Jurassic World – Domínio, sexto filme na franquia blockbuster dos dinossauros de Steven Spielberg, segue fazendo barulho nas bilheterias mundiais. Tendo estreado no dia 2 de junho aqui no Brasil (e na mesma época em grande parte do mundo), a superprodução já soma mais de US$ 645 milhões mundiais aos cofres da Universal Pictures, se tornando assim a quarta maior bilheteria do ano nos EUA (atrás apenas – até o momento – de Top Gun: Maverick, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura e The Batman) e também mundialmente, tendo ultrapassado recentemente Water Gate Bridge, superprodução chinesa de guerra. Temos certeza, porém, que até o final de sua estadia nas salas de cinema, esta configuração irá mudar radicalmente, com o blockbuster dos dinos escalando algumas posições no ranking.

Jurassic World – Domínio é o terceiro do derivado Jurassic World, iniciado em 2015 com O Mundo dos Dinossauros, e continuado com Jurassic World – Reino Ameaçado, de 2018. Mas é preciso levar em conta que tudo começou verdadeiramente lá atrás, em 1993 com Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros. E que foi a partir dele, e de suas continuações Jurassic Park – O Mundo Perdido (1997) e Jurassic Park III (2001), que o derivado Jurassic World surgiu para se transformar numa febre com as novas gerações. O fenômeno de Jurassic Park (1993), no entanto, jamais será equiparado. Seu feito na história da sétima arte e na indústria do entretenimento é algo sem precedentes. Podemos dizer, entre outras coisas, que Jurassic Park foi o epicentro da dinomania que tomou conta do mundo nos anos 90 (você pode conferir a matéria sobre o tema no link abaixo).

Leia também: ‘Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros’ e a Dinomania que dominou os anos 90

Na década de 1990, tudo em relação aos répteis pré-históricos rendia rios de dinheiro. E pode ter certeza que tudo foi feito com os dinossauros no período, desde desenhos animados na TV, longas em animação nos cinemas, séries em live-action com animatrônicos impressionantes até hoje e, é claro, filmes dos mais variados gêneros contendo os lagartões. Uma das mais toscas e desavergonhadas, no entanto, foi a tentativa de “clonar” Jurassic Park, porém, com um sexagésimo de seu orçamento. Tinha como dar bom?



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Para começarmos a falar do trash Carnossauro, é preciso voltar à suas raízes. Tudo teve início, acredite, na forma de um livro escrito pelo autor australiano John Brosnan que, talvez com medo do resultado de seu produto, usou um pseudônimo assinando o romance como Harry Adam Knight. E pior, com o livro Carnossauro sendo lançado em 1984, muitos consideram que foi o autor Michael Crichton quem se inspirou nele para escrever o seu Jurassic Park, lançado em 1990. Nada comprovado, é claro. Ou seja, em se tratando de pioneirismo, este é um caso onde isso não adiantou muito. Ao menos no que diz respeito à suas contrapartes audiovisuais.

Carnossauro, o filme, também teve sua estreia nos cinemas precedendo à do “primo rico”, já que foi lançado com três semanas de antecedência em relação a Jurassic Park e pôde se alimentar bem antes que a concorrência chegasse atropelando. Carnossauro (Carnosaur, 1993) é uma produção do lendário rei do cinema B, Roger Corman. O cineasta é um verdadeiro ícone de Hollywood, tendo servido em seus projetos de porta de entrada para muita gente tarimbada, do nível de Jack Nicholson, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e do próprio Steven Spielberg, todos saídos da escola Corman de cinema em seu início de carreira, tendo trabalho junto com o diretor.


Roger Corman é um verdadeiro mestre, mas o que acontece é que possui mais vontade e talento do que recursos. Suas produções são sempre de baixíssimo orçamento e quando a história requer elementos grandiosos, como digamos, dinossauros vivos convincentes, isso pode se tornar uma grande pegadinha. Corman comprou os direitos do livro de Brosnan em 1991, um ano depois de Crichton publicar seu Jurassic Park. Prevendo o burburinho de bastidores em Hollywood, e o movimento da Universal Pictures, da Amblin e de Steven Spielberg em direção ao projeto de trazer os dinossauros de volta à vida em grande estilo, Roger Corman iniciaria a produção de sua versão dos dinos na mesma época, para se beneficiar do hype gerado pelo blockbuster, além da campanha de marketing massiva que o “concorrente” teria – e que o seu não poderia bancar.

