007 – Sem Tempo para Morrer, o vigésimo quinto filme oficial da franquia mais duradora do cinema, tem estreia programada para o dia 7 de outubro de 2021 – após ser adiado do ano passado devido à pandemia. Como forma de irmos aquecendo os motores para esta nova superprodução que, como dito, faz parte de uma das maiores, mais tradicionais e queridas franquias cinematográficas da história da sétima arte, resolvemos criar uma nova série de matérias dissecando um pouco todos os filmes anteriores, trazendo a você inúmeras curiosidades e muita informação.

Depois de se desligar da franquia após o fim de seu contrato, numa manobra inusitada Sean Connery retornava aos filmes de 007 no papel protagonista. Tudo parecia no lugar para o sétimo filme na série cinematográfica que era o maior sucesso de público nos anos 1960. Os Diamantes São Eternos leva o maior espião da sétima arte para Las Vegas para o duelo final contra seu arqui-inimigo Blofeld. Confira abaixo os detalhes da produção deste que seria a última participação oficial do lendário Sean Connery na franquia 007James Bond.

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Produção



O mundo dá muitas voltas. E com o mundo do cinema e entretenimento é igual. Após o descontentamento no quarto e quinto filmes da franquia, Sean Connery só esperava seu contrato terminar para poder pular fora e alçar novos voos. Dito e feito. Nada poderia arrastá-lo de volta ao papel no sexto filme, assim os produtores procuraram muito e decidiram pelo desconhecido modelo australiano George Lazenby. Apesar de não ser Sean Connery, os produtores da EON estavam dispostos a deixar Lazenby no papel ao menos para mais um filme. No entanto, num dos processos mais gritantes de autossabotagem de carreira, o modelo se negou a retornar, já que adepto da contracultura hippie da época, acreditava que a franquia era arcaica e que não sobreviveria a era Easy Rider – Sem Destino da nova Hollywood.

Mais uma vez estava aberta a caça por um protagonista. Mas quem estaria à altura do papel. O desespero era tanto que os produtores estavam abertos inclusive a terem americanos vivendo o personagem, e nomes como Burt Reynolds e Adam West (o Batman do seriado dos anos 60) eram considerados. Os dois negaram o convite afirmando que James Bond deveria ser britânico. Outro cogitado foi um então jovem Michael Gambon (o segundo Dumbledore, de Harry Potter), que igualmente recusou por se considerar fora de forma para o espião. John Gavin, o herói de Psicose (1960), outro americano, chegou muito perto de ganhar o papel, mas terminou embarreirado por parte da equipe.

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No fim, a ordem do dia foi: consigam Sean Connery, custe o que custar. E assim, o astro escocês deixou o dinheiro falar mais alto e topou voltar a papel. Bem, e quando digo dinheiro, me refiro a uma pequena fortuna no valor de 1.25 milhão de libras – hoje equivalentes a quase R$9 milhões. A quantia, porém, foi doada por Connery para o fundo de educação da Escócia. Além do pagamento, o contrato de Connery garantia um acordo de mais dois filmes com a United Artists da escolha do ator. No fim das contas, somente o elogiado Até os Deuses Erram (1973), de Sidney Lumet, foi produzido. O ponto era: Connery estava de volta.



Com o retorno do ator, a EON visava fazer bom uso desta volta, já que poderia ser a última. Assim, o plano era por algo próximo ao bem sucedido Goldfinger (1964) e para isso Guy Hamilton, o mesmo diretor, era trazido de volta à franquia também. Chegou-se inclusive a cogitar o retorno do ator Gert Fröbe, intérprete do vilão, para o papel do irmão gêmeo de Goldfinger. No fim das contas, ficou decidido pela adaptação do livro Os Diamantes São Eternos, cujo resultado do filme muito pouco tem do texto original. Na verdade, a trama parece basear-se mais num sonho que o produtor Albert R. Broccoli teve em que viajava a Las Vegas para encontrar o amigo milionário recluso Howard Hughes, somente para descobrir que em seu lugar havia um impostor.

