Crítica | Euphoria – 2ª Temporada é mais intensa, BRUTAL e vai te deixar chocado!

Surgindo como a primeira série televisiva do conceituado estúdio autoral A24, numa parceria inédita com a HBO, o canal mais respeitado da indústria do audiovisual por suas produções emblemáticas, Euphoria pegou todo mundo de surpresa com a sua fascinante e bucólica temporada de estreia em 2019. Trazendo como protagonista a hoje estrela hollywoodiana Zendaya (a MJ da nova cinessérie do Homem-Aranha), o show expõe, de maneira visceral, diversos temas delicados e recorrentes dentre os jovens americanos e, por que não dizer, de contexto mundial. Assuntos pungentes que vão desde a luta contra a dependência química e o descobrimento e arrebatamento da sexualidade até alguns conflitos internos e os relacionamentos tóxicos e perniciosos; além, claro, da forma de como pessoas transgênero convivem em meio a uma sociedade extremamente hipócrita e incapaz de lidar com o próximo.

Devido a agenda dos atores e também de novos trabalhos do criador da série, Sam Levinson – como o filme da Netflix Malcolm & Marie (2021), estrelado por John David Washington e a própria Zendaya – um leva com novos episódios de Euphoria (que ganhou vários prêmios e alcançou uma audiência inesperada) acabou sendo adiada e deixada em stand-by. A pandemia também teve sua parcela nisso. Ainda que, no final de 2020 e começo de 2021, tenha recebido dois especiais curtos, mas igualmente poderosos; onde em Trouble Don’t Last Always vemos que, em pleno Natal, Rue (Zendaya) conversa, por mais de uma hora, com Ali (Colman Domingo), um ex-usuário de drogas que conta suas experiências surreais e as contextualiza pelo prisma de quem morou nas ruas. Já Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob tem como sua figura principal Jules Vaughn (Hunter Schafer) a fascinantes e apaixonante personagem trans que acabou se tornando uma das protagonistas da série. O especial traz dessa vez a ótica de Jules diante daquela situação com Rue.

Três anos depois, finalmente a aguardada segunda temporada de Euphoria chega ao streaming da HBO Max com um lançamento mundial. Devendo agradar e ao mesmo tempo chocar todos os fãs. Empreendendo um viés ainda mais artístico, Sam Levinson abre o episódio inicial bem ao estilo Quentin Tarantino, com um plano-sequência que traz uma mulher armada descendo do carro e entrando numa boate-prostibulo até dar de cara com um homem asqueroso em pleno ato sexual. Depois de xinga-lo até sua décima geração, a moça dispara nas pernas do sujeito e em seguida volta pro carro na maior calma do mundo, sendo então acompanhada pelo seu pequeno neto – este que é a versão criança de Fezco (Angus Cloud), o amigo traficante de Rue. Levinson mostra ali como Fezco e seu irmão menor (de 11 ou 12 anos), que é mais violento ainda, chegaram até aquela situação de vender drogas naturalmente. Ou seja, logo de cara, já sabemos o que teremos pela frente.

Só que, acreditem, dentre os vários momentos de conflito, essa é a coisa mais leve que você terá neste episódio de retorno, pois, em toda ocasião, a série apresenta dilemas que trazem não apenas a violência física, mas também psicológica; como o andamento em que todos precisam se despir na frente de traficantes psicopatas. Ou simplesmente no embate em que todos se olham sem ao menos saberem o que virá em seguida. São casos desesperadores e constrangedores idealizados, propositalmente, para inserir o espectador no meio daquelas situações extremas, que jovens como eles lidam de maneira cotidiana.

Além do dilema recorrente de Rue, o romance e o rompimento com Jules e todo seu envolvimento com drogas, a trama abre espaço para abordar novamente a história do playboy Nate Jacobs, vivido pelo belo ator Jacob Elordi. Sendo então acertadamente explorada, sobretudo pelo reflexo do que ocorreu com a Jules e o seu pai, Cal Jacobs (Eric Dane) – além dele próprio. Devido ao momento mais brutal e gore que encerra este primeiro capítulo da segunda temporada, os episódios seguintes trazem total sensação de tensão, como se uma bomba relógio estivesse prestes a explodir a qualquer momento. Com Nate, Cal e Fezco representando os fios coloridos do explosivo, e apenas uma ação simboliza o alicate que vai cortar um desses fios e iniciar o desastre.

Essa tensão é semeada para os demais personagens, como o novo romance que surge entre Nate e Cassie (Sydney Sweeney), que segue o modus operandi do relacionamento de Maddy (Alexa Demie) com o próprio Nate. Aliás, essa relação com a Maddy está longe de terminar, pois toda aquela loucura reverbera também na própria Cassie e traz um novo conflito mental, deixando a garota transtornada. Algo que, obviamente, afetará o seu sempre inseguro namorado, Chris (Algee Smith). Ou seja, tudo parece se cruza, fazendo com que essas pessoas sofram em meio a relações que, sim, são sexualmente prazerosas, porém sentimentalmente desastrosas. No entanto, para nós espectadores, tudo acaba ficando cada vez mais complexo, despertando e atiçando assim nossa curiosidade em saber qual será o desfecho dessas figuras.

No que se refere a narrativa e estilo, Sam Levinson, mais uma vez, traz Rue em cenas que quebram a quarta parede, simulando aulas para explicar as situações peculiares que se mete, como o embate entre ela e a irmã caçula. Aliás, nesse mesmo andamento, Levinson também proporciona a Zendaya um número musical absolutamente sensacional, onde a atriz dança e arrebenta em tela, parecendo cada vez mais à vontade com o seu papel. Tal qual a Jules quase que desfila em cena, passando sensações internas através do olhar, sempre em silêncio, com Hunter Schafer mostrando porque é um dos maiores destaques de Euphoria. Sydney Sweeney é outra que não demora muito em demonstrar o tamanho do seu talento; primeiro na cena da banheira e depois quando explode emocionalmente junto a suas amigas. Sweeney empresta sua sensualidade para criar momentos que apenas sua personagem Cassie é capaz de gerar.

Aliás, se existe algo que merece destaque em Euphoria é esse leque de personagens curiosos e fascinantes. É difícil achar alguém que não mereça ter suas histórias explanadas, ou mesmo que o background não desperte a atenção do espectador. Por fim, a segunda temporada de Euphoria vem para provar, novamente, porque a criação da A24 é atualmente uma das produções tematicamente mais ricas e interessantes para ser acompanhada. Rivalizando somente com a também ótima realização da Netflix, Sex Education, no quesito de abordar de maneira primorosa o subgênero coming of age. E mesmo que ambas abordem culturas distintas, já que a obra do streaming rival se passa na Inglaterra, e a da HBO nos EUA, no fim das contas entendemos que o individuo é daquela maneira em qualquer lugar do mundo.

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