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37ª Mostra de Cinema de São Paulo: A Ternura

UM ROAD MOVIE CHEIO DE TERNURA

Nem só de tragédias vive uma Mostra de Cinema. Se há certo destaque para filmes que exponham o lado cruel da vida (que bom que eles existem), também é possível encontrar obras que falam do lado doce da vida (que bom que eles também existem). A Ternura da francesa Marion Hänsel entra nessa classe. Lise (Marilyne Canto) e Frans (Olivier Gourmet), separados há 15 anos, se veem juntos em uma viagem de carro rumo a outro país para buscar seu filho Jack (Adrien Jolivet), hospitalizado após um acidente de esqui.

O enredo pouco importa. Poderia resumi-lo sem prejudicar o espectador. Ele é uma justificativa para acompanharmos o reencontro desse casal. A força do filme está no registro terno da relação de Lise e Frans. Não se vê nenhuma sequência agressiva. As conversar são temperadas por saudosismos, risos, um certo gosto bom de “você continua o mesmo”. É um casal que já passou da fase de rancor e restou a amizade. Neste road movie bumerangue, não interessa a linha de chegada, nem o porque ele viajam, mas como o casal de comporta nesse reencontro.

O filme não se limita ao casal. Há a relação dos pais com o filho, deste com a namorada, entre outros pequenos acontecimentos que contribuem para expor um lado humano das figuras que surgem na tela. Mas, o essencial está em Lise e Frans, em como as pessoas, mesmo depois de um divórcio, podem manter uma convivência saudável e feliz.

Essa visão positiva, em nenhum momento, significa uma ideia ingênua da vida. Temos uma perspectiva humanista das personagens e esperançosa das relações afetivas.

O filme tem muitas cenas bonitas. Duas se destacam. A abertura que focaliza Jack praticando esqui. A imensidão da neve é de rara beleza, já inserindo o público no clima da película. Na sequência final, Frans se despede de Lise. A câmera corta e vemos ele indo embora, andando em paralelo a uma parede de vidro na qual o rosto de Lise está refletido. Por instante brevíssimo, os rostos de ambos se fundem. Ele entra no carro e vai embora. A câmera corta para Lise, que estampa um sincero sorriso de ternura.

Nota: Nesta quinta, dia 07 de novembro, é o último dia da Repescagem da Mostra de São Paulo.

Smashed – De Volta a Realidade

VÍCIO FRENÉTICO

Talvez você não saiba muito bem quem é Mary Elizabeth Winstead, a bela atriz americana de 28 anos de idade. Pois bem, vamos refrescar a memória. O primeiro papel de destaque da atriz foi como protagonista no terror jovem Premonição 3 (2006), segunda continuação da franquia de sucesso. No ano seguinte, Winstead foi a filha de John McClane (Bruce Willis) em Duro de Matar 4.0 – papel que reprisou no quinto, e detestável, filme da franquia lançado esse ano. Ainda em 2007 trabalhou com ninguém menos do que Quentin Tarantino, em À Prova de Morte. Em 2010 foi Ramona Flowers, no excelente Cult Scott Pilgrim Contra o Mundo. Em 2011 e 2012 vieram bolas fora, em superproduções como O Enigma de Outro Mundo (espécie de refilmagem e pré-sequência do clássico de John Carpenter), e Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros, no qual vivia Mary Todd Lincoln.

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Lembrados agora?  O fato é que apesar de todos esses trabalhos, a atriz ainda não havia entregado uma performance forte, que chamasse a atenção. Bem, até Smashed: De Volta a Realidade. Aqui, Winstead desempenha a melhor atuação de sua jovem carreira, impactante o suficiente para receber prêmios. Exibido no Festival do Rio 2012 (além de Sundance e Toronto), o filme chega agora ao mercado de vídeo no Brasil. Essa é uma obra devastadora, e uma das melhores produções americanas do cinema em 2012. No filme a atriz é Kate, uma jovem professora primária casada. Sua vida à primeira vida parece nos eixos. Mas é só olharmos mais de perto para percebermos as graves falhas. Kate e seu marido Charlie, papel de Aaron Paul (da série Breaking Bad), são jovens boêmios que celebram a vida de forma exagerada noite após noite.

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Até o momento que o fato começa a interferir em suas vidas. Kate, por exemplo, passa mal durante uma aula, e precisa mentir uma gravidez para não arriscar o emprego. Antes da bonança vem a tempestade, e a jovem chega a fundo do poço ao aderir ao crack, e passar uma noite na rua, literalmente na sarjeta. Winstead mostra toda a sua abrangência como atriz, em momentos inquietantes, num verdadeiro tour de force. A ajuda primeiramente precisa vir de nós mesmos, e a inteligente personagem percebe que é hora de recomeçar, mesmo sem o apoio do marido ou amigos. Smashed não é um filme fácil, ou de respostas imediatas. É uma obra muito significativa, que atinge e fala diretamente com toda uma geração. Afinal, quem nunca teve ou conheceu pessoas com tais problemas.

O ótimo elenco coadjuvante conta com Octavia Spencer (vencedora do Oscar por Histórias Cruzadas), Megan Mullally (da série Will & Grace), Nick Offerman (Família do Bagulho), Mary Kay Place (O Reencontro), Kyle Gallner (A Hora do Pesadelo), e a bela Mackenzie Davis (Breath In). O roteiro e a direção pertencem a James Ponsoldt, um nome para acompanharmos de perto, já que esse ano o cineasta entregou o elogiadíssimo The Spectacular Now.

Terror na Ilha

DOCE PESADELO

Exibido em festivais de cinema (como Sundance e Londres), Terror na Ilha é o segundo filme dirigido pela atriz, roteirista e cineasta independente Katie AseltonBlack Rock (Rocha Negra, em seu título original) foi igualmente criado pela diretora, com o roteiro desenvolvido por Mark Duplass, diretor e roteirista de filmes como Cyrus (2010) e Jeff e as Armações do Destino (2012), e ator de filmes como A Irmã da Sua Irmã (2012), Sem Segurança Nenhuma (2012) e A Hora Mais Escura (2012). Duplass é também o marido da diretora Aselton, e com ela forma uma dupla de talento do cinema indie americano.

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A trama criada pelo casal apresenta três amigas de infância, agora na casa dos 30 anos, com a missão de passar um fim de semana numa remota e pequena ilha na costa do Maine. O local tem pedigree, já que é onde se passam quase todas as histórias do escritor Stephen King, morador do estado. O primeiro problema é que Sarah, vivida por Kate Bosworth (a Lois Lane de Superman – O Retorno, 2006), força o encontro de Abby (a diretora Aselton) e Lou (Lake Bell, de Jogo de Amor em Las Vegas, 2008), sem que elas saibam. As duas estavam brigadas há anos devido a uma traição de relacionamento. Sarah tenta reaproximar suas duas melhores amigas de forma brusca, e sentimentos intensos voarão pela ilha ao longo do fim de semana na natureza.

