações de le Carré, como por exemplo “O Espião Que Sabia Demais”, atraem grandes nomes

Acredita-se que o primeiro filme de espionagem tenha sido O.H.M.S, de 1913, este que trazia uma trama sobre um espião que chantageia a esposa de um oficial do exército britânico em busca de segredos militares, já antecipando os ventos hostis que cairiam sobre a Europa no ano seguinte. No entanto, seria apenas em 1928 que essa linha de filmes receberia seu primeiro grande exemplar.

Em Os Espiões (1928), o diretor alemão Fritz Lang em conjunto com a roteirista Thea von Harbou trazem uma trama envolvendo três personagens principais: o protagonista Agente 326, o mestre criminoso Haghi e a femme fatale Sonya, no qual o primeiro tem como missão desmantelar as operações de Haghi e o antagonista usará da bela Sonya para enganar o herói principal.

Este foi o penúltimo filme mudo que Lang fez e assim como sua obra anterior (Metrópolis de 1927), ela tem muito a dizer sobre o período em que sua produção ocorreu, sendo este a República de Weimar na Alemanha. O diretor aproveita do excesso de figuras de caráter duvidoso em suas mãos para abordar como um frágil governo, e aqui toma-se de exemplo o governo alemão do pós-Guerra, pode sofrer infiltrações dessas figuras nefastas. 

Os Espiões” trouxe uma trama intricada e diferente de tudo que o padrão do gênero tinha até então

Tecnicamente o filme também se diferencia bastante de exemplares feitos anteriormente, principalmente na estética. Feito no auge do movimento expressionista alemão, os cenários tendem a não ter uma variação muito grande mas isso é compensado pelas formas geométricas distorcidas que garantem um certo tom de fantástico ao que está se passando mesmo que a mensagem seja (ou era) atual. O uso inteligente da iluminação e sombras também conferem à obra uma sensação de mistério e perigo, não diferente dos filmes noir.



Os Espiões foi interessante também por conferir uma importante qualidade a esses filmes que é o senso de contextualização; o quão consciente aquela obra está da época em que foi feita e o quão profundamente está disposta a discutir isso. Não à toa, nas décadas seguintes esse senso de pertencimento do subgênero iria aflorar muito mais.  

Nos anos 30, por exemplo, Alfred Hitchcock construiu sua carreira em torno dos suspenses de espionagem envolvendo pessoas comuns, fora da esfera política. Em 39 Degraus (1935) ele apresenta as desventuras de um turista que, ao ter contato com uma espiã, acaba se envolvendo em um jogo de gato e rato. Já Confissões de um Espião Nazista (1939), do russo Anatole Litvak, inverte o jogo e põe o espectador sob a ótica de personagens que são recrutados pelos nazistas para espionar os EUA.

Um dos clássicos de Hitchcock, “39 Degraus” coloca um turista em uma situação perigosa

O auge do gênero estaria reservado aos anos 50 e 60 quando, não por acaso, foi o momento de ouro da espionagem no contexto da Guerra Fria. Esse período viu o surgimento de obras diversas que estavam dispostas a dialogar sobre o que foi essa dualidade internacional e as tramas de espionagem não foram diferentes.

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No livro Tudo sobre Cinema, o editor Philip Kemp aponta que esse período mesclou-se muito bem com o estilo. “O auge do filme de espionagem se deu durante a Guerra Fria, quando o gênero se tornou veículo do conflito geopolítico e ideológico entre o Ocidente livre e democrático e o bloco comunista totalitário. Os primeiros filmes desse período… são produtos toscos da paranoia macartista. Quando o ‘medo vermelho’ se dissipou, os cineastas puderam adotar um olhar mais crítico sobre o jogo da espionagem”.

Nenhum exemplo se destaca mais à memória sobre esse período, ainda que carregado de seus exageros, quanto a franquia 007. Inteligentemente a franquia se desviou de quaisquer polêmicas ideológicas ao trocar os comunistas pelo grupo Spectre no papel de antagonistas, sem perder o norte estilístico de ter um protagonista pertencente a alguma força governamental tendo que sabotar os planos de algum terrorista (não muito diferente do mencionado Os Espiões).

Por décadas os filmes do 007 serviram de cartilha sobre como fazer filmes de espionagem

Para tempos atuais, os espiões continuam de certa forma ativos com novos filmes mesmo que sem a constância de outrora. No mundo pós 11 de setembro e ascensão de grupos fundamentalistas ou exposição de vigilâncias ilegais de governos, os filmes de espiões precisaram se reencontrar e encaixar as novas tecnologias em seus roteiros. Grampos em quartos de hotéis deram espaço para vigilância de satélite (Decisão de Risco, 2015), as paisagens da Europa foram trocadas pelo calor do Oriente Médio (A Hora mais Escura, 2012) e a certeza de que determinado grupo eram de agentes inimigos se tornou mais cinza (O Homem mais Procurado, 2014).

Por fim, é inegável que o subgênero ainda exista e até mesmo continue se reinventado. A trilogia Bourne e o referente à era Craig para os filmes do 007 desconstruíram em muito a noção do inimigo identificável e assim ressaltaram o tom de suspense que está interligado aos espiões. John le Carré entendeu muito bem essa união simbiótica e seus livros são a referência que são, mas o cinema não está muito longe de também compreender essa relação. 



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