O início de 2022 no mundo do entretenimento viu o retorno de uma das séries mais aclamadas pelo público e elogiadas pela imprensa especializada internacional: Euphoria. Criado por Sam Levinson e lançado em 2019, o programa original da HBO serviu para catapultar a carreira da ex-atriz mirim Zendaya, a elevando ao status de uma das jovens estrelas de maior prestígio da Hollywood atual. Claro, Zendaya está na trilogia recente do Homem-Aranha na Marvel, cantou e dançou em O Rei do Show, e arrumou uma pontinha de papel importante (e que virá a aumentar consideravelmente na sequência) em Duna. As atrizes que se consagram realmente, no entanto, são as que conseguem fazer de tudo, e conseguem mesclar produções escapistas-pipoca com obras mais substancialmente pungentes. Euphoria deu este respaldo para Zendaya, demonstrando que a intérprete de 25 anos segura bem uma performance pesando mais ao drama.

Aqui não iremos falar sobre a carreira de Zendaya, no entanto, e sim sobre a trajetória não apenas de Euphoria, mas também de algumas séries da HBO que se encaixam num cercadinho ao lado dela. Devo começar dizendo que as produções das séries originais da HBO dificilmente encontram páreo. O canal que está de pé desde a década de 1990, veio se aperfeiçoando em contar histórias, seja na forma de filmes criados para a TV, séries ou minisséries. Se formos enumerar alguns dos programas televisivos preferidos do grande público de todos os tempos, certamente encontraremos muitos produtos da casa, vide Família Soprano, The Wire, Band of Brothers, Sex and the City e Game of Thrones. Além da excelência com que confecciona programas elogiadíssimos pela crítica, seus seriados possuem grande apelo popular, invariavelmente se tornando o novo fenômeno midiático do momento – como alguns dos citados acima.

Dentro deste parâmetro podemos dizer que Euphoria também se encaixa. A série pode não ter se tornado um rolo compressor do nível de Game of Thrones, por exemplo, mas dentro da proposta de um programa juvenil focado em adolescentes colegiais, foi um dos sopros de originalidade mais marcante dos últimos tempos. A forma inovadora como Levinson e sua equipe apresentam cada um dos personagens e suas características, personalidades e dramas, é algo tão original que definitivamente elevou o jogo para outros programas do gênero. O assunto principal é o abuso das drogas, já que este é o tema da trajetória de Rue (Zendaya), uma menina que perdeu o pai cedo devido a um câncer e desde então se entregou a substâncias ilícitas para aliviar sua dor, se viciando e se transformando num peso para sua família: sua mãe (Nika King) e sua irmã mais nova (Storm Reid). E esse poderia ser mais um drama sobre jovens e drogas rotineiro, mas Euphoria faz valer a máxima de que todo assunto pode se tornar revigorante dependendo da forma inventiva que esta história for contada. E Levinson opta por dar novas tonalidades, seja através do humor ou de cenas completamente inusitadas.


Em uma determinada cena da primeira temporada, quando Rue usa drogas, a “euforia” do título é sentida pelo público através da “onda” da personagem refletida em cena com ela vendo literalmente a casa girar. Para tal, um artifício digno de superprodução foi criado, com uma sala que realmente vai girando enquanto a atriz caminha – algo visto no blockbuster A Origem (2010), de Christopher Nolan. Tais elementos apenas contribuíram para o fascínio do programa. Além disso tínhamos também as cores vibrantes, que representavam as viagens alucinógenas, a paixão destes jovens sendo externalizada, e também as maquiagens usadas pelas personagens principais, que em pouco tempo viraram tendência junto às expectadoras e profissionais da área.

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Rue é a personagem principal, mas a primeira temporada de Euphoria, com seus oito episódios, consegue dar espaço não apenas para a angústia de outros jovens, como também discute temas atuais importantíssimos. Temos a relação extremamente abusiva e doentia entre Nate (Jacob Elordi) e Maddy (Alexa Demie); a forma como o comportamento sexualmente livre de jovens mulheres ainda é visto de maneira muito recriminatória (na história de Cassie – Sydney Sweeney); o despertar sexual do “patinho feio” que se aproveita de seu novo status para faturar (Kat – Barbie Ferreira); a raiva reprimida de Nate pelos atos de seu pai (Cal – Eric Dane). E o mais importante de todos: a inclusão social com muita naturalidade de Jules, uma aluna trans, interpretada pela atriz trans Hunter Schafer – algo inédito dentro da dramaturgia mirada ao público adolescente. As atuações são certeiras, como por exemplo a subversão da persona de atores como Eric Dane e Jacob Elordi, galãs bons moços em outras produções, aceitando o desafio com personagens complexos e por vezes odiosos.

