Crítica | Legado dos Ossos – Thriller Espanhol da Netflix Envolve Bruxaria e História

Amaia Salazar (Marta Etura) é uma detetive competente, grávida de seu primeiro filho e que, durante uma audiência no tribunal, vê o acusado se matar dentro do banheiro, deixando a ela um bilhete com seu nome e a palavra “Tartallo” escrita. O que a princípio parecia apenas um suicídio esquisito, aos poucos se transforma num complexo caso de um serial killer sádico, que envolve elementos de bruxaria e da História espanhola para justificar suas ações.

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A primeira coisa que é preciso saber sobre ‘Legado nos Ossos’ é que, embora ele tenha estreado este mês no catálogo da Netflix, este filme é, na verdade, o segundo de uma trilogia chamada “Trilogia de Baztán”. O primeiro filme também está disponível na Netflix, e se chama ‘O Guardião Invisível’ (de 2017, cuja crítica você pode ver aqui). Estamos dizendo isso não apenas a título de curiosidade, mas porque, embora seja possível assistir a ‘Legado nos Ossos’ sem ter visto a primeira parte, há muitos trechos que o espectador pode ficar se perguntando “quem é essa pessoa agora? Por que está agindo assim?” ou coisas do tipo, e esses pequenos detalhes, que certamente causarão alguma confusão, foram explicados no primeiro longa.

Baseado nos livros de ficção de Dolores Redondo, o filme joga luz sobre a maldição histórica (e verdadeira) dos agotes – um grupo étnico muito perseguido durante séculos, localizado na região entre o sul da França e o norte da Espanha, onde hoje é o País Basco e ainda há conflitos pela independência da região. Dentre outras coisas, os agotes eram acusados de praticar bruxaria, ocultismo e outras atividades condenadas pela igreja católica.

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Dito isto, o roteiro de Luiso Berdejo entrelaça esses fatos históricos com a vida pessoal de Amaia, deslocando o espectador pela região de Navarra e suas cidades fora do eixo turístico, na região de Baztán e na cidade de Elizondo. Acontece que são muitos os nomes, datas e fatos, o que acaba sobrecarregando a atenção do espectador e, toda vez que voltamos à história particular de Amaia, a sensação é de que a história meio que perde o eixo. Em se tratando de uma adaptação de livro, algumas ações dão a impressão de fazer mais sentido para aqueles que leram o livro (e entendem a motivação do personagem de estar fazendo o que está fazendo). Apesar disso, é um roteiro bem construído, que prende o espectador e constrói uma atmosfera de thriller crescente.

Com muitos personagens, de maneira geral o elenco de ‘Legado nos Ossos’ atua muito bem, com exceção de James (Benn Northover), marido de Amaia, completamente irrelevante na história. Vale destacar ainda que o filme conta com Paco Tous, o queridinho Moscou de ‘La Casa de Papel’, em participação especial como o médico-legista Dr. San Martín.

Legado nos Ossos’ é um ótimo thriller que mostra como a História real é mais assustadora que nossos pesadelos. É um filme que cumpre sua proposta e ainda estimula o espectador a consultar os fatos históricos, mas que recomenda-se assistir ao primeiro longa da trilogia antes de ver este ‘Legado nos Ossos’.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.