Lovecraft Country estreou há quase dois meses na HBO e rapidamente tornou-se uma das produções mais aclamadas e adoradas do ano – chegando até mesmo a quebrar recordes de audiência. Com recepção bastante positiva por parte da crítica, a obra é baseada no romance homônimo de Matt Ruff e oferece uma perspectiva moderna sobre o envolvente e perigoso panteão de H.P. Lovecraft. Entretanto, as construções relativamente idílicas sobre as profundezas do universo e sobre os monstros que se escondem na escuridão não vieram como o esperado, mas sim infundidas com críticas sociais contemporâneas, travestidas com um panorama histórico pungente ao extremo. E, conforme nos aproximamos do season finale, percebemos que certas inflexões narrativas parecem oscilar demais para serem levadas a sério – por mais que as intenções sejam as mais benévolas possíveis.

Em “I Am.”, a showrunner e roteirista Misha Green resolve finalmente resgatar uma personagem que havia dado as caras de forma breve, Hippolyta Freeman (Aunjanue Ellis), viúva de George (Courtney B. Vance), que acabou falecendo depois da batalha em Arkham nos primeiros episódios. Apesar de sua sólida transformação ao longo das semanas, é inegável que os outros personagens ganhavam mais foco por parte do roteiro e da direção, colocando-a em segundo plano – até agora. Determinada a manter o trabalho de seu ex-marido vivo e de continuar a ajudar a comunidade negra a viajar pelos Estados Unidos com segurança e sem cair na garra de supremacistas raciais. Entretanto, ela também tem outro objetivo: descobrir exatamente os segredos acerca da morte de George e das coisas que seu sobrinho, Tic (Jonathan Majors), se recusa a contar. Munida de um antigo e misterioso planetário portátil, Hippolyta embarca em uma viagem transformadora que a apresenta a tudo aquilo que poderia ter sido (e que ainda pode ser caso se permita).


A verdade, por mais que a mais recente iteração venha recheada de incongruências e de escolhas estéticas que fujam da própria proposta da série, Green ainda consegue se respaldar em um fio condutor principal que une a arquitetura antológica a um panorama compartilhável que retrata a identidade – não qualquer identidade, e sim uma que reclame a forçada fragmentação pela qual a cultura afrodescendente passou desde o momento que foram retirados de sua terra natal para servir a preceitos ideológicos racistas e imperialistas. Mas o panfletarismo político, diferente do que poderia se imaginar, é mascarado e pincelado com aglutinações pessoais e cotidianas que refletem a época na qual a série se ergue – um período pós-Jim Crow marcado pela segregação e pela falta de empatia.

Chegou a vez de Hippolyta, assim como Tic, Leti (Jurnee Smollett), Ruby (Wunmi Mosaku) e Montrose (Michael K. Williams), enfrentar quem ela realmente é – e não quem as pessoas querem que seja. Tic encontrou sua verdadeira vocação ao quase servir de sacrifício humano para uma seita milenar, afastando-se até mesmo de suas condenáveis ações bélicas quando na Coreia; Leti, ao abrir uma espécie de refúgio para pessoas de cor em um bairro majoritariamente branco, lidou com ameaças e com fantasmas demoníacos até que conseguisse superar a si mesma e salvar a todos; Ruby enxergou o mundo com outros olhos em uma espécie de metamorfose, observando de que maneira seus direitos eram renegados; e, por trás de uma imagética dura e repreensiva, Montrose se mostrou como um homem que passou a aceitar sua sexualidade após perceber que a vida é muito curta – ainda que tenha um longo caminho a percorrer até estar em paz.

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Como percebemos, “libertação” é a palavra-chave que une essas personas – e que ganha uma nova camada com Hippolyta. Finalmente com espaço de sobra para nos mostrar sua incrível performance, Ellis encarna uma mulher que não aceita mais ficar de cabeça baixa e, pela primeira vez na vida, pode seguir seus sonhos. É com essa vontade intrínseca de mostrar seu valor que ela descobre uma estranha máquina de viagem interdimensional que a manda para um cosmos diferente de tudo que conhece – e que exige dela apenas uma coisa: seu nome. Ela sabe quem é de verdade? Ela sabe o que quer? Ou ela apenas acha que sabe a partir do que os outros esperam? São essas questões que permeiam o arco da personagem, que ascende a um protagonismo necessário que atravessa diversos momentos históricos e que revela os desejos mais sombrios não só dela, mas sim do ser humano.

Hippolyta sabe que as pessoas contam com sua sagacidade e sua tranquilidade – principalmente a filha Diana (Jada Harris), que parece ter perdido a vontade até de criar depois da inexplicável morte do pai. Porém, ter apenas um vislumbre do que ela poderia ter sido (uma guerreira africana, uma dançarina de cabaré ao lado de Josephine Baker e até uma exploradora espacial) já lhe dá forças para reaver uma aliança consigo mesma há muito perdida. E é claro que nada disso seria possível sem uma camp estética visual, que drenou elementos de clássicos contos de Lovecraft, como A Chave de Prata e até mesmo A Cor que Caiu do Céu – apostando as fichas mais no semblante metafísico no que horror em si.


De qualquer modo, não podemos desviar a atenção de inúmeros deslizes que ocorrem nesse episódio, como a tardia exploração de Tic e Leti acerca do Livro de Nomes e das poderosas forças que ameaçam destruir tudo o que conhecem – isso sem mencionar mais um enfrentamento dramático entre Tic e Montrose, que vai de lugar nenhum a nenhum lugar em uma brevíssima e esquecível sequência. A verdade é que depois do impactante filler da semana passada e da aplaudível jornada de Ruby ainda mais atrás, a própria série se esqueceu de sua trama principal. E, visto que Lovecraft Country já começa a dar sinais prematuros de um triste cansaço criativo, não podemos culpar quem não sente grandes expectativas para os episódios que virão – por mais esperançosos que permanecemos para que isso não aconteça.

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