Em resumo, a sensação que Euphoria passou para o espectador foi a de estar antenado em perfeita sintonia com a juventude atual. O programa, em sua primeira temporada, consegue abordar muitos dos tópicos tidos como malditos de forma autêntica e urgente. Sua modernidade é sentida, e tão atual que mesmo três anos depois ainda pode ser visto como um produto que poderia estar falando diretamente com o nosso 2022. Justamente por isso quando a segunda temporada estreou debaixo de grande hype, o que trouxe foi algo no mínimo decepcionante. Sejamos justos, o sucesso da primeira temporada elevou Euphoria a um patamar que talvez fosse impossível manter. Mas o mundo queria mais. A verdade é que Euphoria não pedia mais. O desfecho com a separação de Rue e Jules é perfeita, e caso fosse um filme, terminar em tal nota seria o ideal. Como continuar algo assim? Talvez fosse o caso de criar uma série de antologia, com novas questões de outros personagens sendo o assunto.


O público, no entanto, queria mais de Rue, Jules e a turminha disfuncional da série. E durante a pandemia que se abateu sobre o mundo, as filmagens da segunda temporada tiveram que ser adiadas. Para acalmar os fãs ávidos por novidades, a HBO soltou dois especiais neste intervalo, que servem de ponte entre a primeira e a segunda temporada: um focado em Rue e outro em Jules, após o “desencontro” do último episódio. Confesso que existia em mim o receio de como o canal trataria de continuar aquela história que havia terminada da melhor forma possível – ou seja, sem respostas fáceis e finais felizes inacreditáveis. Havia sido encerrado na nota certa. Continuar seria difícil, mas talvez pudesse ser feito. Este mal já havia se abatido sobre outras séries interessantes da casa no passado em suas segundas temporadas, vide True Detective, Westworld e Big Little Lies. O que Euphoria trouxe ao jogo em sua segunda temporada, infelizmente, foi algo mais mundano e sem o mesmo brilho. A proposta do criador para este segundo ano foi a “desglamourização” do vício – sem as firulas visuais e narrativas que permeavam a primeira temporada e, convenhamos, eram o charme da série.

A segunda temporada é mais suja, feia e cru. Até aí tudo bem, uma mudança estética serve para distinguir cada ano do seriado. O problema está no roteiro, que apenas repete o que já havia sido mostrado antes sem nenhum acréscimo. Agora que as vidas de alguns personagens evoluíram a outro patamar, vide Kat, a personagem é automaticamente tratada como desinteressante, com sua narrativa estagnada – justamente ela que era uma das mais cativantes no primeiro ano. O drama também sofre uma queda para se tornar algo meramente adolescente, algo visto em qualquer outra série do gênero, com conflitos amorosos sendo a principal preocupação de alguns protagonistas – até mesmo triângulos amorosos são incluídos no programa: um entre Nate, Maddy e Cassie, e outro entre Rue, Jules e Elliot (Dominic Fike).

A máxima ainda é verdadeira. No cinema, só vale à pena realizar uma continuação se existir algo mais a falar sobre aquele tema – caso contrário rapidamente o sentimento de caça-níquel se instala, e muitas produções sofrem de tal mal. Na TV o mesmo conceito deve ser aplicado, mesmo com o clamor e a pressão dos fãs e do canal. É impossível tirar a sensação de retrocesso na segunda temporada de Euphoria – que parece se apoiar somente na violência, na nudez e sexo para chocar e se envolver no manto da relevância, sem nunca justifica-lo. As tramas parecem sem desenvolvimento, sem saber para onde ir, por qual caminho seguir com tais personagens. O segundo ano apenas frisa o que havia sido construído no primeiro, sem acrescentar muita novidade. Nem mesmo o reencontro entre Rue e Jules, que poderia render debates e diálogos interessantes – que poderiam ser o coração da segunda temporada -, ocorre de forma apática, como se nada tivesse acontecido, com elas continuando de onde haviam parado.


