Já dizia Oscar Wilde: “a vida imita arte muito mais do que a arte imita a vida”. Quando paramos para olhar a História, com H maiúsculo, dos países latino-americanos, a realidade é muito mais cruel do que qualquer ficção. Focando na maldade hereditária inerente nos descendentes dos colonizadores que se acham superiores aos povos originários, temperado com uma pitada de terror, estreia hoje nos cinemas brasileiros o premiado thriller psicológicoA Chorona’, representante da Guatemala a Oscar 2021.

Em dias atuais, o general Enrique (Julio Diaz) enfrenta um julgamento no qual é acusado de prática de genocídio contra a população maia-ixile, ao norte da Guatemala, em favor da instalação de uma empresa na região petroleira trinta anos antes. Assim, Henrique começa a ser assombrado pelos fantasmas de seu passado, frutos de seus crimes, e, por conta do julgamento sobre o desaparecimento de centenas de indígenas, dezenas de pessoas fazem protesto 24 horas na porta da casa do general. Isso acaba desequilibrando a rotina da família, e, quando uma nova e misteriosa empregada, Alma (María Mercedes Coroy), começa a trabalhar na casa da família, resquícios desse passado assombrado começam a se misturar e afetar a realidade da casa.



O enorme trunfo de ‘A Chorona’ é utilizar a branquitude como elemento aterrorizador. O contraste entre o universo branco, rico e militar da família tradicional protagonista e o desconhecido e, por isso mesmo, “perigoso” mundo dos indígenas maia guatemaltecos é o que dá o tom para a elaboração do clima de tensão crescente desse thriller. Ao colocar as personagens – tanto os empregados da casa quanto as testemunhas do julgamento – falando sua língua nativa maia-ixile o longa aposta certeiramente no desconhecimento do público acerca desta sociedade – reforçando, destarte, a ambientação misteriosa que envolve este núcleo do filme.

O roteiro de Jayro Bustamante e Lisandro Sanchez constrói um caminho bastante explícito, porém sem dizê-lo, sobre como as atitudes racistas do passado recente da América Latina é uma realidade compartilhada por todos os países do eixo sul. Por personificar a fantasmagonia na personagem Alma, e em tudo que ela representa como outridade ameaçadora à elite guatemalteca, ‘A Chorona’ faz um terrível retrato de como essas relações moldaram as configurações sociais dos países latinoamericanos, e não há nada mais assustador do que isso.

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A inserção dos elementos de terror são calcadas justamente no estranhamento de tudo que envolve a cultura maia, daí a beleza da fotografia do filme realçar justamente os detalhes pulsantes desse povo, desde as testemunhas (velhas senhoras enveladas, vestindo seus trajes típicos), às rezas e crenças enunciadas pela personagem dúbia Valeriana (María Telón), e, acima de tudo, pela belíssima atuação de María Mercedes Coroy, cujo olhar profundo diz tudo que é preciso ser dito, ao mesmo tempo hipnotizando e aterrorizando o espectador.



A Chorona’ é um thriller psicológico angustiante e contrariamente belo. Assusta e inquieta por caminhar tão proximamente à realidade e mexer com o imaginário do espectador, que se sente seduzido e receoso pelo mundo apresentado neste filme. Merecia ter chegado à lista final do Oscar 2021.

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