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Como se não bastasse, o trio precisa lidar com o aparecimento de três caçadores no local. Para a sorte das mocinhas, um deles é um velho amigo de juventude. Ou será? A situação dá uma guinada para o pior, e logo as três se veem lutando por sobrevivência, nesse verdadeiro teste de força e coragem. Terror na Ilha não exibe nada que já não tenhamos visto antes dezenas de vezes, em filmes melhores, sendo o principal deles Amargo Pesadelo (1972) –  filme que estereotipou para sempre os caipiras. O que chama a atenção é a qualidade da diretora, que utiliza uma ótima trilha sonora e fotografia (principalmente noturna), e a entrega das protagonistas.

Os diálogos naturais, e situações tensas entre as duas ex-amigas, exalam veracidade. A primeira metade de Terror na Ilha consegue criar um clima autêntico, que por pouco não é estragado pela caricatura apresentada pelo elenco masculino. Acreditamos no trio como amigas, porque provavelmente o são, e deixam transparecer em suas atuações. Em determinado momento, Aselton e Bell chegam a ficar nuas na floresta, para não congelarem com roupas molhadas no frio. Mas tudo possui uma razão de ser. O fato citado apenas exibe o comprometimento das artistas com a obra. Lake Bell também se tornou uma diretora independente esse ano, com o elogiado In a World…, sobre o universo dos dubladores. Se o tipo de filme não for a sua praia, saiba pelo menos que a produção possui uma das melhores mortes (ou piores) e mais inusitadas do ano.

As Loucuras de Charlie

SÃO AS ÁGUAS DE MARÇO…

Conhecido por aqui como o filme em que Charlie Sheen canta “Águas de Março” em português, As Loucuras de Charlie teve seu lançamento direto em vídeo no Brasil. O filme marca o primeiro trabalho na direção de Roman Coppola (que também escreveu o roteiro), filho de Francis, e irmão mais velho de Sofia. A obra apresenta uma alucinada viagem pela mente do personagem título, vivido pelo controverso Charlie Sheen. Devemos nos atrever? Essa era realmente a proposta aqui. Visando lucrar em cima da recente surtada de mais um astro de Hollywood, o filme parece planejado para capitalizar o status do astro, um dos mais promissores de sua geração, parte de uma família de artistas, assim como o próprio diretor Coppola.

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Realidade se mescla com ficção ao conhecermos Charlie Swan III, um sujeito mulherengo, rico, bêbado e drogado. Ele perde o grande amor de sua vida, e arrependido tenta de todas as formas reconquistar a bela Ivana (grande chance para a belíssima Katheryn Winnick – de Almas à Venda). É como se Coppola com o aval e ajuda de Sheen, tentasse dar mais uma chance ao querido ator. Já reformado, ele pede perdão. Esse é um filme pequeno, mas com um bom elenco, e muitos talentos envolvidos. Nos EUA, foi lançado nos cinemas de forma restrita, e logo depois distribuído no sistema de vídeo demanda. As Loucuras de Charlie consiste numa série de situações surreais definidas pela tal “olhada na mente” do protagonista. O sujeito refaz os passos para tentar compreender o que deu errado em seu relacionamento, assim ganhamos vislumbres do passado, ao mesmo tempo em que o personagem de Sheen fantasia quase todas as situações mostradas na produção.

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Coppola é um usual colaborador do cineasta Wes Anderson, e com ele escreveu os roteiros de Viagem a Darjeeling Moonrise Kingdom. O diretor de primeira viagem pega para si alguns traços do amigo Anderson, para criar personagens estranhos e situações bizarras. As Loucuras de Charlie foi produzido pela A24, empresa recém formada que vem financiando bons projetos independentes americanos. Iniciada esse ano, a produtora lançou Spring Breakers – Garotas Perigosas (de Harmony Korine), Bling Ring – A Gangue de Hollywood (de Sofia Coppola), Ginger & Rosa (de Sally Potter), e o elogiado The Spectacular Now (de James Ponsoldt). Ano que vem a A24 já tem agendado os lançamentos de Under the Skin (de Jonathan Glazer, com Scarlett Johansson), The Rover (de David Michod, com Guy Pearce e Robert Pattinson), Enemy (de Denis Villeneuve, com Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent e Sarah Gadon), e Locke (de Steven Knight, com Tom Hardy).

As Loucuras de Charlie é um grande filme entorpecente, onde nada faz muito sentido, mas sentimentos são expostos de forma honesta. É bom ver o ator de volta ao jogo. Aqui, ele tem o apoio de Bill Murray, que interpreta seu contador e amigo, além de Patricia Arquette (sua irmã), Jason Schwartzman (primo do diretor, que interpreta seu melhor amigo), e das jovens talentosas e promissoras Mary Elizabeth Winstead e Aubrey Plaza.

A Batalha do Ano

(Battle of the Year: The Dream Team)

 

Elenco:

Josh Holloway, Laz Alonso, Josh Peck, Caity Lotz, Chris Brown, Ivan ‘Flipz’ Velez, Jon ‘Do Knock’ Cruz, Anis Cheurfa, Jesse ‘Casper’ Brown.

Direção: Benson Lee

Gênero: Musical

Duração: 110 min.

Distribuidora: Sony Pictures

Orçamento: US$ 20 milhões

Estreia: 21 de Março de 2014

Sinopse:

O filme segue a história de uma equipe americana de breakdancing, ou “”B-boy””, formada por jovens com problemas sociais e familiares. Eles são liderados por um treinador rígido, que os leva à França para participarem da competição Battle of the Year, na qual equipes de 18 países lutam pelo título de campeões mundiais.

Curiosidades:

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Trailer:

Cartazes:

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Fotos:

Pequenos Espiões 4

(Spy Kids 4: All the Time in the World)

 

Elenco:

Jessica Alba, Alexa Vega, Daryl Sabara, Joel McHale, Rowan Blanchard, Mason Cook, Jeremy Piven, Danny Trejo, Belle Solorzano, Genny Solorzano, Ricky Gervais.

Direção: Robert Rodriguez

Gênero: Ação/Aventura

Duração: 115 min.

Distribuidora: Imagem Filmes

Estreia: 16 de Março de 2012

Sinopse:

Em ‘Pequenos Espiões 4‘, os irmãos Rebecca e Cecil descobrem que a sua madrasta Marissa (Jessica Alba), é na verdade, uma agente super secreta! Que está em uma missão para derrotar “Time Keeper” (tradução que ficará no roteiro). Diante de uma missão tão incrível como esta, estes dois irmãos contarão com as armas mais fantásticas do mundo! Jatos supersônicos, luvas mega poderosas e até um cão-robô! E você não fica de fora desta aventura! A sua missão aqui é acomode-se na poltrona e embarque nesta fantástica viagem. Com participação especial de Antonio Banderas.