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James Bond

Connery, Sean Connery. O ator retornava ao papel pela última vez na cronologia oficial da franquia.

O chamariz de Os Diamantes São Eternos, o sétimo filme oficial da franquia, definitivamente era o retorno do único e insubstituível Sean Connery de volta ao papel de James Bond, imortalizado por ele. Nada mais importava. Os dois lados estavam felizes com o acordo. Conney ganhou uma bolada e o contrato que queria. E o ator não fez corpo mole, seu desempenho é mais enérgico do que nos dois filmes anteriores que protagonizou. Legitimamente, Connery parece estar se divertindo em sua participação. Porém, um pouco mais velho, com 41 anos na época, o ator parece não ter se empenhado muito em seu físico e sua aparência para viver o papel desta vez. De uma forma geral, os fãs apontam para seu visual “cansado” e envelhecido no sétimo filme.

O motivo para um James Bond “desgastado” pode ter sido a diversão exagerada de bastidores. Filmando em Las Vegas e com o produtor Broccoli tendo muitos contatos na cidade, Connery confessou em entrevistas que a diversão se estendia das telas para os bastidores. Segundo o próprio, ele saía todas as noites, aproveitando o entretenimento de Las Vegas ao máximo, assistindo a espetáculos, jogando muito golfe e quase não dormia. Passando por um divórcio na época, Connery ainda aproveitou para se envolver em muitos romances, incluindo com suas duas coprotagonistas femininas no longa. Fato que irei adereçar abaixo.

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Missão Secreta

Como dito, a trama leva James Bond para o antro da diversão que é Las Vegas. 007 não está nessa pelo entretenimento, no entanto, e o espião continua seguindo a trilha de Blofeld – que escapou novamente no desfecho de A Serviço Secreto de Sua Majestade. Aqui, porém, mais um descaso gritante na continuidade da franquia. Podemos considerar uma espécie de trilogia interna dentro da franquia, com os filmes Só Se Vive Duas Vezes (1967), A Serviço Secreto de Sua Majestade (1969) e Os Diamantes São Eternos (1971) num aspecto narrativo, mesmo tendo ocorrido uma troca de intérprete com o protagonista. Isso se deve porque nos três filmes, Bond investe diretamente contra o cabeça da organização SPECTRE, que esteve nas sombras durante todos os filmes anteriores (tirando Goldfinger) e foi aos poucos sendo trazida às claras, até o ápice nestes três filmes citados.



Além de Bond, seu principal antagonista Blofeld igualmente assumiu novas feições a cada aparição. Começando por Donald Pleasence (o mais memorável e ameaçador, apesar do pouquíssimo tempo em cena), seguindo por Telly Salavas e concluindo no pior deles, Charles Gray aqui neste filme. Desta vez, para se adequar ao sonho de Broccoli, Blofeld está em Las Vegas se passando por um magnata recluso, que é a representação fictícia de Hughes. Para tal o vilão passou por uma série de cirurgias plásticas – que é o toque mais interessante da trama. Daí temos explicada a mudança de ator. Aqui, Blofeld tem cabelos grisalhos ao invés da costumeira careca. Seus planos envolvem contrabandos de diamantes, mísseis e o uso de dublês se passando por ele.

O descaso com a continuidade está no fato de que no filme anterior, James Bond se apaixona e se casa, somente para ter sua esposa assassinada por Blofeld ao final da aventura. Fato sequer mencionado aqui nesta nova investida.

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Bondgirls e Aliados

A pin-up Jill St. John é a divertida Bondgirl Tiffany Case, uma contrabandista de diamantes.

Como dito, aos poucos a franquia foi jogando sua continuidade para o alto na era Sean Connery – com outros intérpretes isso seria mais levado a sério de um filme para outro. Aqui, tendo perdido a esposa por quem era apaixonado no filme anterior, James Bond nas formas de Connery se recupera maravilhosamente bem, sequer mencionando o fato uma vez. Pelo contrário, não demora para que se envolva com duas belas mulheres. A principal delas é Tiffany Case, uma malandra contrabandista de diamantes. A bondgirl é uma destas safas, que sabem se cuidar sozinhas, entrando para a galeria das melhores da franquia. Para o papel, a pin-up ruiva Jill St. John era conhecida na época por sua figura sexy e por ser modelo de biquíni. Fora isso, era notória “parceira” do rat pack, o grupo de amigos boêmios encabeçados por Frank Sinatra.

