Cuidado: muitos spoilers à frente.

‘Rick e Morty’ chegou ao fim com mais uma temporada inesperada e recheada de respostas – e uma quantidade imensas de perguntas que devem ser respondidas com os próximos ciclos.

A animação adulta, criada por Justin Roiland e Dan Harmon para o Adult Swim (com transmissão nacional através da HBO Max), sempre construiu season finales de tirar o fôlego e que, de alguma forma, davam as primeiras características do que os fãs poderiam esperar dos episódios consecutivos. Tivemos, por exemplo, o momento em que Rick congelou o tempo para que ele e os netos pudessem arrumar a casa destruída após uma festa inconsequente, ou então o momento em que o brilhante cientista se entregou para as autoridades da Federação Galáctica para salvar a família; agora, Rick enfrentou um dos mais poderosos inimigos, capaz de destruir tudo aquilo pelo que lutou por tanto tempo: si mesmo.

O mais recente ciclo terminou com dois episódios compilados em um especial de uma hora e, seguindo os passos das temáticas exploradas por Roiland e Harmon, analisou a complexidade das relações humanas através dos personagens titulares. Cansados um do outro, em virtude de um relacionamento passivo-agressivo, Rick deixou Morty de lado para se aliar a dois corvos (sim, é isso mesmo) e se tornar uma espécie de justiceiro anti-heroico numa constante batalha pela supremacia. Mais do que isso, os corvos despertam em Rick resquícios de uma empatia perdida há muito tempo, que o levam a determinar que os laços que nutre com o neto, seu notável companheiro de aventuras, são extremamente tóxicos e contraproducentes. Essa, na verdade, é a primeira vez em cinco temporadas em que os dois rompem ligações em prol de um mandatório e pungente amadurecimento.



Mas as coisas não terminam por aí: quando reatam essa ligação, os dois são arrastados para uma trama muito mais ardilosa que envolve o Morty do Mal, personagem introduzido em “Close Rick-counters of the Rick Kind”, em 2014, e que fez importantes aparições ao longo da série – e cujo encontro com Rick C-137 (a versão que acompanhamos ao longo da animação) vinha sido premeditado desde… Bom, sempre.

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A verdade é que Morty do Mal é uma das criações mais inusitadas e complexas de todo o panteão sci-fi em questão e, desde sua aparição, deixou claro quais seriam suas intenções: afinal, ele controlava o Rick que o acompanhava na caçada pelos outros Ricks, tentou incriminar a versão C-137, que posou constantemente como o rebelde e o forasteiro, e, logo depois, tomou controle da Cidadela na antológica “Tales from the Citadel” (03×07), ascendendo à presidência e iniciando uma nova era (que levaria duas temporadas até mostrar suas consequências). Agora, reencontrando-se com os personagens titulares, ele poderia finalmente terminar o que começou e se livrar das engessadas amarras que o prendem ao facínora organismo que reflete a superioridades dos Ricks em relação aos Mortys.

RICK C-137 E A IDENTIDADE PERDIDA



A primeira das revelações destina-se a Rick.

Desde o começo da série, os fãs se questionaram sobre a traumática backstory que transformou o personagem em um inteligente e ambicioso homem, regado a álcool e a drogas, que “abandonou” sua família e retornou, anos depois, como se nada tivesse acontecido. O principal traço de personalidade de Rick é sua total falta de empatia e de desinteresse em matérias mundanas, como o amor e a importância da família, lutando para conseguir o que quer para si mesmo – independente das consequências. Entretanto, em algumas iterações (como “The Rickshank Rickdemption”, capítulo de estreia da 3ª temporada), percebemos que ele perdeu a esposa e a filha, Beth, em um ato terrorista promovido por um Rick do Mal que não aceitava a humildade de seu comodismo cotidiano.

Diferente do que imaginávamos, a memória fabricada não era totalmente irreal: Morty do Mal, tendo acesso às memórias de Rick, revela que o cientista, na verdade, embarcou em uma vendeta pessoal ao redor do universo procurando a versão de si mesmo que destruíra sua vida perfeita, recusando-se a descansar até assassiná-lo.

Em determinado momento, é-lhe oferecido uma trégua por Ricks que não desejam ter o mesmo destino de seus companheiros e, nesse momento, cria-se a Cidadela – uma revelação e tanto para C-137, que constantemente desprezou a mera existência da colônia. Suas reais motivações ficam em segundo plano e oferecem uma ambiguidade que deve ser explorada em um futuro próximo; todavia, compreendemos que Rick aceita o fato de ser dependente de um Morty e, por essa razão, reúne-se com uma versão de Beth, Jerry, Summer e Morty que existe em determinada realidade, entrando em paz consigo mesmo e dando início a um ato de redenção que o acompanha subconscientemente – e explica os laços que cria com a família.

MORTY DO MAL E A CURVA CENTRAL FINITA: O FIM DE UMA ERA

Nenhum elemento de ‘Rick e Morty’ é meramente construído sem uma necessidade metafórica e bastante simbólica. A existência de elementos contrastantes e de uma épica batalha entre o bem e o mal é alicerçada nas obliterantes personalidades de cada personagem, desde a superficialidade paternal de Jerry à supressão dos desejos mais inóspitos de Beth. Rick, nesse contexto, é o elo que une cada uma dessas incursões e, portanto, o ponto de ligação ao Morty do Mal.

Quando Rick e Morty se reúnem com o principal antagonista do season finale, fica claro que Morty do Mal é arauto da destruição do status quo: ao passo que a Cidadela é a representação de um capitalismo sistemático e predatório, que beneficia os Ricks e coloca os Mortys em segundo plano (isso sem mencionar uma espécie de subclasse que serve aos interesses da elite), ele aproveita as brechas dessa falida ideologia para destruir um elemento conhecido como Curva Central Finita.



Essa Curva funciona como um muro que vai de encontro ao discurso das “dimensões infinitas” que Rick sempre defende, servindo como separação de realidades em que Mortys não se submetem a Ricks ou até mesmo em que Ricks não são os homens mais inteligentes do universo – invertendo os papéis e, novamente, desconstruindo a ideia imutável da superioridade e da inferioridade. Canalizando o poder armazenado pela Cidadela, ele cria uma fenda no espaço-tempo e consegue, eventualmente, atravessar essa Curva e chegar “do outro lado”, um lugar em que as possibilidades são mais infinitas do que o pensado.

O momento de passagem parte dos princípios canônicos defendidos pelo célebre Joseph Campbell, em que o herói (nesse caso, anti-herói), atravessa o limiar do conhecido e é apresentando a um cosmos muito diferente daquele que conhece. Abandonando algo que outrora foi-lhe dado como uma constante, ele aniquila a abominável relação destrutiva entre Ricks e Mortys e compreende, em uma libertação catártica, que a única constante é a mudança.

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