Crítica | ‘A Grande Ilusão’ escorrega com um roteiro exagerado, mas entrega ótimas atuações

Crítica livre de spoilers.

Harlan Coben é um dos escritores de maior sucesso da contemporaneidade, tendo assinado romances como ‘Fique Comigo’, ‘Refúgio’, ‘Não Conte a Ninguém’ e vários outros. E, considerando sua enorme popularidade entre os fãs do gênero de mistério e suspense, não é surpresa que vários títulos de seu catálogo tenham ganhado adaptações audiovisuais – como, por exemplo, a recente e pouco conhecida ‘Shelter’, que estreou no ano passado no catálogo do Prime Video. Agora, mais uma de suas histórias é levada às telinhas através da Netflix – e, para o bem ou para o mal, A Grande Ilusão é exatamente o que esperaríamos de uma produção de Coben.

Considerando o estilo literário do romancista, era apenas natural que uma minissérie inspirada no livro homônimo contasse com os seguintes elementos: uma grande tragédia envolvendo os personagens protagonistas (ou, neste caso, uma série de tragédias); assuntos não resolvidos de um passado remoto; e acontecimentos estranhos que, em algum momento, irão se conectar de uma forma chocante. É exatamente isso o que o show nos entrega e, embora não emerja como uma investida original ou que traga elementos novos a um gênero explorado ad nauseam por realizadores televisivos e cinematográficos, é adornado com atuações espetaculares que nos desviam, em partes, de um excesso criativo que se torna cansativo.

A trama acompanha Maya Stern (Michelle Keegan), uma ex-militar que lida com o brutal assassinato do marido e, agora, deve lidar com uma vida nova ao lado da filha e ao lado de uma sogra que a despreza por não considerá-la “boa o suficiente” para fazer parte de sua alegadamente renomada família. Entretanto, Maya se vê em uma rede de mentiras e de intrigas que se estende por quase três décadas quando, em uma gravação, ela vê o marido “voltar dos mortos” de forma inexplicável. A partir daí, ela é obrigada a agir por conta própria contra todos aqueles em que confiava para descobrir a verdade e entender que nada é o que parece ser.

Como já mencionado nos parágrafos acima, o elenco é o elemento de maior sucesso dentro da intrincada e complexa estrutura criada por Danny Brocklehurst (que também assina o roteiro). Keegan, que ganhou notoriedade no final dos anos 2000 ao estrelar a soap opera ‘Coronation Street’, rouba os holofotes ao acrescentar, episódio a episódio, inúmeras camadas a uma personagem bem delineada, cujos traumas de seu tempo no exército ainda a assombram. Mas ela não está sozinha: temos também a presenta de Adeel Akhtar como o detetive Sami Kierce, rendendo-se a uma das melhores performances de sua extensa carreira; a icônica Joanna Lumley encarnando a odiosa agressividade passiva de Judith Burkett, sogra de Keegan; e Laurie Kynaston interpretando o hacker e jornalista Corey Rudzinski. É claro que certas construções são pautadas em arquétipos clássicos de contos de mistério, mas os clichês são usados a favor das restrições autoimpostas pela série.

Há dois problemas principais que mancham a estrutura da obra: o primeiro deles refere-se à duração e à longeva diluição dos episódios. O romance original de Coben poderia ter sido condensado em uma minissérie de apenas três capítulos ou talvez um filme; todavia, a decisão em explorar o enredo da maneira que nos é apresentada torna a experiência um tanto quanto cansativa, repetindo cliffhangers e motes para preencher vazios criativos com uma cíclica sucessão de fatos. O segundo deles também refere-se a uma escolha artística que é redundante a qualquer momento que aparece: em cada uma das iterações, a montagem mergulha em uma prolixa utilização de flashbacks para explicar eventos de episódios anteriores que estão frescos na memória do público.

Ademais, os diretores David Moore e Nimer Rashed fazem um sólido trabalho, esquadrinhando brincadeiras com tons azulados e sóbrios e com uma paleta que vibra em explosões verdes e acinzentadas para demonstrar a mistura excruciante entre ansiedade, letargia, frustração e decepção. A trilha sonora, assinada por David Buckley e Luke Richards, é construída com dissonâncias instrumentais e sintetizadores urgentes – que partem de um princípio conhecido dentro desse espectro, mas que funciona como força-motriz de sensações e dos arcos dos personagens.

Mesmo com vários deslizes óbvios, A Grande Ilusão é um bom e divertido título da Netflix – e uma adição considerável ao catálogo de obras de Coben que ganharam adaptações. É claro que não podemos desviar o olhar dos obstáculos enfrentados por uma ousadia sem limites, porém, o peso de um elenco estelar é o suficiente por nos guiar nessa aventura instigante.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.