Houve certo drama de bastidores com a segunda Bondgirl Lana Wood, que tem um papel menor como Plenty O’Toole. Wood é irmã da estrela Natalie Wood, morta num passeio de barco junto ao então marido Robert Wagner. Lana acusa Wagner de ter assassinado sua irmã. Para piorar as coisas, após a morte de Natalie, Wagner casou-se com Jill St. John, que saiu em defesa do marido. Bem, reza a lenda ainda que Sean Connery teria se envolvido amorosamente com ambas Lana Wood e Jill St. John durante as gravações do filme.


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Vilões

Charles Gray foi o terceiro ator a interpretar o vilão Blofeld na franquia, aqui em uma versão “plastificada”.

O principal antagonista de 007James Bond retornaria como ameaça pela terceira vez consecutiva. Mas desta vez, sua aparência estava muito mudada. Para viver o papel, o ator Charles Gray foi contratado. Mostrando que a continuidade da franquia não é das melhores, Gray já havia aparecido no filme anterior de Connery, Só Se Vive Duas Vezes, interpretando outro papel. É notoriamente comentado entre os fãs, cinéfilos e especialistas que Gray não é só o ator que mais deixa a desejar no papel de Blofeld, como também é um dos vilões mais fracos da franquia. Sua versão de inimigo é praticamente caricata em todas as cenas.

Completando o time de vilões, temos um elemento bem interessante na franquia. Os Diamantes São Eternos marca o primeiro casal homoafetivo da série 007, com os personagens Mr. Kidd (Putter Smith) e Mr. Wint (Bruce Glover, pai do ator Crispin GloverDe Volta para o Futuro e As Panteras). Infelizmente, os personagens, um par de assassinos contratados da SPECTRE para eliminar James Bond, que chegam a dar trabalho para o agente secreto, termina sendo mortos por ele no desfecho do filme – embora anteriormente sugestionado que pudessem escapar para novas aparições.

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Relatório

A franquia 007 se despedida dos anos 60, sua época de auge, com seis filmes oficiais lançados. Agora, adentrava os anos 70, apostando de certa forma num tom mais jocoso e brincalhão, soando muito como uma paródia do que havia sido um dia. De certa forma, esta produção de 1971, embora ainda estrelada por Sean Connery, já ditava as regras e o tom do que viria a ser a era Roger Moore do espião, considerada por todos como o momento mais “galhofa” do personagem nas telas. Saibam, no entanto, que o início deste teor mais camp foi aqui em Os Diamantes São Eternos.

A trilha sonora viu o retorno de Shirley Bassey na abertura, cantora justamente de Goldfinger, interpretando a canção título. Essa não seria a última colaboração de Bassey na franquia.

Embora o desejo fosse por algo próximo a Goldfinger, o resultado ficou bem aquém. Bom, em termos de bilheteria, a volta de Sean Connery ao papel se mostrou bem sucedida, como não deixaria de ser. Os Diamantes São Eternos teve um público maior do que A Serviço Secreto de Sua Majestade e Só Se Vive Duas Vezes. Mas mostrando que mais dinheiro não é sinônimo de qualidade, enquanto A Serviço Secreto de Sua Majestade viveu para se tornar um dos favoritos dos fãs e de muita gente renomada (como Christopher Nolan e Quentin Tarantino), Os Diamantes São Eternos viveu para se tornar um dos menos apreciados pelos fãs e pelo público de forma geral. O filme não é só o pior da era Sean Connery, como também é um forte concorrente a pior de toda a franquia.

Sean Connery se despediria da série oficial, embora ainda retornasse ao papel num filme fora da cronologia da EON, e um novo James Bond seria introduzido. E esse viria para ficar…

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