Tem sido um longo e estonteante caminho para os nossos queridos protagonistas de Pose, facilmente uma das melhores produções de Ryan Murphy e companhia – e um desses complexos e apaixonantes personagens é, sem dúvida, Pray Tell, interpretado com maestria pelo vencedor do Emmy Billy Porter.

Começando como mestre de cerimônias do ballroom frequentado por Blanca (Mj Rodriguez), Electra (Dominique Jackson), Angel (Indya Moore) e tantos outros, Pray Tell mergulhou em um arco de queda e de redenção belíssimo e cativante, transformando-se em vilão e em mocinho a partir de inúmeros elementos, desde a traumática e abusiva infância aos amores que encontrou em Nova York e ao fato de ter sido diagnosticado com HIV/AIDS. Agora, em “Take Me To Church”, quarto episódio da temporada final da obra, chegou seu momento de enfrentar certos fantasmas do passado, regressar à terra natal e entender, da maneira que conseguir, o que o levou a se afastar com tanta convicção da mãe e dos amigos.

Não é surpresa que, para um capítulo tão importante quanto este, o próprio criador e showrunner Janet Mock tenha retornado para a direção e o roteiro – ainda mais por ter emprestado suas habilidosas mãos para a incrível estreia “On the Run”. Apesar dos obstáculos que encontra pelo caminho, incluindo um trôpego ritmo e algumas escolhas estéticas desnecessárias, Mock transforma a iteração em uma ode à vida e uma reparação metafísica de problemas que ainda não se resolveram, mesmo vinte anos depois. E é dessa maneira que tudo se articula como uma inversão de papéis e uma narrativa que, por mais óbvia que aparenta, ainda consegue nos arrancar lágrimas pelas performances indescritíveis de cada ator e atriz.

A parte mais interessante, por incrível que pareça, resume-se a uma meticulosa e relativamente ousada condução, que, respaldando-se nas fórmulas dramáticas, não deixa que transpareçam com a facilidade imaginada. Enquanto na semana passada Jackson tomou as rédeas para uma “história de origem” de Elektra, Porter faz o máximo para seguir esses passos antológicos – mas focando mais no término de uma subtrama que clamava por uma conclusão. Afinal, ao longo da série, o público teve contato com alguns aspectos de sua infância e adolescência, até o momento em que não se sentiu mais acolhido pela comunidade de nascença e resolveu recomeçar em um dos principais centros urbanos do planeta. Mock, levando em conta tal premissa, transmuta a visceralidade citadina em uma aspiração suburbana e católica que preza pela simplicidade e pelo tradicionalismo.



Entre simetrias gritantes e uma sutileza metafórica que demonstra os dois lados de uma mesma persona, o enredo fica em segundo plano e se esquece de si mesmo. Era de se imaginar que, resolvendo visitar a mãe (Anna Maria Horsford) após descobrir que tinha apenas seis meses de vida, houvesse um confronto acerca da orientação sexual de Pray Tell e o fato de ter contraído HIV/AIDS. Consecutivamente, era também de se esperar que ambos perdoassem um ao outro pelos erros que cometeram e redescobrissem a alegria de uma família há muito desmantelada – ora, ela até mesmo o convence de ir para a igreja onde cantava uma última vez, permitindo-lhe que mostre toda sua fragilidade através do gospel.

O relacionamento entre os dois é um tanto circinal e “forçado”, por assim dizer, preferindo encontrar-se numa felicidade fabulesca do que numa realidade pungente. Mas os laços com a tia (vivida majestosamente por Jackée Harry) e com um ex-amante que não aceita a si mesmo, Vernon (Norm Lewis) são as momentâneas investidas que deixam tudo ainda mais intrincado, flertando com um cru saudosismo que nunca toma forma. As reflexões que Pray Tell faz quanto ao passado limitam-se a uma frustrante breve sequência em que ele e Vernon se beijam pela primeira vez e atraem olhares maldosos de pessoas que, tecnicamente, deveria respeitar e não julgar o próximo.

Imprimindo críticas ao fanatismo religioso e às controversas ideologias do catolicismo, Mock, Steven Canals e Brad Falchuk, todos contribuindo para o roteiro, não tira sarro de extremismos indefensáveis, mas abre portas para uma exploração de mentalidade preponderante dos anos 1980 e 1990, em que tabus sobre HIV/AIDS e sobre a comunidade LGBTQIA+ regiam uma sociedade patriarcal e estagnada no tempo (não que isso seja muito diferente, hoje, apesar de termos evoluído consideravelmente). Porém, mais do que apenas jogar profusamente comentários, vê-se uma análise que, mesmo arranhando a superfície, já um começo digno para o que precisa ser discutido na atualidade e que data de décadas atrás.

A terceira temporada de Pose pode ter deslizado em certos momentos nesse mais novo episódio, mas ainda tem potencial de sobra para entregar aos fervorosos fãs um grand finale mais que merecido – despedindo-se aos poucos de personagens memoráveis e que, com a mais absoluta certeza, deixarão saudade.



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