Curiosidades:
» A Imagem Filmes não lançar ‘Pequenos Espiões 4‘ em 4D nos cinemas brasileiros. Nos EUA, a exibição nos cinemas incluiu o cartões de cheiro, para serem raspados em momentos-chave da história. Chamado de “aromascope”, o artifício consiste em papeizinhos com oito odores, como lavanda, com números correspondentes a cenas específicas do filme. A empresa chegou a negociar para trazer a novidade ao Brasil, mas um acordo não foi fechado. O lançamento acontecerá em 2D e 3D.

» Inicialmente intítulado ‘Spy Kids 4: Armageddon‘.

37ª Mostra de Cinema de São Paulo: Miss Violence

O SOCO ESCONDIDO DEBAIXO DA IMAGEM

 

Miss Violence é um filme intrigante e brutal. Uma brutalidade escondida debaixo de uma imagem sofrida. No filme do diretor grego Alexandros Avranas, debaixo da imagem, um soco nos aguarda!

A narrativa começa com o suicídio de Angeliki. Em seu aniversário de 11 anos, ela pula da sacada, após olhar para a plateia com um sorriso! O que afinal teria levado uma menina tão jovem a cometer suicídio de maneira tão convicta e feliz?! Dos 98 minutos de projeção, essas perguntas ficam no ar por cerca de uma hora.

Além da Angeliki, há Eleni, sua mãe. Ela tem mais dois filhos pequenos (que não conheceram os pais) e está grávida. Na casa também vivem sua irmã mais nova, seu pai e sua mãe. Durante a primeira hora do filme, o pai surge como uma figura resignada com o suicídio, que batalha para retirar a família da depressão e impedir que o serviço social descubra a gravidez da filha Eleni, pois diante dos fatos ela poderia perder a guarda do bebê.

A estética adotada transmite a devastação espiritual dessa família. A câmera fixa, com raríssimos movimentos, é posicionada na altura dos olhos de uma pessoa sentada no sofá. Aparentemente, essa câmera seria a tradução visual do impacto do suicídio de Angeliki. Acontece que desde antes do suicídio, esse esquema já está presente.

SPOILERS A SEGUIR!!!

A parte final do filme explica os reais motivos da devastação dessa família e do suicídio. Uma sequência envolvendo Eleni, seu pai e um amigo fornece indícios dos segredos dessa família. Pela cena, o pai cafetinou a filha. Ficamos em dúvida da motivação. Como o pai foi demitido, imaginamos que a transação poderia ter sido movida pelas circunstâncias.

Pouco depois, vemos o pai buscando sua filha mais nova (a irmã de Eleni) na escola. Eles param em uma rua deserta e ela muda para o banco detrás do carro. Na cena seguinte, ela esta sendo violentada sexualmente por um homem; em seguida, por outro homem. Depois, aparece o pai que, ante dela se vestir, transa com ela. Em seguida, o pai recebe o pagamento pelo programa. Detalhe: a filha não tem mais do que uns 13 ou 14 anos! A irmã teria contado para Angeliki o segredo da família, motivando o suicídio. Há detalhes mais escabrosos, mas deixo para quem quiser conferir. Logo, a câmera baixa representa a depressão que esse pai causa na família.

Além da abordagem corajosa, o filme tem o mérito de provocar o espectador. Por boa parte da projeção, o pai é visto como porto seguro da família. Mas, um mal-estar difuso permanece no ar. Quando os segredos são revelados, toda a imagem que temos das personagens é alterada. Como se retirado um véu, enxergamos a verdade.

Próxima exibição: oficialmente, a Mostra de Cinema de São Paulo já encerrou. Contudo, do dia 01/11 ao dia 07/11, ocorreu a Repescagem. Alguns dos filmes com maior destaque são reexibidos em algumas salas selecionadas. Vocês podem conferir a programação da repescagem no site da Mostra de São Paulo. Miss Violence será reexibido no dia 07 de novembro, às 20:00 h na sala BNDES da Cinemateca.

37ª Mostra de Cinema de São Paulo: Peixe e Gato

IRANIANO DISPENSA A SALA DE EDIÇÃO

Mostra de cinema é algo curioso. Ia eu assistir ao 3x3D, conjunto de curtas-metragens que diretores como Peter Greeneway e Jean-Luc Godard discutem. Aí começa a conversa na fila e alguém sugere o filme Peixe e Gato. O filme seria um genial plano-sequência (sem cortes) misturando presente, passado, flashbacks, etc. A figura nem quis dizer muito para não estragar as surpresas. Como ainda tem mais uma exibição do 3x3D (e segundo informações que tive, entrará em cartaz no Cinesesc de São Paulo) e era a última exibição de Peixe e Gato lá fui vê-lo.

Dirigido pelo iraniano Shahram Mokri, o filme é um longo plano sequência de 134 minutos. Realmente não há cortes. A câmera só desliga no final do filme. Nesse tempo, acompanha dois grupos: um de jovens que vão participar de um campeonato de pipas e outro de três senhores donos de um restaurante (pelo que pude compreender, eles serviam carne humana por lá).

Visto apenas na técnica, o filme realmente é um feito! A direção consegue coordenar os diversos atores para que entrem em cena sem tirar a organicidade do movimento da câmera. É até bastante eficiente a passagem de um grupo de atores para outros. Existe mesmo momentos bonitos, como a representação de um déjà vu efetuado com um giro que a câmera dá em seu próprio eixo. Realmente, muito bonito! Contudo, fica a questão, esse maneirismo vai além disso? O plano-sequência torna-se algo essencial para a mensagem do filme?

A quebra das regras artísticas tem duas motivações: o simples desejo de quebrar uma regra ou porque ela é necessária para contar a história e passar certas sensações. Como as vanguardas do século XX cuidaram de quebrar as regras para mostrar que a essência da arte é a liberdade, hoje, a quebra pela quebra perdeu força. Ainda temos casos muito interessantes (como a abertura de Gravidade, em cartaz), mas, o que mais encanta é quando a fuga de um modelo serve para a narrativa, quando percebemos que, sem essa subversão, não acessaríamos centro da narrativa. Será que Peixe e Gato é um caso assim?

Sinceramente, não consegui perceber esse vínculo entre forma e conteúdo. Depois de quase uma hora e meia, é perceptível a função do plano-sequência, dispensar a sala de edição! Isso mesmo. Shahram Mokri monta o filme na tela. Nos primeiro minutos, há uma narrativa linear. Depois de certo momento, o filme torna-se circular, passando mais de uma vez pela mesma cena. Como em um déjà vu primeiro acompanhamos um par de atores, depois, voltamos ao ponto inicial para ver outro par de atores.

