Crítica 2 | A Bela e a Fera

Crítica 2 | A Bela e a Fera

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A Tale As Old As Time

Um pouco de história e contextualização. A Bela e a Fera, animação da Disney de 1991, foi lançada numa época em que o estúdio estava consolidando uma nova fase, após um período não muito criativo nas décadas de 1970 e 1980. No final de tal década, em 1989 precisamente, a Disney emplacou um verdadeiro fenômeno, que atendia pelo nome de A Pequena Sereia, e trazia de volta uma tendência lá do passado, de seu primeiro filme (Branca de Neve, de 1937): de fortes protagonistas femininas que superavam as dificuldades com todas as armas necessárias em busca de seu sonhado destino.

A Bela e a Fera (cuja origem da história remete a um conto francês antigo) chegava na esteira deste sucesso, indo além em sua animação. A tecnologia sempre em evolução permitiu ao longa utilizar técnicas inovadoras, como a sequência de dança no salão entre os protagonistas, confeccionada através da animação tridimensional. Com os novos tempos, as protagonistas de A Pequena Sereia e A Bela e a Fera eram ainda mais independentes e emancipadas, seguindo na contramão do que a sociedade esperava delas e buscando por conta própria seu caminho, desejos, aspirações e sonhos.

Fora isso, A Bela e a Fera quebrava outro paradigma, foi a primeira animação da história a ser indicada ao Oscar na categoria principal de melhor filme, numa época em que apenas cinco produções cinematográficas eram presenteadas com tal honraria em seu respectivo ano. Querem falar de moral? Na década de 1990, A Bela e a Fera serviu para cimentar a nova fase da Disney, cujos sucessos em sequência que seguiram inauguravam uma era apoteótica para o estúdio, muito imitada por sinal. Neste período, a concorrência estava à espreita, vinda de estúdios como a FOX (FernGully, Anastasia e Titan), Warner (A Espada Mágica, O Gigante de Ferro, O Rei e Eu e o Cristal e o Pinguim) e a Dreamworks, recém criado estúdio de Steven Spielberg, que investia pesado em suas animações, como O Príncipe do Egito, Sinbad e Caminho para El Dorado.

     

Agora, nova década, novas regras, e a Disney se reinventa mais uma vez, criando uma nova tendência: a refilmagem de seus clássicos animados em versão live action, ou seja, com atores reais de carne e osso. Podemos dizer que tudo começou em 2014, com Malévola, uma repaginada na história da Bela Adormecida, trazendo a vilã como protagonista. Antes, tivemos 101 Dálmatas (1996) e Alice no País das Maravilhas (2010), mas após o citado filme de 2014 a coisa engatou verdadeiramente. Seguiram Cinderela (2015) e Mogli: O Menino Lobo (2016). Em breve teremos Dumbo (de Tim Burton), Aladdin, Mulan e o Rei Leão – do mesmo Jon Favreau de Mogli. Ou seja, o revisionismo definitivamente chegou para ficar, quer aprovemos ou não.

Tudo isso para chegarmos até a versão moderna de A Bela e a Fera, dirigida por Bill Condon, talentoso cineasta responsável por obras cinematográficas de bastante qualidade, vide Deuses e Monstros (1998), Kinsey: Vamos Falar de Sexo (2004), Dreamgirls: Em Busca de um Sonho (2006) e Sr. Sherlock Holmes (2015). Pode não parecer, mas o tempo influencia e reflete sua época, mesmo em histórias universais e atemporais, como o caso desta. Mesmo que o objetivo do cineasta fosse se manter o mais fiel possível ao desenho, agora clássico, da Disney – aparentemente mais próximo do conto original, com artefatos de teletransporte ausente do filme de 1991 – tal tarefa seria refutada devido ao peso do hoje.

Assim como os contos do passado, mesmo que representassem outra época, eram reflexo do presente e de sua sociedade (igualmente como obras que vislumbram o futuro, como na ficção científica), uma adaptação atual acaba adquirindo traços modernos, mesmo que por osmose. E isso é bem verdade no novo A Bela e a Fera, que utiliza casais interraciais e flerta com a homossexualidade de outros personagens, tudo para servir o presente. Mas antes que os mais radicais e conversadores comecem a atirar pedras, vale dizer que em seu cerne, a trama permanece a mesma, pregando o amor que está dentro até mesmo das criaturas mais bestiais.

A história muito conhecida apresenta um príncipe egocêntrico que tinha tudo, menos humildade. Ao negar abrigo a uma idosa, termina amaldiçoado por uma feiticeira, transformado numa aberração feral, seu castelo num lugar frio, e seus serventes em objetos inanimados, como um candelabro e um relógio, por exemplo. A produção é impecável, Condon cria um filme belíssimo visualmente, dono de uma direção de arte chamativa, uma fotografia que salta da tela e figurinos que desde já garantem presença no próximo Oscar. É como se realmente fôssemos transportados para a animação de 1991, que ganha literalmente vida, saindo de um papel opaco para uma vibrante realidade.

As atuações igualmente são satisfatórias. Emma Watson é uma Bela eficiente, se comportando um pouco como a Hermione crescida (e não é exatamente o que a Bela é?), a atriz dá seu recado apesar de não conseguir atingir totalmente o brilho esperado no papel. Quem menos se destaca é Dan Stevens, se saindo melhor como a criatura do que em sua forma humana. Já o elenco de apoio – que conta com nomes como Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Kevin Kline e Josh Gad – transborda carisma. No entanto, o rouba cenas do longa se chama Luke Evans, na pele do vilão Gaston.

Devo confessar que uma mudança brusca de pensamento tomou conta deste que vos fala ao adentrar a sessão deste filme. Sem muito entusiasmo, proferia minha falta de interesse pela obra desde o lançamento de seu primeiro trailer. Estas refilmagens humanas de animações não fazem minha cabeça. Mas a magia contida durante a projeção é inegável e incontrolável, apelando não só para a nostalgia, mas para a paixão de quem ama verdadeiramente todos os componentes necessários de uma obra cinematográfica. Aos poucos, a incredulidade foi dando lugar ao sentimento, à emoção. As músicas, não podemos esquecer em momento algum que se trata de um musical, mescladas às cenas funcionam em harmonia, prontas para amolecer o mais duro dos corações. Dito e feito. Ao final, nó na garganta e lágrima nos olhos.


Crítica:


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