007 – Sem Tempo para Morrer, o vigésimo quinto filme oficial da franquia mais duradora do cinema, tem estreia programada para o dia 7 de outubro de 2021 – após ser adiado do ano passado devido à pandemia. Como forma de irmos aquecendo os motores para esta nova superprodução que, como dito, faz parte de uma das maiores, mais tradicionais e queridas franquias cinematográficas da história da sétima arte, resolvemos criar uma nova série de matérias dissecando um pouco todos os filmes anteriores, trazendo a você inúmeras curiosidades e muita informação.

Após sete filmes na cronologia oficial da série 007 no cinema, os anos 70 deixavam para trás a era Sean Connery definitivamente. O ator, que havia saído no quinto filme, aberto espaço para um substituto que não vingou (George Lazenby) e retornado no sétimo longa, se despedia (agora de verdade) dos filmes que haviam lhe transformado num fenômeno de renome internacional. Sem seu astro, a EON (produtora da franquia) precisava se reestruturar. A aposta foi um contrato com um antigo “flerte” da casa num filme que apostava na onda da época: o blaxploitation. Confira abaixo detalhes sobre a produção de Viva e Deixe Morrer, o oitavo filme oficial da franquia.

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Produção



Além de lidar com a saída definitiva de Sean Connery da franquia, a série de sucesso da EON no cinema passava por outras dificuldades ao adentrar os anos 1970. Talvez a maior tenha sido a briga entre as mentes por trás da produtora: os executivos e “donos” de 007, Harry Saltzman e Albert R. Broccoli. Mal se falando, um acordo foi feito entre os dois. Embora o nome de ambos continuasse constando nos créditos da produção, somente um deles tocaria o barco a cada novo filme. Broccoli havia cuidado de Os Diamantes São Eternos (1971), o episódio anterior; assim o novo filme seria orquestrado por Saltzman.

Adentrávamos a década de 70 e em meio a inúmeros movimentos surgidos, um que se destacava bastante era o chamado blaxploitation. As produções de representatividade negra já faziam barulho, com um dos carros-chefes do movimento, Shaft (1971), se tornando ícone da cultura pop na época. Produções feitas por e para uma audiência específica começavam a ampliar seu leque nacional e mundial, apelando também ao grande público. Assim, surfando nesta tendência, a escolha para o oitavo longa oficial da franquia foi por um livro de James Bond (escrito pelo criador Ian Fleming) passado em tal universo: Viva e Deixe Morrer. Para a direção era trazido de volta Guy Hamilton, que havia comandado o anterior, Os Diamantes São Eternos, e também Goldfinger (1964).

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James Bond

Roger Moore foi um 007 espalhafatoso e sua estreia já mostrava isso.

A produção do oitavo 007 foi uma das mais problemáticas da franquia. Além da ruptura entre os produtores e cabeças por trás da série cinematográfica de sucesso, o projeto precisava ainda escolher seu novo protagonista. A ideia de eleger um desconhecido para construir como o novo astro da franquia não havia dado certo com George Lazenby. E sem poder “resgatar” Connery novamente para mais um round, a EON se via num beco sem saída. Por pouco, como já havia flertado no passado, James Bond não se tornava americano, com astros como Burt Reynolds e Clint Eastwood visados para o papel.

No fim das contas, o personagem cairia nas mãos de Roger Moore, ator britânico que havia sido considerado como o protagonista por duas vezes no passado. Moore era então mais conhecido pela série de sucesso O Santo (1962-1969). No entanto, escalação do ator vinha seguida de alguns “poréns” por parte dos produtores. O primeiro é que à altura de sua primeira encarnação como Bond, Moore já tinha 45 anos – sendo mais velho que Connery (criticado por viver um Bond “quarentão” em Os Diamantes São Eternos). E depois por ser considerado “fora de forma” pelos produtores – esta havia como remediar, e Moore foi mandado para a academia se exercitar.

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Missão Secreta

Turminha da pesada. O 8º filme de James Bond pegava inspiração no movimento blaxploitation.

Como dito, era a época da febre do cinema representativo negro norte-americano, e até mesmo uma das maiores franquias do cinema na época pegava carona nesta onda. Tudo bem que 007 não era mais o que havia sido na década de 1960, mas era importante seguir se remodelando ao adentrar os novos tempos. Assim, a franquia trouxe muito frescor ao seu universo ao centrar a trama em torno da cultura africana. Uma das coisas mais legais de Viva e Deixe Morrer é incluir em grande parte de seu elenco atores negros. Aqui, a missão de Bond é investigar os assassinatos de três espiões de sua agência, o que o leva a bater de frente com um rei das drogas do Harlem, em Nova York, o traficante conhecido como Mr. Big. O criminoso parece ter ligação com o ditador de uma pequena ilha fictícia na Jamaica chamada San Monique, o Dr. Kananga.

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Bondgirls e Aliados

A bela Jane Seymour é a cartomante e vidente Solitaire, impedida de perder sua “pureza”.

