No ano passado, a dupla Aly & AJ, formada pelas irmãs Alyson e Amanda Michalka, foi uma das principais integrantes de um dos melhores momentos da indústria fonográfica – unindo-se a powerhouses como Lady Gaga, Taylor Swift e Ariana Grande para uma celebração da própria arte musical. Mencionadas na nossa lista de Melhores Canções de 2020, as cantoras e compositoras, que normalmente passam longe do radar mainstream, exaltaram os principais aspectos da década de 1990 com a incrível rendição de “Joan of Arc on the Dancefloor”, aludindo até mesmo às estéticas expressionistas do começo do século passado. Pouco depois de lançarem um ótimo e subestimado EP, as duas retornaram aos holofotes com a estreia do vindouro quarto álbum de estúdio.

Composto por doze faixas, o monstruoso e poético título, A Touch of the Beat Gets You Up on Your Feet Gets You Out and Then Into the Sun’, representa uma forte mudança no estilo apresentado aos fãs desde sua estreia nos anos 2000. Carregando apreço pelo costumeiro e mercadológico pop-rock ou pelo classicismo do nu-house, Aly e AJ resolveram apostar fichas em um nicho que começou a ser explorado ainda nas protuberâncias sessentistas do cenário europeu – o rock eletrônico ou synth-rock. É a partir daí que insurge a arquitetura principal da produção, alastrando-se ao longo de quase cinquenta minutos de forma a não cair na repetição e apresentar uma nostálgica e, ao mesmo tempo, original identidade sonora.

O duo teve uma proeminência considerável com a aclamada “Potential Breakup Song” que, lançada originalmente em 2007, as centrou num caminho semelhantemente trilhado por Avril Lavigne e Selena Gomez, cujas incursões de estreia mergulharam nas infusões do punk e do soft-rock como forma de criar um som que não era muito visto no escopo do entretenimento. Mais tarde, Aly e AJ chegaram a um ponto de amadurecimento que não fazia tanta questão de remodelar imagéticas sóbrias e seguir o que estava “na moda”, mas sim encontrar um jeito de expressar o que se escondia no âmago de seus sentimentos – como é o caso de “Pretty Places”, que abre a mais nova narrativa com concisão e emoção invejáveis, trazendo referências que variam desde Bob Dylan até Shania Twain – seja pela melodia convidativa do violão, seja pelos ecos da guitarra em segundo plano.



Em diversas entrevistas para promover o álbum, as performers comentaram sobre qual linha desejavam seguir – algo um tanto quanto evasivo, considerando que trariam o cenário do rock experimental de volta à tona. Essencialmente, é notável que as escolhas para as faixas não foram aleatórias, e sim calcadas em uma minúcia detalhista e simples que transforma cada track em uma ode a um gênero cujas raízes datam de um tempo considerável: “Lucky to Get Him”, assim como outras iterações, resgatam de modo mimético a estética optada por Edgar Froese e sua banda, Tangerine Dream; “Symptom of Your Touch”, uma das melhores faixas de 2021, pode até ter um panorama mais comercial, é claro, reiterado pelo uso impactante dos sintetizadores – mas é tão bem produzida que nos faz encará-la como uma personificação jovial da explosão de “Dancing on My Own”, incluindo a trama sobre um relacionamento complicado.

Quando pensamos nos múltiplos gêneros que uma obra musical pode conter, normalmente ficamos com um pé atrás, aguardando por uma confusão circinal sem pé, nem cabeça. É claro que inúmeros artistas conseguem criar mágica através do caos, como foi o caso, por exemplo, de Fiona Apple com a majestosa irreverência de ‘Fetch the Bolt Cutters’, ou com o hyperpop premeditado por Charli XCX, Gaga e SOPHIE. Aly e AJ não ficam de fora dessa lista e, apesar de não tentarem desconstruir o engessamento da música em si, mostram que têm domínio sobre as mais diversas inflexões; nesse âmbito, o Hi-NRG setentista de Patrick Hernandez e, mais recentemente, de Jessie Ware, é a força-motriz da elétrica e robótica “Listen!!!” e da sensualidade elegante de “Lost Cause”.

A dupla não tem como objetivo revolucionar a música – muito pelo contrário: tem, isso sim, um desejo de mostrar que estão no auge de suas capacidades mentais para não se deixarem levar por comentários de terceiros e por trabalharem em uma carreira estonteante que merecia mais reconhecimento. Mais do que isso, deixam claro que compreendem que a sutileza é a chave para a grandiosidade, motivo pelo qual assinam todas as faixas e entregam-se em intimidade para as hábeis mãos do produtor Yves Rothman, que deixa a obscura atmosfera de ‘Os Outros’ para trás em prol da celebração da vida. Mesmo as certas repetições vistas em “Stomach” e “Don’t Need Nothing” não são o suficiente para apagar a beleza dos talentosos artistas que unem forças para uma envolvente joia instrumental.



Aly e AJ retornaram da forma mais triunfal e inesperada possível – com o primeiro álbum completo e quase uma década e meia, talvez tendo esperado o tempo certo para decidirem o que bem entendiam fazer. A Touch of the Beat é uma elegia, uma história de romance, um conto de fadas fabulesco em que os maniqueísmos do amor e da decepção se aglutinam em um só, em prol de transformar si mesmo em uma das produções mais sinceras do ano.

Aproveite para assistir:



Nota por faixa:

1. Pretty Places – 5/5
2. Lost Cause – 5/5
3. Break Yourself – 4,5/5
4. Slow Dancing – 3,5/5
5. Paradise – 4,5/5
6. Sympton of the Touch – 5/5
7. Lucky to Get Him – 4/5
8. Listen!!! – 5/5
9. Don’t Need Nothing – 4/5
10. Stomach – 3,5/5
11. Personal Cathedrals – 5/5
12. Hold Out – 4/5

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