2022 já tem um candidato a filme do ano – e este é a aclamada dramédia sci-fi de ação Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

Dirigido por Daniel Kwan e Daniel Scheinert (conhecidos artisticamente como os “Daniels”), a narrativa parte de uma premissa simples e que já foi vista em diversas outras produções do circuito cinematográfico – o multiverso. A trama é centrada em Evelyn Wang (Michelle Yeoh na melhores performance de sua carreira), uma mulher chinesa que está prestes a ser auditada e perder a lavanderia que possui ao lado do marido, Waymond (Ke Huy Quan). Entretanto, Evelyn descobre as facetas infinitas de um multiverso que está prestes a se chocar – e que a encara como ponto de convergência para impedir que tudo o que conhece se desmantele em um piscar de olhos. E, diferente de obras similares, como o recente ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’, a produção mergulha de cabeça na estética do absurdo e entrega uma jornada repleta de incríveis sequências de luta, atuações fantásticas e diálogos impecáveis que oscilam desde o existencialismo ao niilismo filosófico.


Apesar dos inúmeros temas discorridos pelo filme, um deles tem papel central na construção dos arcos e, por ser apresentado de maneira tão sutil, passa batido pelos olhos do público: a linguagem.


O conceito de linguagem não é engessado e é tópico de análise por diversos linguistas, historiadores e filósofos. O pensador russo Mikhail Bakhtin, por exemplo, discrimina a linguagem como o sistema da língua, cuja substância é “constituída pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através das enunciações”; dessa forma, a construção entre interlocutores é essencial para que a língua e a linguagem existam e, dessa forma, haja dialogismo entre uma pessoa e outra.

E de que forma isso se relaciona a Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo?

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Ainda que Evelyn tenha problemas gigantes nas mãos, um dos obstáculos que ela enfrenta ao longo de sua jornada é o constante conflito entre suas raízes asiáticas e todos os personagens à sua volta – até mesmo em relação a si, que luta para construir uma identidade que é bombardeada pelos papéis sociais que deve exercer. É dessa maneira que os embates entre Evelyn e a filha, Joy (Stephanie Hsu), o pai, Gong Gong (James Hong) e até mesmo a funcionária do IRS, Deirdre (Jamie Lee Curtis) ganham vida, em uma explosão metafísica que explora as barreiras linguísticas de maneira original e reflexiva, nos levando a compreender o que se mostra nas telonas em vez de apenas nos ensinar a partir de um didatismo coercitivo.


A primeira camada a ser analisada é a relação quase beligerante entre Evelyn e Joy. Quando criança, Evelyn foi praticamente deserdada pela família por escolher se casar com Waymond, transferindo os traumas da necessidade de ser a filha perfeita para Joy – que já foge da construção heternormativa e asiática que Evelyn vinha cultivando desde a própria juventude. Mas Joy se recusa a ser uma pessoa diferente de quem é, o que alimenta o choque de gerações e prenuncia os eventos futuros. Nesse quesito, é a linguagem que serve como sustentação para reiterar o conflito: Evelyn se desdobra em várias personalidades para atender a demanda que lhe é exigida, tanto do pai quanto da filha. É por essa razão que as falas da protagonista oscilam entre o mandarim e o inglês, como se buscando um meio-termo para conversar com ambos e recuperar o conceito de família há muito perdido. Joy, por outro lado, parece se distanciar das raízes culturais da mãe e do pai ao rechaçar, ainda que inconscientemente, a aprendizagem do mandarim: se a distância linguística entre ela e a mãe já era notável, o abismo entre ela e o avô é gritante.

A segunda camada, ainda que menos explorada, ergue-se entre Evelyn e Gong Gong. Mesmo tendo construído uma família e se “estabelecido” com um negócio próprio, ela ainda abaixa a cabeça perante o senso de superioridade do pai, como se buscasse uma aprovação que foi perdida há décadas. Nesse mesmo alvoroço desesperado, ela também não consegue se esquivar de pensamentos destrutivos sobre como sua vida poderia ter sido caso não tivesse se casado com Waymond e seguido o sonho de ser uma atriz – vislumbre que observamos em uma das dimensões do multiverso. Todavia, o peso da “desonra”, por assim dizer, é ainda maior quando Evelyn não pode recorrer ao escape linguístico do inglês para expressar o que sente para o pai, retornando, em um movimento obrigatório, ao dialeto cantonês – cujas raízes ainda se impregnam em sua mente e a deixam confinada num beco sem saída.

Ora, até o relacionamento entre Evelyn e Deirdre enfrenta obstáculos similares: a personagem interpretada por Curtis é a representação máxima do neoimperialismo estadunidense e predatório, cuja falta de empatia com a luta diária de Evelyn (neste caso, os imigrantes asiáticos) é reforçado pelo modo como fala. O dialogismo entre as duas é nulo; o que existe é uma retórica unidimensional através do qual Deirdre tangencia a condescendência e usa da falta de conhecimento linguístico de Evelyn para “colocá-la em seu lugar” e fazê-la tremer de medo de perder o último resquício de independência que tem.


O ponto de encontro desses problemas estruturais é Waymond: mesmo rechaçado pelo background mais humilde e pela falta de ambição, o personagem é o responsável por permitir que Evelyn seja quem ela é, servindo como um apoio intangível e tangível que a impede de cometer uma loucura. Afinal, como bem percebemos na aplaudível conclusão do longa-metragem, as variáveis do multiverso são incontroláveis – mas Waymond permanece lá como a única constante, metafísica e linguística.

Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo vai além do que os olhos podem ver – e, por essa razão, consagra-se como um denso e complexo filme que revela suas camadas mais profundas toda vez que o revemos. E, quando paramos para analisá-lo, as pulsões da linguagem funcionam como elo entre as infinitas subtramas, permitindo que criemos uma ponte entre a realidade do filme e a nossa.

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