É realmente muito curioso. Mas, depois que descobrimos o jogo, o filme de esvazia. Não há uma história interessante, as personagens são vagas demais, não se compreende a ligação entre elas. Enfim, é uma historia vazia em uma embalagem sofisticada. A única função do plano-sequência é esconder um roteiro ruim (se é que foi feito um roteiro formal).

O iraniano deixou duas reflexões interessantes: quais os limites do uso do plano-sequência? No caso do iraniano, não colheu bons resultados. Segundo, depois das vanguardas do início do século passado, a forma pela forma não tem mais o mesmo impacto; a quebra da forma, se bem integrada à narrativa, é deliciosa!

37ª Mostra de Cinema de São Paulo: Os Filhos do Padre

COMÉDIA LEVE CHUTA CACHORRO AGONIZANTE

O interessante de Mostras de Cinema é o contato com filmografias pouco acessíveis, quase exóticas. Não falo de filmes iranianos (vamos combinar, no circuito alternativo, eles são mainstream), mas de coisa exótica, como uma comédia croata. Os Filhos do Padre, de Vinko Bresan, não chega a ser instigante ou mesmo exótica; é curiosa. Seguindo a cartilha da narrativa clássica, o filme conta a história de Fabijan (Kresimir Mikic), jovem padre católico que, assustado com a quantidade de mortes e a falta de nascimentos em sua comunidade, decide furar as camisinhas. Ele se une com os dois vendedores de preservativos da cidade.

O filme tem um ponto de partida interessante, que poderia gerar críticas ácidas. Bom, não conheço detalhes do catolicismo croata – pelo que consta, eles são bem religiosos – mas, considerando a média da população internacional, as piadas, apesar de divertidas, fazem uma crítica que é corrente até entre católicos. Nesse sentido, o filme bate em cachorro agonizante, apontando o quão retrógrado podem ser certos discursos da Igreja – até o Papa Francisco já contemporiza esse discurso.

Nada disso significa que o filme seja um desastre ou chato. Significa que se mantém em uma zona de conforto. Mesmo nela, contudo, consegue produzir situações divertidas, com algumas sacadas realmente muito interessantes. O diálogo entre o padre Fabijan e o Bispo é muito bom, acima da média do restante da história.

No geral, Os Filhos do Padre é uma comédia divertida e relaxante, além de ser sempre algo sempre um bom exercício conhecer filmografias pouco acessíveis.

Próximas exibições:

  • Dia 28/10 – 21:00 – Cinemark Shopping Cidade Jardim 6
  • Dia 30/10 – 22:25 – Espaço Itaú de Cinema – Augusta 1

37ª Mostra de Cinema de São Paulo: Era Uma Vez em Tóquio

A OBRA MÁXIMA DE OZU

Acredito que obras de arte não tem classificação etária. Nada impede alguém de pouca idade conseguir apreciar um Pedro Almodóvar ou alguém mais velho se empolgar com um desenho da Disney. Apesar dessa máxima, certas coisas são mais bem apreciadas com mais idade ou, ao menos, depois de adquirida certa experiência de vida. Era Uma Vez Em Tóquio (1953), de Yasujiro Ozu, é um caso desses.

Exibido na Mostra de São Paulo em regime de minirretrospectiva, o filme segue a simplicidade marcante de Ozu. Um casal de idosos viaja da cidade de Onomichi a Tóquio para visitar os filhos depois de longo período distante. Acontece que os filhos não têm todo tempo do mundo para os pais. Eles tentam dar atenção aos pais ou fazê-los se sentirem bem, mas eles percebem que incomodam.

Não é um filme trágico. Ozu constrói um drama íntimo. Somado à tradição japonesa de profundo respeito e educação, Era Uma Vez… é um drama em voz baixa, que nunca se esquece da beleza da vida. O filme pode ser lido como uma exposição do choque entre tradição e modernidade no Japão do pós-guerra. Mas, sua estética peculiar, de cortes precisos, enquadramentos belíssimos que exploram as possibilidades da arquitetura tradicional japonesa, cenários simples e elegantemente construídos e uma câmera fixa posicionada na altura dos olhos de alguém sentado no tatame, Ozu limpa a imagem nos permitindo a construção de sentidos e sentimentos.

É muito difícil não completarmos a tela com uma narrativa pessoal. Lembrei-me de meus pais, de minha noiva e dos pais dela. Talvez você se lembre dos seus pais, dos seus avós, dos seus netos, de um irmão, de uma nora, de um tio. Memórias e afetos convocados para se infiltrarem na imagem.

Quem não puder vê-lo em tela grande, pode assisti-lo em DVD, em edição lançada este ano pela Versátil.

Próximas exibições:

  • Dia 28/10 – 13:00 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1
  • Dia 31/10 – 20:00 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3

37ª Mostra de Cinema de São Paulo: Escudo de Palha

UM MIIKE PARA QUASE TODOS AS IDADES

 

O japonês Takashi Miike é um diretor controvertido, que até críticos não se acertam se gostam ou não. Bom, eu gosto! Seu último trabalho, comparado com obras como Audição e Ichi, The Killer, pode ser considerado livra, ou ao menos, indicado para maiores de 14 anos (a classificação oficial é 18).

Em Escudo de Palha, a cabeça de um serial killer está a prêmio. Depois de ter sua neta assassinada, um magnata oferece 1 bilhão de ienes para quem matá-lo (a quem interessar: na cotação de hoje, vale R$ 22.440.000,00). Para sua segurança, o assassino se entrega à polícia local. A missão: levá-lo em segurança para a polícia federal, em Tóquio.

Cinco policiais são o escudo contra todo um país! Essa é a sensação do filme. Bandidos, anônimos, policiais, enfim, todo tipo de gente tenta matar o assassino Kiyomaru (Tatsuya Fujiwara). Pode soar muito absurdo para nós o esforço que os cinco policiais – especialmente Mekari (Takao Ohsawa) – em proteger um psicopata que nem se esforça para ser simpático. Até a plateia deseja liquidá-lo. É o sentimento de honra e de dever que guiam esses policiais. O pior sujeito deve ser julgado pela justiça. O dever de cumprir uma ordem é mais que uma questão legal, é a honra que está em jogo. E os japoneses levam muito à séria a honra!

Ter isso em mente é necessário para entender o dilema dos protagonistas. Não se trata de proteger um inocente nem um bandido vítima da sociedade injusta (Miike dá uma aula de como humanizar um assassino sem torná-lo coitadinho). Mas, de cumprir um dever que as personagens carregam dentro de si como o correto e o honrado a ser feito. Tudo isso embrulhado com ação de primeiríssima qualidade. Miike em ótima forma!

