Se você – como eu – acredita que competência e engenhosidade são elementos essenciais para tornar algo comum em extraordinário, saiba que a terceira temporada de Ozark é a combinação ideal para o seu exigente repertório. Desde a estreia em 2017, os criadores Mark Williams e Bill Dubuque tinham uma pérola em mãos apresentada com certo conservadorismo pela Netflix, no entanto, as nomeações e consequentes vitórias no Emmy 2019 aumentaram os holofotes à produção tanto quanto a sua excelência. 

Na primeira temporada, o espectador é jogado na adrenalina de Wendy (Laura Linney) e Marty Byrde (Jason Bateman) de abandonar Chicago para lavar o dinheiro de um cartel mexicano na cidade lacustre Ozark, no Missouri. Já na segunda temporada, os episódios continuam a apresentar complexidade dramática e suspense, mas perdem latitude com os personagens decadentes Rachel (Jordana Spiro), Cade (Trevor Long) e Roy Petty (Jason Butler Harner). Todos, felizmente, excluídos desta terceira parte. 

 

Após a reviravolta do último episódio, no qual Wendy mostra a sua ambição e Marty a sua temperança, o primeiro capítulo começa seis meses depois desta resoluta disparidade, só que ainda mais acentuada. Na mira do FBI, depois da morte do agente Petty [spoiler da 2ª temporada], o Marty pretende manter a maré baixa, todavia, a ambiciosa Wendy deseja propor uma expansão dos negócios legítimos ao chefão Omar Navarro (Felix Solis).

Na primeira cena desta terceira jornada, dirigida por Jason Bateman, é possível ter uma ideia do campo minado o qual os protagonista vão percorrer pelos dez episódios. Em uma perturbadora demonstração da guerra entre cartéis, Ozark apresenta a premissa de uma possível ruína do império de Navarro ameaçado por seus rivais, no entanto, Wendy enxerga esta batalha como uma oportunidade de negócio. 

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Com confiança abaixo de zero em sua parceira, Marty grampeia suas ligações e se antecipa a cada passo para demovê-la. A luta de gato e rato, entretanto, perde fôlego já no terceiro capítulo, quando Navarro intervém na disputa de poder do casal. Todos os personagens introduzidos nesta temporada tiveram um desempenho fenomenal, é impossível imaginar o auge do seriado sem a presença da terapeuta oportunista Sue Shelby (Marylouise Burke) e, sobretudo, de Ben Davis (Tom Pelphrey), irmão de Wendy. 

Além de nos lembra Keanu Reeves, Pelphrey é a peça desencadeadora dos melhores momentos da série, equilibrando o seu lado inocente e protetor com a sua violenta e alucinada personalidade. Personagens bipolares são extremamente desafiantes, portanto encontrar a dosagem ideal é quase como montar um castelo de cartas próximo a uma janela aberta. Sem grande destaque em Punhos de Ferro (2017-2018), desta vez, o ator alcança a medida exata para conquistar o confiança de Ruth (Julia Garner) e desestabilizar a feroz Wendy. 

Após faturar o Emmy no último ano, Julia Garner voltou ainda mais vibrante. É impressionante como a atriz de 26 anos consegue fazer a figura rústica de Ruth a personagem mais intrigante de Ozark. Em outras palavras, Ruth Langmore mantém um véu sobre os seus sentimentos e reage explosivamente a qualquer ataque. Seu principal rival nesta temporada é o projeto de mafioso Frank Cosgrove Jr (Joseph Sikora), no entanto, as suas camadas mais delicadas também são expostas por meio do seu primo Wyatt (Charlie Tahan) e o apoio emocional de Ben Davis. 

Desde a primeira cena, culminando como o magistral sexto capítulo, Su Casa Es Mi Casa, os roteiristas conseguiram jogar com todas as peças disponíveis e conectar engenhosamente todos os pontos desde o início do seriado. O episódio começa com uma discussão entre Wendy e Marty, em frente à terapeuta, digna da tensão de Scarlett Johansson e Adam Driver em História de um Casamento (2019). Assim, ele termina ainda com uma estupefata e brutal brutal, vista em filmes de Tarantino. 

Como perfeição é uma utopia, existem situações ilógicas e despropósito narrativo, grande parte está em torno das ligações telefônicas na trama. O líder de um cartel internacional, por exemplo, não ligaria diversas vezes para alguém sob investigação do FBI. Outra incoerência é o personagem secundário Ben possuir o telefone da advogada Helen Pierce (Janet McTeer) gravado na memória. 

Em meio a tantas situações, deslizes menores não maculam o roteiro. O enredo promove uma reviravolta à Darlene Snell (Lisa Emery), a qual no futuro, provavelmente, tornar-se-á a enorme pedra no sapato do casal Byrde. Com a guarda do bebê Zeke (Ethan e Lucas Kook), a viúva começa a estruturar os seus alinhados a partir de sua malícia e destreza. Afinal, a ex-rainha da cocaína de Ozark sabe como atar alguns nós. 

A fotografia azulada do seriado mergulha o espectador em um ambiente gélido, tanto pela frieza dos personagens quanto a passividade deles diante de fatos aterrorizantes. Este estilo de produção, assinado pelo diretor/cinematográfico Alik Sakharov, já é uma marca de Ozark ao transmitir a solidão e a melancolia da luta diária pela sobrevivência. Em um dos episódios, Wendy verbaliza essa sensação, a qual ela denomina ser melhor que a entediante vida anterior de mãe e dona de casa de classe média. 

A partir deste ponto, é possível fazer uma analogia com o fim do longa Guerra ao Terror (2009), de Kathryn Bigelow. O que mantém o espectador tão interessado em Ozark, além da brilhante dobradinha Bateman e Linney,  é como os protagonista lidam com as consequências de suas escolhas, entre mergulhar mais fundo ou fugir em um submarino. A grande questão desta temporada é o que Marty e Wendy querem realmente conquistar nesta perigosa aventura. 

As comparações com Breaking Bad (2008-2013) são inevitáveis, apesar de universos dissidentes, temos dois homens com habilidades extraordinárias, os quais encontram no crime uma forma de receber reconhecimento, ao mesmo tempo em que buscam uma saída para não morrer ou deixar a família padecer. Ainda sem destino definido para os Byrdes, depois do pungente nono episódio, Fire Pink, e os acontecimentos do décimo, a quarta temporada é uma verdade consolidada. 

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