Aqui temos ainda outra polêmica na época, esta, no entanto, um pouco menor. Como dito, ao escolher adaptar o livro Viva e Deixe Morrer, automaticamente um elenco majoritariamente negro seria contratado. Incluindo a Bondgirl principal do filme, a cartomante Solitaire, criada na ilha pelo Dr. Kananga e principal interesse amoroso de Bond na história; que no livro é negra. Com medo da polêmica ao apresentar um romance interracial para o espião na época, a produção e o estúdio (a MGM / United Artists) entraram num impasse – e terminaram voltando atrás e transformando Solitaire numa mulher branca. A bela Jane Seymour (que mais tarde ficaria conhecida pelo romance Em Algum Lugar do Passado, 1980, e pelo seriado Doutora Quinn, 1993-1998) foi escalada.



Encontrando um meio termo, as partes concordaram então em transformar a segunda Bondgirl da trama, Rosie, que no livro era branca, em uma mulher negra. A escolhida para o papel foi a coelhinha da Playboy Gloria Hendry. E sim, ela se envolveu com James Bond, assim ainda tivemos uma relação interracial com 007, embora não fosse o romance principal. De fato, demoraria até 2002, com Halle Berry no papel de Jinx em Um Novo Dia para Morrer, para termos finalmente a Bondgirl principal da história sendo uma mulher negra.

Quanto aos aliados, temos as voltas de Bernard Lee como o chefe M, e Lois Maxwell na pele de Moneypenny. Porém, nada de Q ou Desmond Llewelyn na primeira investida de Roger Moore como Bond.

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Vilões

O saudoso Yaphet Kotto (Alien) é o memorável Dr. Kananga, repleto de capangas peculiares.

A era Roger Moore iniciaria uma galeria de vilões particularmente peculiares não devendo nem para a era Connery (com contava com seu próprio repertório diverso) ou para os super-heróis de histórias em quadrinhos, como o Batman. Quem abre a fase de Moore como vilão é o ator Yaphet Kotto, que havia justamente saído de um sucesso blaxplotation policial do mesmo estúdio, A Máfia Nunca Perdoa (1972), e claro ficaria conhecido por Alien – O Oitavo Passageiro (1979). Se divertindo como nenhum outro vilão da franquia, Kotto pega o papel duplo do Dr. Kananga e do traficante Mr. Big. Apesar disso, o ator e o personagem sofreriam a que é considerada a pior morte de um vilão na franquia, numa cena risível e digna dos filmes mais trash imagináveis – como o vilão inflando como um balão, jorrando da água como um míssil e explodindo em pleno ar. O boneco usado é simplesmente mal feito e ruim demais, sem que consigamos acreditar que a cena de fato entrou no corte final do longa.

Ainda em clima de quadrinhos, os capangas aqui são um atrativo à parte. Julius Harris vive Tee Hee, um sujeito com a mão de gancho mecânico, capaz de dobrar o cano de um revólver; e Geoffrey Holder está especialmente macabro com suas pinturas e risada na pele do mestre vodu Barão Samedi. Outro que chama atenção sem nada ter a ver com a trama principal é o xerife caipira Pepper (Clifton James), personagem criado e incluído após a produção ter tido problemas com a força policial de Nova Orleans no Sul dos EUA, devido ao preconceito contra atores e a equipe negra. O personagem fez tanto sucesso que voltaria a aparecer na sequência.


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O Barão Samedi é sem dúvidas um grande atrativo de ‘Viva e Deixe Morrer’.

Relatório

Um dos aspectos mais interessantes de Viva e Deixe Morrer, para além da estreia de Roger Moore no papel de James Bond, é a escolha da temática negra para o filme, mostrando que a franquia estava antenada e poderia ser multicultural. 007 já havia homenageado a cultura e o cinema japonês em Só Se Vive Duas Vezes e agora fazia o mesmo para a cultura africana. Os fãs da temática e do vodu de Nova Orleans, as crenças, a religião e tudo ligado a este universo, verão um filme único dentro da série.

Para a trilha sonora, pela primeira vez na franquia o maestro John Barry esteve ausente das composições, deixando o cargo para ninguém menos que George Martin, produtor musical considerado o quinto Beatle. Justamente por isso, a canção tema Live and Let Die ficou com um velho conhecido do produtor e compositor, Paul McCartney, que eternizou a música ao ponto de transcender ao filme – algo que só veríamos com alguns episódios mais recentes (como Skyfall, de Adele).

As cenas de ação funcionam como chamariz aqui. Se Moore não estreou com o melhor dos roteiros, no visual a estreia do ator não deixou a desejar. Com perseguições de barco e até mesmo uma corrida do espião por cima de crocodilos no pântano – cena realmente realizada por um dublê (que viria a se tornar uma das mais lembradas pelos fãs, e homenageada em Skyfall). Por essas e por outras que a era de Moore ficaria conhecida pela galhofa e pelo clima cada vez mais brincalhão. Mas lembrando que essa tendência havia iniciado no filme anterior, Os Diamantes São Eternos. Assim, Moore se mostrava eficiente no papel, o filme se tornava sucesso de bilheteria, arrecadando mais que o episódio anterior, e por mais que Viva e Deixe Morrer não tenha sido uma renovação unânime, consegue conquistar por suas características únicas somando ao repertório rico do agente no cinema.

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