37ª Mostra de Cinema de São Paulo: Confissão de Assassinato

UMA PERGUNTA SOBRE O CINEMA SUL-COREANO

 

Alguns dos filmes mais instigantes da atualidade vêm da Ásia. Japão, China, Hong Kong, Cingapura, Coréia do Sul. Ah, os sul-coreanos… Eles estão conseguindo conciliar blockbuster com filmes mais artísticos mantendo uma média de alta qualidade. Confissão de Assassinato, de 2012, primeiro longa ficcional de Jung Byung-Gil me provocou uma questão sobre o cinema sul-coreano.

No filme, Lee Du-seok publica um livro no qual descreve uma séria de assassinatos ocorridos tempos atrás e se assume como autor dos crimes. Choi, detetive responsável pelo caso, assiste tudo impotente, pois os crimes já prescreveram. O filme se estrutura em dois eixos: a relação entre Choi e Lee e os familiares das vítimas, que desejam matá-lo. Falar mais sobre o enredo pode estragar algumas surpresas. Melhor falar do estilo!

O filme tem edição ágil (no começa tem até câmera na mão, algo não muito recorrente no cinema sul-coreano). As sequências de ação são delirantes, a direção busca enquadramentos inusitados. Há um misto de drama e humor negro. O roteiro é rocambolesco, delirante, fazendo a gente se perguntar se realmente é um bom roteiro.

De maneira geral, Confissão de Assassinato é um filme bom que sintetiza muitas características do cinema sul-coreano. Para quem duvida, faça a dobradinha e assista OLDBOY, um dos melhores filmes da primeira década do século. Contudo, o filme de Byung-Gil não tem a mesma potência, por vezes parece genérico. E aqui surge a pergunta: as semelhanças com outras obras indicam que o cinema sul-coreano está consolidando suas características fundamentais (e poderemos futuramente falar em uma escola) ou seriam clichês se formando?

O Conselheiro do Crime (2)

A MULHER QUE NÃO AMAVA OS HOMENS

O Conselheiro do Crime é o novo projeto de um dos maiores diretores do cinema de Hollywood atual, Ridley Scott. O pai de Alien – O Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner (1982) entraria para a história só por esses dois projetos, mas Scott viveu para ter uma das carreiras de maior prestígio do cinema americano. O cineasta se consolidou entre os grandes verdadeiramente, da última década em diante. Durante as décadas de 1980 e 1990 seus filmes não chamavam muita atenção, e foi quando o diretor entregou seus trabalhos menos expressivos como Chuva Negra (1989), Perigo na Noite (1987), e o seu filme menos apreciado, Até o Limite da Honra (1997), com Demi Moore como uma militar.

O Conselheiro do Crime marca seu vigésimo segundo filme da carreira, e décimo segundo somente nos últimos doze anos. Os novos projetos de Scott são assim, chamam a atenção por serem grandiosos, e fazerem uso de um elenco renomado. O diretor é, no entanto, considerado um grande operário, por cumprir bem seu papel em todo e qualquer tipo de gênero (seja filmes de guerra, épicos medievais, ficção científica, dramas e inclusive comédias leves), sem possuir um estilo único estético ou narrativo. Scott mais uma vez realiza um bom trabalho atrás das câmeras em seu novo filme, o maior problema aqui é mesmo, inusitadamente, o texto do sempre ótimo Cormac McCarthy (Onde os Fracos Não Têm Vez e A Estrada).

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O escritor octogenário cria uma história difícil de ser acompanhada, e desinteressante. Na qual a simplicidade das situações é totalmente enevoada por diálogos complexos e rebuscados, que parecem não fazer muito sentido dentro de sua própria lógica. Tudo soa como aquele bêbado metido a intelectual no bar, que sabe citar grandes versos, mas num contexto totalmente equivocado. Ver o resultado final da obra faz pensar que talvez esse tenha sido o motivo de tanto mistério em torno da produção, em relação à sinopse e trailers: Aqui realmente não existe muito. A trama, um tanto quanto simplista, traz o ótimo Michael Fassbender (visto pela última vez justamente ao lado de Scott em Prometheus) como um advogado, cujo personagem não possui nome.

Ele está envolvido numa parceria empresarial com o homem de negócios escuso, Reiner, vivido de forma chamativa (mais em sua caracterização do que na atuação em si) por Javier Bardem (Amor Pleno). Por dívidas financeiras, o advogado decide dar o passo além, e aderir ao tempestuoso mundo do tráfico de drogas, ao lado de seu parceiro de negócios. A primeira metade de O Conselheiro do Crime consiste apenas no personagem sondar as possibilidades de sua nova ventura. E essa é justamente a melhor parte do filme. Todas as hipóteses de se mergulhar num mundo sujo, e suas consequências, são levantadas através de muitos diálogos entre os personagens de Fassbender, Bardem, e também de Brad Pitt (Guerra Mundial Z).

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Pitt interpreta o intermediário de um cartel. Ele é o típico texano, e seu personagem faz uso de um chapéu de cowboy. Da metade em diante, quando tudo começa a dar errado dentro da trama para o protagonista, o filme igualmente sai dos trilhos. O motivo é que não sentimos em momento algum aonde e porque as coisas poderiam ter dado tão errado a ponto de acontecerem de forma tão rápida e trágica para todos. O único motivo para isso é simplesmente para servir a trama, porque tinham que acontecer para termos um filme. Mas sem uma explicação convincente nossa credulidade também se esvai, como o sangue de diversos personagens.

As atuações são muito boas, todos estão no auge de sua arte. O problema é que parecem perdidos em seus diálogos, como, por exemplo, numa cena em que Bardem confessa para Fassbender o que sua namorada, interpretada por Cameron Diaz (Um Golpe Perfeito) fez com seu carro. Ou quando a mesma personagem resolve se confessar para um padre na igreja. Bons atores precisam ser convincentes recitando o mais louco e desconexo dos diálogos, e isso é um pouco do que acontece aqui. São cenas soltas do resto do filme, que não funcionam num geral, apenas independentemente. O filme possui momentos e cenas ótimas, mas que simplesmente não funcionam de forma agrupada.

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Por falar em Cameron Diaz, a atriz desempenha provavelmente seu melhor papel de toda a carreira. Como a sexualmente agressiva Malkina, a loira é mais uma das onças pintadas do personagem de Bardem, e possui inclusive as tatuagens nas costas para provar. De unhas prateadas, dente de ouro, e penteado estiloso, Diaz exala mais sensualidade do que qualquer outra personagem desse ano. Sua performance vem igualada, criando uma mulher fria, sedutora, que possui seus próprios segredos, e que quem sabe daria medo até mesmo em Lisbeth Salander (personagem da trilogia Millenium). Já existe inclusive falatório de prêmios para a atriz de 41 anos (se não for agora, quando?). Ah sim, Penélope Cruz (Os Amantes Passageiros) também está nesse filme, como a “noiva” de Fassbender. O talento da espanhola merecia mais.