Como dito, esse mal parece se abater sobre outras séries ótimas da casa. Big Little Lies é baseado num livro da autora Liane Moriarty. E apesar de um desfecho questionável na primeira temporada, repleto de conveniências e saídas fáceis, podemos muito bem entender o apelo de uma história muito feminina, que discute violência doméstica, estupro, maternidade, relacionamentos, tudo feito com muita propriedade e bom gosto. No fim, a mensagem que prevalece é a união de mulheres muito diferentes, não necessariamente amigas, em prol de um bem maior: combater e eliminar a masculinidade tóxica de uma vez por todas. Tudo bem, é passível. Mas à altura que foi anunciada a segunda temporada, a pergunta que pairou foi: precisava? Meryl Streep foi anunciada como reforço no elenco. Ótima adição, anima um pouco as coisas e eleva o jogo. O roteiro foi escrito pela autora, o que é mais um somatório. Porém, ao invés de avançar, a trama retrocede, sendo inteiramente baseada em eventos que ocorreram na primeira temporada – ao invés de caminhar com as próprias pernas. As histórias individuais das personagens se arrastam e andam em círculos, realmente como se tirassem as últimas gotas de tal suco. Se fosse a sequência de um filme, o segundo ano de Big Little Lies seria rapidamente varrido para debaixo do tapete.

Com True Detective temos um diferencial. Esta, de fato, é uma série de antologia, com cada temporada contando sua própria história, com início, meio e fim. Menos mal. O que ocorre é que a primeira temporada, protagonizada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson foi um verdadeiro primor da dramaturgia televisiva, dono de picos de criatividade raramente vistos até mesmo no cinema hoje em dia (o que é a cena com plano sequência no conjunto habitacional?). Desta forma, já poderíamos imaginar que um segundo ano seria difícil de superar o primeiro. Mas a expectativa estava lá. De todos estes seriados “amaldiçoados” por excelentes primeiras temporadas, True Detective é o que entrega um segundo ano mais distinto. A segunda temporada bem que tentou, e foi bem até o seu desfecho. Levantou boas questões, com novos personagens, como o de Taylor Kitsch, mas terminou por sair dos trilhos com um final insatisfatório. Justamente por isso, o programa criado por Nic Pizzolatto ficou engavetado por quatro anos desde o desfecho da segunda temporada em 2015. Com o final da primeira, os EUA e grande parte do mundo pararam suas vidas para assistir. Com a segunda, a sensação foi do resultado não descer completamente redondo. A terceira aconteceria somente em 2019 e passaria em branco, sem qualquer alvoroço – como era de costume antes.

A adorada Westworld sofre do mesmo mal. A primeira temporada, de 2016, é uma das produções mais detalhadamente bem construídas, com um enredo enigmático e escopo literalmente cinematográfico. A fotografia do seriado não deixa a desejar em relação a nenhum blockbuster e merece ser visto na maior tela possível. É simplesmente lindíssimo. Não é à toa que Westworld foi escolhido para substituir Game of Thrones, um dos programas mais adorados da HBO de todos os tempos. E em sua primeira temporada, Westworld não fez feio, mantendo o nível de excelência do colega de canal. Com nomes como Anthony Hopkins no elenco, não dava para esperar menos. Porém, com o final da primeira temporada, muitos dos mistérios do programa foram respondidos – para não dizer todos, ao menos os mais importantes. Assim, muito pouco sobrou para a continuação na segunda temporada. A “solução” foi substituir suspense e questões que prendiam a atenção do público, com um bom roteiro, por ação. A segunda temporada termina se apoiando em efeitos e ação mais do que no conteúdo, uma vez que todos os mistérios que intrigavam o espectador foram solucionados. A falta do que falar ficou evidente quando a terceira temporada exibiu apenas 8 episódios ao invés dos costumeiros 10.


Euphoria, Big Little Lies e Westworld poderiam ter sido desenvolvidos como minissérie e ter mantido sua qualidade com primeiras temporadas irretocáveis (em especial a primeira e a terceira citadas). Imagine se produções do nível de Chernobyl ou Watchmen, ambas igualmente da HBO, rendessem segundas temporadas. Dificilmente manteriam o mesmo nível. As duas foram desenvolvidas como minisséries e se tornaram duas das obras televisivas mais elogiadas, merecidamente, de anos recentes. Realmente não existe nada de errado com o formato seriado, que se alonga por novas temporadas. Mas ele só é aplicável e justificável quando mais precisa ser contado sobre aquela determinada história. Esse é sempre o caso. Em matéria dos três exemplos em especial citados acima, é impossível escapar do sentimento de que o que precisava ser dito ficou no primeiro ano de tais programas.

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