Britney Spears tem uma carreira bastante delineável e automaticamente reconhecível. Estreando 1999, a artista se consagrou como a voz de uma geração (com mais precisão, de uma geração teen que ganhava expressividade em meados da última década do século passado). Com o lançamento de ‘…Baby One More Time’, Spears causou um impacto enorme no mundo da música que seria reconhecido até os dias de hoje; pouco mais tarde, ‘Oops!… I Did It Again’ alicerçava um domínio cultural refletido no mercado fonográfico em termos técnicos e comerciais; Britney, apesar de ter dividido a crítica à época, marcava o início de uma transição identitária que a trazia para a vida adulta e todas as problemáticas implicadas (incluindo fama, solidão e martírio).

Mas o que isso significava para o futuro?

Enquanto a performer mergulhava, ano após ano, em um turbilhão criativo (auxiliado pelas habilidosas mãos de Max Martin e Rami Yacoub), ela percebia que poderia ousar mais do que estava acostumada, se afastando das críticas sem fundamento que recebia de conservadores e da imagem solidificada como uma eterna adolescente. Ora, “Overprotected” e “Bombastic Love”, por exemplo, vinham demonstrando apreço pelo novo e pelo inexplorável, levando-a a pensar em formas diferentes de se manter “refrescante” em uma indústria dominada pelo exagero. Dessa maneira, Britney insurgiu como primeiro capítulo de uma longa jornada que se estenderia aos anos 2020 – e que, para o bem ou para o mal, teria seu ápice com o revolucionário In The Zone.



São poucos os artistas que conseguem se revitalizar álbum após álbum – e Britney faz parte dessa seleta lista, mas não do jeito que pensamos: ela não apenas se manteve a par das tendências que dominavam a arte mainstream, como se reconstruiu ao se aliar com produtores e compositores inesperados e mostrar que ainda tinha muito a oferecer. Por esse motivo, seu 4º álbum de estúdio carrega um importante status, representando uma divisão na carreira da princesa do pop e na percepção da mídia acerca das jovens cantoras que começavam a trilhar seus caminhos no show business. Sendo ou não a melhor entrada da discografia, a verdade é que ninguém pode tirar a notoriedade desse compilado de canções (entre altos e baixos): aqui, a adolescência é uma fase que ficou para trás e, como resposta, somos presenteados com uma vibrante chama que exala sensualidade e autoconhecimento.

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In The Zone fez um estrondo enorme nas paradas globais, garantindo mais um #1 na Billboard 200 para Britney e alcançando vendas estelares. Além de ter gerado quatro singles oficiais, a obra reuniu Roy “Royalty” Hamilton, Bloodshy & Avant, Mark Taylor e vários outros para celebrar o ícone reverenciado no qual a cantora tinha se transformado. Aludindo a nomes como Kylie Minogue, Madonna e Blondie, há diversas tracks que merecem nossa atenção, mesmo que divisórias: a canção de abertura, “Me Against the Music”, reúne a realeza da cultura pop em uma rendição que faz bom uso da presença apaixonante de Spears, mas, em uma oposição gritante, faz com que Madonna desapareça num dançante background; “Outrageous”, que amalgama hip hop e R&B, é esquecida quanto comparada a faixas anteriores e posteriores mais bem organizadas.

Felizmente, os deslizes são pontuais e não conseguem ofuscar a beleza de músicas que beiram a perfeição, senão a atingem. Falar da frenética “Toxic” e da tocante balada “Everytime” é cair na redundância do que representam para a arte da performer, visto que são duas de suas marcas registradas. Talvez o melhor seja destinar mais atenção às iterações não muito comentadas ou que foram desperdiçadas pela negligência da produtora responsável pelo álbum. A extravagância proposital de “(I Got That) Boom Boom”, que traz os vocais dos gêmeos Ying Yang, incorpora elementos orientais à predominância explosiva da contracultura do hip hop e do UK garage; “Early Mornin’” presta homenagem ao clássico ‘Erotica’, tanto na sinestesia instrumental quanto no conteúdo lírico; e “The Hook Up” promove uma mudança total de estilo e abre espaço para a fusão aplaudível do dance e do reggae.



É preciso dar destaque a como Spears não pensa duas vezes antes de se jogar de cabeça no experimentalismo, como visto em “Breathe on Me”. A quarta faixa do álbum, de longe a maior obra-prima que já lançou, é indesculpavelmente sexual, envolvente e sensorial em todos os sentidos – uma infusão espetacular de techno, dance, hi-NRG e trip-hop que se aglutina numa coesão surpreendente, influenciando Rina Sawayama, The Weeknd e Billie Eilish (para citar alguns exemplos). “Touch of My Hand” se entrega às fábulas orientais como forma de criar metáforas para a masturbação (uma das temáticas encaradas como tabu pelos tradicionalistas); e “Brave New Girl” volta a fazer uma brusca curva ao abraçar o Eurodance e o funk, reminiscência deixadas por ‘Fever’, de Minogue, de dois anos antes.

Com In The Zone, Britney Spears mostrava que não temia qualquer um que ousasse desmenti-la como uma artista original. Mais do que isso, demonstrou conhecimento de si própria para renegar dos rótulos concedidos a ela em um passado recente e ambicionar pelo que quisesse.

Nota por faixa (Digital Deluxe Version):

1. Me Against the Music (feat. Madonna) – 2/5
2. (I Got That) Boom Boom (feat. Ying Yang Twins) – 4/5
3. Showdown – 4/5
4. Breathe on Me – 5/5
5. Early Mornin’ – 4,5/5
6. Toxic – 5/5
7. Outrageous – 2,5/5
8. Touch of My Hand – 3,5/5
9. The Hook Up – 3,5/5
10. Shadow – 4/5
11. Brave New Girl – 5/5
12. Everytime – 5/5

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