37ª Mostra de Cinema de São Paulo: Ilo Ilo

CRISE E COTIDIANO

 

Ilo Ilo é o filme indicado por Cingapura para concorrer a uma vaga ao Oscar de 2014. Depois de uma carreira nos curtas, Anthony Chen estreia com sucesso em seu primeiro longa (que também roteiriza). Durante a crise financeira de 1997, a filipina Teresa (Angeli Bayani) vai trabalhar como doméstica na casa da família Lim. Acompanhamos a busca por adaptação de Teresa e as dificuldades dos Lim, Teck (Chen Tian Wen), o pai, Hwee Leng (Yeo Yann Yann), a mãe, e Jiale (Koh Jia Ler), o filho.

A narrativa costura as relações afetivas e conflitos desses sujeitos. Teck enfrenta o desemprego e busca apaziguar os conflitos familiares. Jiale, com sua peraltice busca atenção e carinho, enquanto recorta os números da loteria, em busca de alguma lógica. Os grandes destaques são Teresa e Hwee Leng – todo elenco é ótimo, mas essas duas atriz impressionam.

Hwee está grávida e quer espera que a filipina seja uma ajuda. Ela busca ganhar dinheiro fácil em meio a crise, tenta colocar o filho na linha e dar força ao marido. Teresa busca se adaptar ao trabalho, a um país estranho, controlar a saudade da família, especialmente do filho, tenta encontrar uma forma de ganhar um pouco mais de dinheiro e tenta domar Jiale, que com suas tolices acaba prejudicando-a.

Isso é um esboço da narrativa. Relevante é apontar os méritos estéticos. Anthony Chen começa acertando ao fugir do maniqueísmo. Ninguém assume o papel de vilão – já basta a crise financeira – nem de vítima. Conseguimos encontrar em cada personagem (especialmente em Hwee e Teresa) algum momento de excesso, outro de fraqueza, erros, acertos. Enfim, o diretor consegue humanizar seus personagens. Também consegue mimetizar o cotidiano. Apesar de existir uma linha narrativa, diversos eventos servem para expor esse fluxo do dia a dia. A opção por boa parte dos enquadramentos próximos dos atores e dos objetos e de uma razão de aspectos mais restrito, passam a sensação de espaço reduzido, como se realmente estivéssemos em um pequeno apartamento de Cingapura. Poucos são os planos mais abertos. Contudo, esse enquadramento mais fechado não passa angustia, antes ajuda a nos inserir naquele cotidiano.

O filme enfoca o problema dos imigrantes de forma muito delicada. Pessoas que nem sempre deixam seu país por gosto, mas por necessidade, para buscar condições melhores de trabalho. Novamente não há paternalismo, apenas uma exposição franca da condição quase sempre difícil, na qual a saudade e a solidão são, muitas vezes, os únicos companheiros. E há a crise financeira, esse fato tão inerente ao nosso tempo. São ciclos que, como outros problemas da vida, se repetem, mas que podem ser devastadores, ou silenciosamente destrutivos.

Próximas exibições:

  • Dia 28/10 – 18:00 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1
  • Dia 30/10 – 17:40 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 4

O Mar ao Amanhecer

(La mer à l’aube)

 

Elenco:

Léo-Paul Salmain, Marc Barbé, Ulrich Matthes, Jean-Marc Roulot, Arielle Dombasle.

Direção: Volker Schlöndorff

Gênero: Drama

Duração: 90 min.

Distribuidora: Esfera/Europa

Orçamento: US$ — milhões

Estreia: 25 de Outubro de 2013

Sinopse:

Através de depoimentos de personalidades como Zico, Assis, Romário e Pedro Bial o filme mostra a grande e charmoda rivalidade existente entre os dois clubes cariocas.

Curiosidades:

» —

 

Trailer:

Cartazes:

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Fotos:

Fla x Flu – 40 Minutos antes do nada

(Fla x Flu – 40 Minutos antes do nada)

 

Elenco:

Zico, Assis, Leandro, Junior, Romário, Pedro Bial, Tony Platão.

Direção: Renato Terra

Gênero: Documentário

Duração: 85 min.

Distribuidora: Elo Company

Orçamento: US$ — milhões

Estreia: 25 de Outubro de 2013

Sinopse:

Através de depoimentos de personalidades como Zico, Assis, Romário e Pedro Bial o filme mostra a grande e charmoda rivalidade existente entre os dois clubes cariocas.

Curiosidades:

» —

 

Trailer:

Cartazes:

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Fotos:

Serra Pelada

OURO DE SANGUE

 Serra Pelada chega com a pompa de ser o projeto nacional do ano. Uma grande produção, que conta com um vasto elenco renomado, e um diretor chamativo, já com uma carreira internacional. O cineasta Heitor Dhalia começou a carreira com longas em 2004, quando entregou Nina. Depois de O Cheiro do Ralo, um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos, comandou os internacionais Vincent Cassel e Camilla Belle em À Deriva (2009). Era o passo final para aderir a Hollywood em 2012. É uma pena somente que projeto tenha sido mal avaliado e passado em branco.

12 Horas é um suspense protagonizado pela atriz em ascensão Amanda Seyfried (Os Miseráveis). Agora, Dhalia volta com moral para comandar provavelmente o maior projeto cinematográfico brasileiro de 2013, com Serra Pelada. Um projeto caro e muito bem elaborado, que tem como proposta retratar a época da caça ao ouro, em território nacional. Foi durante a década de 1980, no Pará, que milhares de garimpeiros conseguiram extrair 30 toneladas de ouro, do maior garimpo a céu aberto do mundo.

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O interessante é que Dhalia e sua equipe usam o fato para impulsionar a trama do filme, que vem sendo definido como um faroeste moderno, de forma correta. Todos os elementos de um bom faroeste estão aqui, principalmente duelos à bala, e disputas de poder e riqueza. No Brasil, é muito difícil emplacar um filme junto ao grande público se esse não pertencer ao gênero da comédia escrachada, vide os recentes sucessos de Até que a Sorte nos SepareDe Pernas Pro ArOs Penetras, e os filmes do humorista Bruno Mazzeo.

No Entanto, nem só fazer um filme no gênero é a receita de sucesso, vide muitas comédias que passam em branco. Fora do gênero tivemos os sucessos de Tropa de Elite, e O Palhaço (moderado). Bebendo na fonte de TropaFederal e Assalto ao Branco Central não emplacaram muito. Gonzaga – De Pai para Filho, do ano passado, precisou buscar força na TV, assim como Xingu. E Paraísos Artificiais, que era impulsionado fortemente junto aos jovens, também não impactou de forma desejada (em partes por estrear junto com Os Vingadores).

