Na ficção, criminosos e saudosismo andam tradicionalmente de mãos dadas

No episódio piloto da série Sopranos (Família Soprano), disponível no catálogo do HBO Max, é estabelecido uma situação em que o protagonista, Tony Soprano, está se consultando com uma psiquiatra após o mesmo sofrer um desmaio. Durante a consulta, a médica realiza as devidas perguntas de natureza pessoal (ainda que com reticências devido a ligação de seu cliente com o crime organizado) para encontrar a raiz de tanta ansiedade que assola Tony.

Em determinado momento ele deixa escapar um sentimento de saudade a respeito de tempos mais simples, quando havia uma noção de respeito entre os membros da máfia e a própria sociedade em geral parecia mais estável. Enquanto que, para a série, ela apresenta um elemento importante sobre um personagem que o espectador ainda não conhece, fora dela sua representação passa diretamente através de uma característica dos filmes de máfia.

Tal gênero é bastante antigo, com o primeiro exemplar datado de 1906 intitulado de Black Hand, ainda que por muito esse posto tenha sido ocupado por The Musketeers of Pig Alley. Entretanto, não seria até os anos trinta que esse tipo de produção ganharia verdadeiro destaque e até domínio sobre o mercado cinematográfico. Foi o período da Grande Depressão, somado aos anos anteriores da inflexível lei seca, que incitou no imaginário popular a imagem do gangster; verdadeiras figuras que operavam à margem da lei, bem vestidas e até mesmo heroicas ao encarar a face da morte.



Tony deixa escapar a saudade por um passado supostamente mais simples.

Scarface de 1932 é um bom exemplo; o mafioso inexperiente Tony Camonte, membro da comunidade de imigrantes italianos, começa a galgar os degraus do poder até chegar em uma conclusão que o coloca em um violento combate contra policiais (vistos, tradicionalmente falando, como uma força de opressão a essas comunidades). Não surpreendente, o filme foi alvo de grande censura à época de seu lançamento, ainda que o objetivo do diretor Howard Hawks não fosse a glorificação do estilo de vida violento da máfia.

No artigo Melodramas of Ethnicity and Masculinity: Generic Transformations of Late Twentieth Century American Film Gangsters, assinado por Larissa Ennis, apresenta um ponto de vista sobre essa geração dos filmes de máfia. “O gangster da proibição foi o primeiro verdadeiramente popular ciclo de gangsters, e na força de Little Caesar (1930) e The Public Enemy (1931), a Warner Bros. se tornou um proeminente estúdio da violenta realidade urbana… Gangsters da Era da proibição eram criminosos que desafiavam o status quo moral zombando das leis da proibição e controle policial para atingir sucesso material.”

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Ao final da década de 30 o embate entre o gênero de gangster e órgãos reguladores de filmes, principalmente o Production Code Administration que respondia à Motion Production Picture Code, enfraqueceria bastante esse segmento a ponto que produções do tipo se tornaram mais escassas e personagens que seguiam o arquétipo do mafioso seriam “transportados” para obras do gênero Noir principalmente.

O “Scarface” original é um exemplo do passado sempre referenciado nesse gênero.

Então veio o ano de 1972 e Francis Ford Coppola lançou o primeiro Poderoso Chefão, sucesso tanto de crítica quanto de público e maior bilheteria daquele ano. Mais do que qualquer coisa a adaptação do livro de Mario Puzo expandia os horizontes do modelo de filmes de máfia, não focando apenas na natureza violenta das guerras de rua mas também no âmbito cultural que esses indivíduos, enquanto imigrantes ou descendentes de imigrantes italianos, traziam de sua terra natal.



Dois anos depois veio a sequência, tida por muitos como superior ao original apresentando duas linhas do tempo prosseguindo simultaneamente: o presente com Michael lidando com o fardo da liderança e bastante focada nos Estados Unidos da década de 50, principalmente no que consta a dinheiro e política. Já a outra narrativa segue o jovem Vito Corleone fugindo da Itália e estabelecendo sua vida na América do Norte, essa muito mais preocupada em mostrar como a força cultural italiana guiava os costumes daquela comunidade recém chegada a um país estranho.