Com medo de ser considerado ainda um plágio maior e de eventualmente ser processado, Roger Corman trouxe o diretor Adam Simon (que comanda a obra) para reescrever uma porção significativa do livro, criando novos caminhos para a história na versão cinematográfica. De fato, o autor John Brosnan disse ter reconhecido muito pouco de seu texto no produto final nas telas, e afirmou não ter gostado muito do resultado do filme. Apesar disso, confessou também que a obra trash serviu para levantar as vendas de seu romance na época do lançamento. Assim, enquanto no livro tínhamos um jornalista britânico investigando ataques selvagens, fazendo vítimas fatais na Inglaterra, o filme eliminava o elemento do repórter e trazia a trama para os EUA. Fora isso, no texto original quem estava por trás da volta dos dinossauros à nossa época era um excêntrico milionário (algo como uma versão deturpada de John Hammond). O ricaço criava as criaturas e as matinha em cativeiro numa espécie de zoológico pessoal. No entanto, assim como em Jurassic Park, as criaturas escapavam e davam início ao banho de sangue.

Carnossauro, o filme, conta sobre a análise e aprovação de um grande laboratório que junto ao governo inicia experiências para a criação de dinossauros em nossos tempos, através da genética. Sem que saibam, a Dra. Jane Tiptree, a cientista louca e vilã do longa, já está bem avançada em seu trabalho e inclusive começa a dar vida por conta própria a estes animais. Ela mexe no DNA de galinhas e são elas que dão à luz os seres pré-históricos, colocando ovos gigantescos e se estourando no processo (ninguém disse que seria fácil). Como se não bastasse, a insana doutora ainda infecta com um vírus diversas mulheres, que terminam impregnadas e “parem” ovos com os dinos dentro!? A ideia da cientista é repovoar a Terra com os lagartões e deixar surgir uma nova era dos dinossauros.


Como se a trama sem noção e sem sentido não fosse o bastante, Carnossauro ainda faz uso de verdadeiros “defeitos especiais”; já que como dito, o orçamento do longa foi algo em torno de US$1 milhão (talvez menos), o valor do lanche da equipe de Jurassic Park – que fez uso de US$63 milhões em seu valor de produção. Desta forma, enquanto os dinos de Spielberg eram criados num misto de animatrônicos e efeitos computadorizados revolucionários para a indústria, os de Carnossauro precisaram ficar à base de “manivela” – numa mistura de stop-motion, bonecos animatrônicos de variados tamanhos, e até mesmo atores usando roupas (pouco convincentes até para a época) de dinossauros.

Carnossauro apostou num elemento no qual Jurassic Park tinha que pegar leve: o gore! A sanguinolência é quase inexistente no filme de Spielberg, que precisava apelar a todo tipo de público, inclusive os adolescentes, e mesmo assim foi considerado muito intenso para os pequenos. Já Carnossauro deixava fluir rios de sangue, já que bons efeitos e encantamento com as criaturas não teria. Desta forma, o longa de Roger Corman se comporta mais como um terror slasher de baixa categoria do que com uma aventura de tirar o fôlego. Mas não pense você que as coincidências entre as duas produções acabam por aí. Pois Corman tratou de escalar um rosto muito conhecido para o papel protagonista da Dra. Tiptree: a veterana Diane Ladd – mãe na vida real da atriz Laura Dern, que estava protagonizando a superprodução da Universal e Spielberg.


Carnossauro fez o dobro de seu orçamento nas bilheteiras, mas se favoreceu mesmo devido às vídeo locadoras, onde o filme pôde prosperar com o público desavisado ou ávido por consumir mais e mais sobre dinossauros. Tal sucesso garantiu a produção de duas sequências, lançadas direto em vídeo (em 1995 e 1996) e dois derivados: Raptor (2001) e The Eden Formula (2006). Fora isso, Carnossauro se transformou em produção cult, entrando para a seleta lista dos melhores filmes ruins já produzidos, daqueles que dão a volta completa e se tornam bons de novo. Conhecidos também como prazeres culposos. Para termos uma ideia, até mesmo críticos do porte de Roger Ebert e Gene Siskel divergiram sobre sua visão do longa, com o primeiro o selecionando para ocupar a posição de pior filme lançado naquele respectivo ano, enquanto o segundo deu seu aval o aprovando – e certamente entrando mais no clima da brincadeira trash da obra e não a levando tão a sério.

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