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Esse ano tivemos a aprovação dos filmes da banda Legião Urbana, Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo. Voltando para Serra Pelada, a história narra a amizade de Juliano, vivido pelo ótimo Juliano Cazarré (360) e Joaquim, papel (mais ingrato) de Júlio Andrade (Gonzaga). Para um ator é sempre mais interessante interpretar personagens dúbios e cheios de falha, e quem fica com esse presente é Cazarré. Seu Juliano é o Scarface do serrado, um sujeito que chega ao local inocente, e escala até o topo como o rei da mina.

No caminho tirando, de qualquer forma necessária, todos os indesejáveis. Já o personagem de Andrade, se mantém fiel ao seu espírito original e suas convicções. O que, como já perceberam, porá os dois num confronto iminente. Dentre os personagens ao redor da dupla temos Matheus Nachtergaele, como o Poderoso Chefão da Serra, e primeiro e grande desafeto da dupla. Wagner Moura, como sempre camaleônico (aqui de bigodinho, óculos, e uma falsa careca), no papel de Lindo Rico, um sujeito ardiloso do local.

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Moura exagera na dose, em busca de risadas basicamente em seu papel, mas o público parece ter engolido (e muito), ao menos na minha sessão. E por fim, a bela Sophie Charlotte, que entra com o pé direito no mundo do cinema, em seu primeiro filme. A atriz interpreta a prostituta Tereza, mulher do vilão, que se apaixona por Juliano. Seu papel não exige grande profundidade, mas Charlotte extrapola na sensualidade marcando definitivamente seu debute (ao contrário de Isis Valverde em Faroeste).

O grande problema de Serra Pelada, que até mais da metade satisfaz com uma narrativa coesa, bons personagens e um clima bem interessante, é justamente o roteiro que parece perder a força no ato final, se tornando repetitivo e sem ter muito o que dizer. Os melhores personagens saem logo de cena, e seus arcos são facilmente resumidos e apressados. O filme possui uma recriação de época fenomenal. É espantoso ver os muitos figurantes trabalhando na grande cratera que era a montanha.

Dhalia nos leva de volta no tempo, com sua máquina chamada cinema. Serra Pelada é um filme intenso e bem elaborado, que poderia fazer bom uso de um texto mais polido, diálogos mais aguçados, e situações mais bem exploradas. Como está, não desaponta em grande escala (talvez por sua simplicidade), e promete estar pronto pro sucesso.

Kick-Ass 2 (2)

MENINA DE OURO

 No primeiro Kick-Ass, um típico nerd de colegial decidia que era hora de fazer justiça com as próprias mãos, evocando seus ídolos, os super-heróis de quadrinhos. Kick-Ass, o filme, que também é baseado em quadrinhos de heróis, criados por Mark Millar e John Romita Jr., tinha a proposta de satirizar e homenagear o subgênero. O problema é que esses autointitulados “super-heróis” humanos e reais soam muito como sua contraparte de papel. Mesmo sem superpoderes, aqui existem cenas que desafiam as leis da física, e nossa credulidade.

Personagens como Batman e o Justiceiro combatem o crime sem poderes, e o Homem-Aranha é um adolescente despreparado para suas grandes aventuras. Então podemos afirmar que o material de Kick-Ass não é assim tão original. Fora isso, um fator que chamou grande atenção da imprensa no filme original de 2010 foi sua extrema violência. E não apenas isso, mas violência infligida por uma menininha em seus 11 anos de idade. Hit-Girl, a personagem que virou sensação, é uma menina treinada pelo pai para ser a vigilante definitiva. O sangue frio da pequena é tanto que ela não hesita em desmembrar e decapitar criminosos. Tudo com o propósito de uma boa diversão nos cinemas.

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Quando escrevi sobre o filme original dei minha opinião sobre o significado de uma grande violência imposta para os jovens apenas com o propósito de entreter. Já deu para perceber que não fui arrebatado pelo filme de Matthew Vaughn (X-Men: Primeira Classe) como a maioria, por achar que fica na tênue linha onde não é sério e importante o suficiente, e ao mesmo tempo não é caricato, divertido e engraçado como deveria. De qualquer forma, Kick-Ass – Quebrando Tudo foi um os destaques de 2010. Alguns anos depois e ganhamos a inevitável continuação, que chega de maneira tímida nos cinemas brasileiros. Caminho similar que fez nos Estados Unidos, aonde não despertou grandes paixões.

Em muitos aspectos, no entanto, Kick-Ass 2 é superior a seu predecessor. O primeiro deles é a dramaticidade e importância dada às subtramas, e desenvolvimento de personagens. Vemos, por exemplo, as consequências que tem para a sua família, o fato do protagonista (vivido mais uma vez pelo talentoso Aaron Taylor-Johnson – de Selvagens) vestir o uniforme. O relacionamento entre o jovem Dave, a identidade secreta do herói Kick-Ass, e seu pai é abalada de uma forma irremediável. O mesmo pode ser dito da personagem Hit-Girl, mais uma vez vivida por Chlöe Grace Moretz (a nova Carrie).

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Esse realmente é um filme mais dela do que de Kick-Ass. A trama evolui a personagem de Moretz, agora com 16 anos, e com problemas em se ajustar à vida colegial e adolescência. Também temos o universo super heroico em geral expandido, como se o próximo passo fosse dado em relação a termos apenas três personagens mascarados no filme original. Uma espécie de Liga da Justiça “furreca” e violenta é criada, comandada pelo personagem de Jim Carrey (um dos maiores astros da década de 1990 tentando ensaiar um retorno ao palco principal).

O personagem de Carrey é um ex-assassino da máfia, que encontrou Deus e decidiu rachar crânios de criminosos em Seu nome. O ator está irreconhecível no papel, longe de seus exageros de praxe. Aqui Carrey quase não faz rir. O ator inclusive renunciou o filme por sua violência, já que Carrey agora é um forte ativista do desarmamento. Entre os membros dessa formada equipe heroica destacam-se o boa praça Dr. Gravidade (nada a ver com o filme de Cuarón), vivido por Donald Faison (da série Scrubs), e a autointitulada Night Bitch, vivida pela bela ruiva Lindy Booth (Madrugada dos Mortos), que tem um caso com o protagonista.

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Todos possuem suas histórias e seus próprios passados trágicos. A belíssima Lyndsy Fonseca (A Ressaca), namorada do herói no original, possui pouquíssimo espaço em cena (infelizmente) e é jogada para escanteio.  Quem volta sem grande importância é o vilão, agora exagerado, de Christopher Mintz-Plasse, que depois de abandonar o pseudônimo do falso herói Red Mist, resolve se batizar como Motherfucker (nome impróprio por significar um palavrão em inglês, que com certeza fez subir a censura por lá).

