Crítica | Com Amor, Van Gogh – emocionante animação adulta indicada ao Oscar 2018

Crítica | Com Amor, Van Gogh – emocionante animação adulta indicada ao Oscar 2018

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Uma carta de amor aos artistas

Animações adultas deveriam ter uma categoria própria em premiações de cinema. O que ocorre é o seguinte: embora os avaliadores da honraria sejam adultos, e olhem para filmes mirados aos pequenos e grandinhos da mesma forma, o público talvez não perceba este grande abismo de significado entre as mensagens de longas animados. Ou seja, a garotada talvez não entenda porque seus filmes bonitinhos preferidos, vide O Touro Ferdinando e O Poderoso Chefinho, correm o risco de perder para uma animação “chata” (na mente deles) como este Com Amor, Van Gogh. Obviamente, temos as exceções – filmes bonitinhos com muita relevância – é o caso com Viva: A Vida é uma Festa.

Sem querer jogar água fria na criançada, Com Amor, Van Gogh está realmente em outro patamar, e muito bem poderia ter sido realizado em live action. Seja como for, o visual da animação, toda criada reproduzindo as obras do artista que é assunto do filme, é sem dúvidas um dos chamarizes – alguns inclusive apontam como sendo o único chamariz, definição da qual não poderia discordar mais veementemente.

Com Amor, Van Gogh está indicado ao Oscar na categoria animação, e apresenta a trajetória do pintor holandês Vincent Van Gogh, numa biografia tão inusitada e criativa, que ao lado de Eu, Tonya cria uma dobradinha como dois filmes do subgênero mais fora da caixinha desta edição do Oscar, quiçá dos últimos anos – ou décadas.



Aqui, todos os personagens do filme são criações das pinturas do artista, reproduzindo sua estética em todas as cenas. Como não bastasse se perder numa viagem psicodélica em suas pinturas à base de óleo, com uma produção altamente lisérgica, garantido de te entorpecer sem a necessidade do consumo de nenhuma droga, Com Amor, Van Gogh conta com um roteiro muito esforçado, escrito pelos diretores do longa, Dorota Kobiela e Hugh Welchman (em parceira com Jacek Dehnel).

Na trama, Armand Roulin (Douglas Booth) é o filho de um amigo do pintor, que investiga sua misteriosa morte, interrogando todas as pessoas com quem Van Gogh teve contato desde sua chegada em Paris. E assim, através de flashbacks de uma investigação policial – não por menos o personagem viria a se tornar um agente da lei – se desenrola esta incomum biografia sobre o famoso artista. Outro aspecto bem interessante do longa é que o homenageado surge como personagem coadjuvante de seu próprio filme, sendo apenas o motivador desta narrativa.

Suicídio ou assassinato? Os inúmeros entrevistados durante esta animação quase documental dão suas versões de quem era Van Gogh, seu relacionamento com ele, e o que acreditam ter acontecido – desde uma paixão platônica (Saoirse Ronan, em seu segundo filme do Oscar), a dona de uma hospedagem na qual o artista viveu (Eleanor Tomlinson), um carteiro amigo (Chris O´Dowd) e seu médico e mentor (Jerome Flynn, o Bronn de Game of Thrones). O fato é: depois de cambalear entre altos e baixos em seu emocional, a chamada depressão atual, o que o internou em um sanatório por um período, Van Gogh parecia bem e calmo – isto é, depois de cortar a própria orelha e a entregar como presente para uma prostituta por quem era apaixonado. Num dia fatídico o artista chega gravemente ferido, com um tiro na barriga e moribundo aguarda a morte na cama de sua hospedagem enquanto recebe suas últimas visitas. Uma das teorias apresentadas era sua constante hostilização por moradores da cidade, inclusive crianças, que não o deixavam trabalhar.

Mais do que tudo, Com Amor, Van Gogh é uma carta de amor, uma declaração na forma de filme para todos os artistas famintos, que ainda não prosperaram, mas seguem na luta – muitos dos quais não conseguirão emplacar na carreira dos sonhos, a qual tanto almejam. O filme fala diretamente com qualquer um de nós, que seguimos em nossa batalha diária, e que conseguimos conquistar um pouco a cada dia, do zero, mesmo quando tudo conspira contra.

Van Gogh foi exatamente assim. Pintor autoproclamado aos 28 anos, quando nada mais deu certo profissionalmente, que durante 8 anos (seu tempo de existência profissional – muito pouco se formos pensar para os padrões de hoje, mas que para a época, na qual a expectativa de vida era muito mais baixa, nem tanto) viveu intensamente seu sonho, produzindo mais de 800 peças artísticas – suas variadas pinturas. De todas estas, o artista conseguiu vender apenas uma. Seus dilemas eram os mesmos que os nossos, Van Gogh, hoje considerado uma lenda, assim como a maioria dos artistas do passado, morreu sem ser reconhecido em vida, vindo a se tornar uma figura icônica depois de seu tempo.

Triste, melancólico e extremamente identificável, Com Amor, Van Gogh é uma cinebiografia única, que conseguiu acertar em cheio a alma deste amigo que vos fala, como poucos filmes fizeram no passado. Comparando, dadas as devidas proporções, fala tão profundamente sobre aspirações, expectativas e sonhos não cumpridos quanto o essencial Elena (2013), documentário da brasileira Petra Costa sobre sua irmã, que almejava o sucesso em Hollywood e terminou por tirar a própria vida quando o objetivo se mostrou cada vez mais longe de ser atingido. O mal que assola o mundo moderno, a depressão, assim como todos os aspectos que nos formam como humanos em sociedade, não vem de hoje. Só mudou de nome.