Inevitavelmente o imaginário popular sobre filmes de gangster agora voltara à ativa, com uma impressão não mais tão ligada aos excessos materiais e violência apresentados nos filmes da primeira metade do século XX mas pelo mafioso de veia cultural intensa apresentado em Poderoso Chefão

A saga da família Corleone foi um divisor de águas no gênero.

Outro ponto levantado pela sequência de Coppola é que sutilmente ele apresenta um certo apelo para a nostalgia de uma América mais simples, algo visível quando são postas lado a lado à complexa situação de Michael no presente com a ascensão de Vito no passado, onde amigos e inimigos supostamente são fáceis de discernir.

O autor John G. Cawaleti, em 1975, chama a atenção à metamorfose apresentada em O Poderoso Chefão para o cinema de máfia durante sua obra The New Mythology of Crime. “A nova mitologia do crime é precedida por Puzo usando a palavra ‘família’ para simbolizar a organização criminosa. Também possui o conceito de pai, mãe e crianças incluso. Até quando é necessário cometer um crime, o objetivo é a proteção da família. Logo, a romantização do crime, que segue à figura folclórica de Robin Hood, percorreu um novo caminho de contemplar o crime como positivo.”

Dez anos depois e uma nova produção mostraria em definitivo a ligação existente entre o gênero de gangster e a nostalgia. O diretor Sergio Leone já havia construído, quando chega o ano de 1984, uma carreira em Hollywood como um mestre do faroeste em parcerias históricas com Clint Eastwood. Seus filmes de maior sucesso foram aqueles que integraram a trilogia dos dólares: Por um punhado de Dólares, Por uns Dólares a mais e Três Homens em Conflito.

Por décadas Leone tentou pôr em prática o sonho de adaptar o livro The Hoods, escrito pelo ex-mafioso Harry Goldberg sob o pseudônimo de Harry Grey, lançado em 1953, e de caráter biográfico sobre parte de sua vida na máfia. Após convencer o autor, Leone começou a pré-produção de Era Uma Vez na América com Robert De Niro no papel principal. Em termos gerais o filme segue o gangster Noodles por entre a juventude e idade adulta, mostrando como ele entrou no mundo do crime e, principalmente, sofreu as consequências dessa escolha.

O épico de Leone é a declaração definitiva sobre o saudosismo dos filmes de máfia.

No entanto, mais do que isso, as relações de amizade que Noodles constrói com outros jovens sem perspectiva em uma Nova York do início do século XX é o que mais o impacta ao atingir uma idade avançada. Constantemente é mostrado o personagem remoendo o passado, expondo a saudade sentida por amigos que já morreram ou até mesmo por mudanças inevitáveis em seu antigo bairro.



É através do vai e volta narrativo entre passado e presente que Leone expõe a nostalgia sentida e desejada pelo protagonista, sem precisar apelar para declarações verbais. Sentimento esse que move o personagem na linha do tempo atual para frente e cria as deixas necessárias para as sequências no passado, que justamente servem para reforçar esse sentimento no presente. 

Não à toa, essa ideia da máfia outrora perfeita se torna, em anos seguintes, um elemento recorrente. Os Bons Companheiros de 1990, considerado o grande representante do gênero naquela década, utiliza o saudosismo do protagonista como um elemento de desenvolvimento, do momento em que ele entra na máfia até as consequências.

Por fim, na altura da estreia de Sopranos em 1999 o gênero gângster já era bem diferente do que fora em outrora. Não só o estilo mafioso precisou ser adaptado para uma realidade em que tecnologia era mais presente na vida diária, mas que tal avanço automaticamente gera um desejo saudosista por uma época que já passou (a mesma de filmes como Scarface e Little Caesar). A nostalgia então se torna um elemento inesperado e presente na vida criminosa do cinema.

 

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