É realmente impressionante que After Life tenha chegado ao seu fim e muita gente não tenha sequer ouvido falar a respeito. Sim, o show inglês tem como alvo um público específico e sempre conseguiu ser renovado, com o produtor, diretor, roteirista e ator protagonista Ricky Gervais dando exatamente o recado queria – ainda que esse último ano tenha reservado, nos bastidores, um escândalo de assédio envolvendo outro produtor da série, que foi imediatamente demitido após as denúncias surgirem.

Entretanto, é raro encontrar comentários a respeito da série, até mesmo nas redes sociais, sobretudo nesse nosso recorte Brasil. O que de certa forma é triste, pois a série sempre abordou temas e momentos que um dia, felizmente e infelizmente, teremos que encarar e vivenciar. Desde conviver com a dor da perda e reconstruir a vida novamente, até ter que lidar com situações constrangedoras e saber conviver com as diferenças.

E, assim como as temporadas anteriores, o personagem de Gervais, Tony Johnson, parece mesmo não aprender a se relacionar ou fazer parte do convívio social, nem mesmo dos seus amigos. Pelo menos é o que ele acha, já que todos ao seu redor parecem sempre depender de alguma conversa ou a ação por parte do sujeito, que carrega sempre consigo um mau humor engraçadíssimo, a ponto de entrar numa discussão com uma criança ou mesmo com um pai brincando com o filho bebê.



O elenco de apoio, dessa vez, parece ter ainda mais cenas isoladas, já que Tony, mesmo insistindo, não tem tido muita paciência para sair e conversar – até o ponto que veja necessidade disso, como sempre acontecesse, por exemplo, quando a redatora Kath (Diane Morgan) está prestes a desabar emocionalmente. E, nossa, que cena devastadora aquela do grupo de risos, não?

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Por outro lado, o Lenny de Tony Way parece ser o único capaz de respeitar e entender o modus operandi da vida de Tony. E não é por aceitar as “piadas” e “brincadeiras” sem noção do coroa ranzinza, mas por compreender que tudo aquilo não passa do reflexo de sua dor. E se surge um momento em que não concorda, fala de pronto, ainda que não leve adiante ou insista em qualquer discussão ou debate, pois de fato aquilo não vai levar a nada.

David Earl continua sendo o maior destaque de After Life, sendo capaz de levar o espectador a querer virar rosto ou tapar os ouvidos quando a série apresenta algumas cenas envolvendo o seu personagem, o acumulador Brian. E o novo arco que traz a sua ex-esposa com seu novo marido cigano provoca tanto incomodo e constrangimento que o ator merecia aparecer nas temporadas de premiações, tal verossímil é afetação daquela figura.



Brian então encontra a sua metade com James (Ethan Lawrence), o menino gordinho que se ver na fase adulta e não é capaz sequer de brigar por sua privacidade, basicamente sendo comprado por qualquer agrado da mãe, como um pedaço de bolo. Ambos precisam se ajudar, cada um a sua maneira, por isso vão morar juntos e tudo, é claro, acaba sendo um desastre. Mas um desastre que no fim das contas precisava acontecer.

No entanto, o personagem que ganha mais destaque no terceiro ano é o chefe e ex-cunhado de Tony, Matt (Tom Basden), que continua com a velha insegurança de sempre, mas lidando como pode e ajudando todos a sua volta. Dividindo a maioria de suas cenas com Gervais, Basden imprime, perfeitamente, a imagem de alguém que carrega dentro de si a vontade de ajudar, e também um eminente desespero sobre o que pode acontecer com o seu amigo Tony a qualquer momento – isso o afeta de tal maneira que ele é quem acaba enfartando.



Aliás, ambos dividem uma das cenas mais sensacionais e engraçadas dessa temporada final, quando vão a um bar e jogam as cinzas do pai de Tony no tapete do lugar. Com o dono ficando enfurecido e dizendo algumas barbaridades inacreditáveis. Obviamente, o revés de Tony foi muito maior que todo chilique do sujeito insensível.

No mais, é preciso reconhecer o trabalho primoroso feito por Ricky Gervais. É louvável sua sensibilidade e coragem ao criar uma produção na Netflix que fala de câncer, Alzheimer, loucura, coração partido e solidão de uma forma tão natural e tragicômica. Não há limites ou “bom senso moral” na abordagem de Gervais para certos assuntos. Por mais incômodos ou tristes que sejam, eles serão executados como devem ser. Por sinal, o final deixa esse sabor agridoce, pois, sim, tudo aquilo é muito bonito, comovente e acolhedor, porém, a constatação de Tony sobre a vida é angustiante e deixa uma sensação de impotência tanto nos personagens quanto no espectador. O que faz total sentido, afinal de contas, After Life é sobre se entender.

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