O vilão traz consigo uma legião de inimigos a seu comando. Entre eles, a gigantesca Mother Russia (Olga Kurkulina, uma montanha de músculos), a única adversária a altura da feroz Mindy, identidade de Hit-Girl. Entre erros e acertos Kick-Ass 2 talvez não seja tão impactante e original (segundo dizem) quanto o primeiro, mas sem dúvidas merecia mais respeito, e não ser descartado completamente. As portas ficam abertas para um Iron Kick-Ass…

Bates Motel – Temp. 01 – Ep. 10

FINAL DE TEMPORADA DIGNO DA SÉRIE

 

Com certo atraso, falemos sobre o final da primeira temporada de Bates Motel. Ou melhor, vamos falar menos sobre o ep. 10 e mais sobre a série de forma geral e aquilo que está por vir.

Sobre o ep. 10 (contém spoilers, se não viu o ep., siga para o próximo tópico)

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O último ep. cumpriu o seu dever, fechando as pontas soltas e deixou um belo gancho que poderá servir tanto para prosseguir com outras temporada quanto para um final em aberto, sem se tornar um furo. Sem pormenores, resta dizer que minha impressão sobre a coragem de Norma Bates (Vera Farmiga) ser mais fruto da falta de noção e excesso de ego se confirmam. Vamos combinar, existem coragens mais nobres, hehe. Norman (Freddie Highmore) finalmente expõe o lado que conhecemos no filme, maligno, frágil e encantador. Mistério mesmo ficou com o xerife Romero (Nestor Carbonell). Foram muitas ambiguidades. Seu heroísmo final não me convenceu de seu coração puro.

Foi um ep. de narrativa equilibrada e com sequencias bem emocionantes. O entrecho de mais alta tensão foi no encontro entre Jake Abernathy (Jere Burns), Romero e Norma. Uma sequencia que concentrou tensão e reviravoltas muito surpreendentes. Essas reviravoltas se devem, muito, à forma como o ep. foi construído, centrando-se muito nos preparativos de Norma para matar Abernathy e nos movimentos de Remoro para devolver o dinheiro para ele.

Balanço Geral

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Bates Motel atendeu às expectativas. Seu hype foi alto. Muito se falou durante a produção sobre como seria trabalhado a mitologia do filme Psicose. Nesta primeira temporada, a missão dada foi cumprida. Pode-se questionar a opção por trazer o enredo para os dias de hoje, mas não afetou seu desenvolvimento. O universo construído ao redor das personagens originais também foi bem sucedido. A cidade de White Pane Bay preencher as elipses do filme possibilitando a estruturação da série.

A pergunta não deve ser se a série conseguiu passar bem por sua primeira temporada, mas como enfrentará as próximas, mantendo a qualidade?

Toda a série cuja narrativa é romanceada (um ep. continua imediatamente o anterior), de largada, já deve equilibrar seu tamanho com a necessidade de chegar ao fim. Não estamos falando de um Big Bang Theory, cujos eps. podem ser vistos isoladamente. Em séries como Bates Motel, desejamos ver o final e mas que não seja logo. Sempre achei que a melhor saída é que a série já seja planejada para muitas temporadas, mesmo com contrato para apenas uma! Se o sucesso vier, os produtores já tem seu plano de voo.

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Mas, planejamento não é sinônimo de qualidade. E, apesar de ter tido uma impecável primeira temporada, cabe perguntar por quanto tempo a matéria base de Bates Motel tem fôlego?

Não falo das personagens secundárias, mas de Norma e, essencialmente, Norman Bates. A série é sobre como ele se tornará o assassino imortalizado no chuveiro. Esse é o dead line. Não vale gastar eps. e mais eps. com narrativas paralelas. Isto não aconteceu até o momento. Se os produtores conseguirem repetir o feito na segunda temporada, maravilha. Se outras vierem com a mesma qualidade, ótimo. Mas, por favor, não façam disso uma LOST. Adorei esta série, mas foi longa demais.

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Nessas decisões pesa mesmo o faturamento. Raramente um criador termina uma obra no auge – esses sujeitos merecem o nome de artistas. Espero que os produtores já tenham a quantidade limites de temporadas. Especificamente em Bates Motel, há a peculiaridade de não podermos levar indefinidamente a formação de um psicopata. Uma saída seria, depois de formada a personalidade assassina, recriaro enredo do filme, algo que, se bem feito, seria instigante e renderia alguns eps. na temporada final.

Agradeço a companhia de vocês ao longo desta primeira temporada. Até o ano que vem!

O Turista

A fórmula para um filme de sucesso parece simples e perfeita. Você une dois dos maiores astros da atualidade – Angelina Jolie e Johnny Depp – a um diretor que venceu um Oscar em sua estreia – Florian Henckel von Donnersmarck (‘A Vida dos Outros‘) – e refilma um elogiado filme francês – ‘Anthony Zimmer: A Caçada‘.

 

Infelizmente, nem toda fórmula perfeita se transforma em um produto de sucesso. Com as expectativas a mil tendo o benefício do elenco dos sonhos, ‘O Turista’ decepciona a grandes níveis.

Durante uma viagem à Europa, o turista Frank (Depp) desenvolve uma inesperada relação amorosa com Elise (Jolie), uma mulher extraordinária que deliberadamente cruza o seu caminho. Tendo o excitante cenário de Paris e Veneza como pano de fundo, o intenso romance se desenvolve rapidamente na medida em que ambos se envolvem involuntariamente num jogo mortal como gato e rato.

O maior atrativo do filme, seus astros, parecem estar pouco à vontade em seus papéis, e são prejudicados por uma direção aparentemente novata de Von Donnersmarck, que não faz jus a seu último trabalho.

Jolie está belíssima com o figurino dos sonhos, assinado por assinado por Collen Atwood, vencedora do Oscar. A atriz, que teve aulas de comportamento para viver uma européia, dá o seu melhor, mas não é beneficiada em nenhum momento pelo roteiro fraco e confuso, que entrega uma personagem dúbia e rasa.

Enquanto Jolie se esforça, Depp parece estar perdido em uma atuação fraca, não digna do grande ator que ele é. Prejudicados pelo roteiro, o casal de protagonistas acaba demonstrando zero de química.

No elenco de apoio, que merece destaque é Paul Bettany (‘Padre’), que entrega uma ótima atuação.

O maior acerto do filme é sua fotografia, induzida pela bela Veneza. A cidade, unida à beleza de seus astros, torna o longa um espetáculo visual.

No final, ‘O Turista’ é um divertido filme, que entretém o espectador ao longo de sua projeção. Mas unir Jolie e Depp em uma produção mediana é, no mínimo, um crime.